Em ambiente de grande tensão nos bastidores e uma movimentação na cúpula dos três Poderes para avaliar o impacto da crise provocada pela revelação de mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, afirmou nesta quarta-feira (2) que a instituição vive um momento de “especial gravidade” e que as medidas “cabíveis e necessárias” serão tomadas no momento “devido”. “Em momentos de especial gravidade, é dever de todos preservar a integridade do Supremo Tribunal Federal, a autoridade de suas decisões, o respeito às suas normas e, acima de tudo, a confiança da sociedade na instituição”, afirmou Fachin pela manhã, em um evento realizado no STF para discutir resistência democrática e Justiça Constitucional. Leia mais: Sem citar diretamente os envolvidos no episódio, o ministro afirmou que os indícios colhidos até aqui exigem o “devido encaminhamento institucional”. Também afirmou que é necessário, neste momento, ter firmeza, mas também “serenidade e responsabilidade”. Ainda segundo Fachin, o cargo de ministro não deve conferir “privilégios”. “A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades, que devem ser observadas com absoluto respeito à Constituição, às leis e ao Supremo Tribunal Federal. Nos próximos dias, concluída a análise necessária dos fatos e observados os procedimentos institucionais pertinentes, esta presidência anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias”, concluiu. À tarde, apesar da crise, os ministros do STF ignoraram o caso na primeira sessão colegiada do plenário. Nenhum dos integrantes da Corte mencionou o relatório da Polícia Federal (PF) que havia sido tornado público na véspera pelo ministro André Mendonça, relator das apurações sobre o Banco Master. Segundo o documento, que foi requerido à PF por Mendonça, o ex-banqueiro buscava obter detalhes e interferir nas investigações que levaram à sua primeira prisão, decretada em novembro de 2025. Em um dos contatos, o então dono do Banco Master chega a perguntar, dois dias antes de ser detido, se deveria deixar o país. Também pediu proteção da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR). Na quarta-feira, os ministros tentaram passar a impressão de um clima amistoso: risonho, Moraes cumprimentou colegas no intervalo da sessão e conversou animadamente com Flávio Dino, por exemplo. Moraes e Mendonça sentam um do lado do outro no plenário. Eles não se cumprimentaram em nenhum momento. Todos os ministros evitaram falar com a imprensa na entrada e na saída da sessão. A segurança da Corte foi reforçada. Clima de incerteza e confusão Nos bastidores, contudo, prevalece a incerteza. Mendonça indicou a interlocutores que vai liberar o relatório da PF para análise do plenário na próxima semana. Em decisão dada na terça, ele afirmou que o caso deve ser submetido aos demais colegas em uma sessão pública e “transparente”. Marcar a data da análise do caso, no entanto, depende de Fachin. O ineditismo da possível abertura de investigação contra um integrante do Supremo tem gerado um sentimento de confusão entre integrantes da Corte. Eles dizem não saber ao certo o que Mendonça quer que seja julgado ao levar o relatório da PF ao plenário. Isso porque não há nenhum pedido específico de órgãos investigativos e persecutórios contra Moraes. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, inclusive, manifestou-se pela nulidade do relatório. O PGR, no entanto, aparece como uma das pessoas que tinha relação com Vorcaro na peça. Ele também participou da sessão desta quarta-feira à tarde no STF. “Nem nós sabemos. Não tem nada para o plenário apreciar. A não ser a manutenção ou não do parecer da PGR, o que não seria normal de se julgar”, exemplificou em reserva um ministro próximo de Mendonça consultado pelo Valor. A mesma opinião foi dada por outros dois integrantes da Corte, mais próximos de Moraes. Um deles criticou Mendonça. O problema, diz, é que não há nenhum pedido de apuração da PGR, a quem cabe oferecer ou não denúncias futuramente caso houvesse a abertura de inquérito. Outro ministro diz que não sabe o que esperar da sessão sobre o relatório. Ele cogita, por outro lado, que a análise sirva para balizar situações que tratem de investigações de ministros e em que não há pedido de investigação. Ele considera que a Corte pode optar por alterar o regimento interno definindo, por exemplo, a competência da presidência do STF para conduzir inquéritos sobre ministros abertos de ofício, se necessário. Interlocutores de Mendonça consideram importante uma análise colegiada e pública, como também tem defendido o ministro. Eles ironizaram o argumento de que a falta de interesse do MP inviabilizaria a continuidade das apurações. “Não tem me parecido um problema para o Supremo determinar investigações de ofício”, afirmou um deles, em referência a inquéritos como o das “fake news”, aberto sem a participação da PGR por Dias Toffoli em 2019 e conduzido por Moraes desde então. Tal como é hoje, cabe ao plenário do Supremo autorizar a investigação de integrantes da Corte. No caso de Moraes, a tendência é que o inquérito, se aprovado, seja presidido por Mendonça, relator das apurações sobre o Master. Fachin consulta magistrados Com esse pano de fundo, Fachin começou a procurar outros ministros. Ele está consultando os colegas para monitorar o ânimo da Corte sobre as informações comprometedoras que constam no relatório da PF. Há entre alguns ministros, inclusive próximos a Moraes, a impressão de que as revelações são graves, podem desgastar a Corte e impulsionar discursos pró-impeachment. Ainda não está claro, no entanto, como o Tribunal irá se portar se Mendonça pedir a abertura de uma investigação, o que tende a acontecer. Alguns integrantes da Corte são contrários a uma apuração por entender que ela poderia fragilizar a imagem do STF e expor outros magistrados a pedidos de impeachment. Também apontam um suposto atropelo regimental de Mendonça, afirmando que ele investigou Moraes sem aprovação do plenário. A conclusão de que Vorcaro mandou mensagens a Moraes consta de um relatório de 27 de agosto que estava em sigilo. O documento foi elaborado após uma decisão dada por Mendonça dias antes, em 24 de agosto. O ministro queria saber quem eram os destinatários de mensagens de visualização única que partiram do celular do ex-banqueiro. Mendonça convocou uma reunião com investigadores e apresentou o pedido pessoalmente. Integrantes da PF consultados criticaram a atuação e disseram que foram pegos de surpresa. O encontro causou desconforto porque os investigadores entenderam que a ordem buscava conduzir as apurações, o que cabe à corporação, sustentam. Eles também questionam o prazo que foi dado para a elaboração do relatório: 72 horas. O documento foi concluído no tempo estabelecido e tem 218 páginas, a maior parte delas tratando das mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes. Ao pedir a nulidade do relatório na terça, a PGR usou argumentos semelhantes. O órgão sustentou que Mendonça tentava dirigir as investigações e mirou em alvos específicos. Também afirmou que o ministro sabia que o destinatário das mensagens era Moraes e, portanto, teria investigado o magistrado sem autorização do plenário. Interlocutores de Mendonça no Supremo negaram que ele tenha atuado ativamente para investigar Moraes. De acordo com eles, o ministro só determinou que fossem identificados os destinatários das mensagens de Vorcaro, sem saber que Moraes acabaria citado no relatório. Embora caiba ao plenário decidir sobre a investigação de ministros, essas fontes afirmaram que não faria sentido pedir uma deliberação colegiada em um procedimento que não buscava atingir um integrante do Supremo.
Fachin fala em 'medidas cabíveis' após mensagens entre Vorcaro e Moraes, e sessão plenária do STF ignora crise
Presidente da Corte vê momento de gravidade e diz que ações virão no ‘tempo devido’











