Porto Seguro criou programa de incentivo à captura da espécie, que é exótica e não tem predadores naturais na costa brasileira; 442 exemplares já foram capturados 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Peixe-leão invade litoral da Bahia — Foto: Freepik A proliferação de um peixe venenoso no litoral de Porto Seguro, no sul da Bahia, levou a prefeitura a criar um plano de enfrentamento a espécie exótica. Em cerca de um mês, 442 exemplares de peixe-leão foram retirados da região por pescadores que participam de uma iniciativa da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Causa Animal (Semac). Pelo programa, os animais são entregues à Colônia de Pescadores, que contabiliza os animais e paga R$ 10 por cada peixe capturado. O incentivo financeiro foi previsto no Plano Municipal de Enfrentamento ao Peixe-Leão como uma medida temporária de controle da espécie e deverá ser mantido por mais um mês. A previsão da prefeitura é reduzir gradualmente o valor pago pelas capturas à medida que outras estratégias de manejo sejam implementadas. — No início, a gente viu resistência dos pescadores na captura. Estamos oferecendo um apoio para que possam trazer os exemplares. É importante dizer que é momentâneo e não vai resolver o problema da invasão da espécie. Mas é uma iniciativa para que os pescadores comecem a entender e sejam conscientizados sobre a importância de combatê-la no nosso litoral, que, consequentemente, também pode impactar o pescado da região — observa a bióloga Aluane Silva Ferreira, da Prefeitura de Porto Seguro. O peixe-leão é uma espécie exótica, nativa da região do Indo-Pacífico, que representa uma ameaça aos ecossistemas marinhos onde foi introduzida. Predador voraz, alimenta-se de diferentes animais marinhos e pode competir com espécies nativas por alimento. A preocupação, de acordo com a prefeitura, é que o crescimento da população altere o equilíbrio dos ecossistemas e afete também a atividade pesqueira, ao reduzir a disponibilidade de espécies importantes para a pesca local. Segundo Ferreira, a ausência de predadores naturais na costa brasileira favorece o crescimento das populações. — Infelizmente, ele não tem predadores naturais. A espécie acaba se multiplicando muito rapidamente e pode impactar tanto a biodiversidade local, nos recifes, quanto o pescado, já que se alimenta de alguns indivíduos que são muito importantes para a pesca da região — afirma. A primeira ocorrência oficial de peixe-leão no Parque Natural Municipal Marinho do Recife de Fora foi registrada em junho deste ano. A espécie, no entanto, já havia sido identificada em outras áreas do litoral baiano: em fevereiro de 2025, em Morro de São Paulo, e em julho do mesmo ano, em Taipu de Dentro, no município de Maraú. No Brasil, os primeiros registros ocorreram em 2014, no litoral do Rio de Janeiro. Desde então, a presença do peixe-leão também foi registrada em outros estados do Nordeste. Controle da espécie Peixes-leão são retirados do mar em Porto Seguro — Foto: Divulgação A prefeitura publicou um Plano Municipal de Ação para o enfrentamento do peixe-leão. O documento prevê ações de monitoramento, captura, pesquisa científica e capacitação de pessoas autorizadas a atuar no controle da espécie. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Causa Animal (Semac) também realiza reuniões com operadoras de mergulho que atuam no parque, pescadores e representantes da universidade para monitorar a presença do peixe e definir ações de resposta à invasão. Fora do Parque Natural Municipal Marinho do Recife de Fora, a captura do peixe-leão é incentivada entre os pescadores. Os exemplares capturados devem ser entregues à Colônia de Pescadores, responsável por contabilizar os animais e realizar o pagamento do incentivo. Já dentro da unidade de conservação, onde a pesca é proibida, a retirada dos peixes será restrita a equipes capacitadas e pesquisadores habilitados. A operação é realizada em parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e com operadoras de turismo que atuam no parque. Os animais retirados do mar não podem ser devolvidos vivos à água. Os exemplares recolhidos são encaminhados à UFSB, onde serão contados, pesados e medidos. A universidade também deverá realizar estudos sobre a alimentação, o tamanho, a genética, a origem e o comportamento dos animais. A pesquisa também pretende avaliar se o peixe-leão pode ser aproveitado para consumo humano e, a partir disso, integrar uma eventual cadeia produtiva. A proposta é estudar formas seguras de captura, limpeza e preparo do animal. Segundo Ferreira, o consumo do peixe-leão já ocorre em alguns locais, inclusive fora do Brasil, mas ainda não há uma cadeia comercial consolidada em torno da espécie. A baixa aceitação está relacionada, entre outros fatores, ao receio provocado pelos espinhos venenosos. — O peixe é comestível. Em alguns locais, já fazem a limpeza e se alimentam dele, mas ainda não existe uma cadeia produtiva consolidada e não há muita saída. As pessoas normalmente têm receio por causa dos espinhos. É possível retirar o filé e consumi-lo sem problemas, desde que seja feita a limpeza adequada e removida a parte externa que concentra os espinhos. Ainda não há uma aceitação grande — explica. A possibilidade de transformar a captura em uma atividade econômica também é estudada pelo município como uma estratégia de controle da espécie. No médio e longo prazo, estão entre as alternativas avaliadas a realização de torneios de pesca e de festivais gastronômicos voltados ao peixe-leão. Espinhos venenosos Peixe-leão possui 18 espinhos venenosos — Foto: Freepik Além do impacto ambiental, o peixe-leão exige cuidados por causa dos espinhos venenosos. A espécie possui estruturas capazes de inocular veneno nas regiões dorsal, pélvica e anal. A espécie é reconhecida pela coloração listrada e pelos longos espinhos. Predador voraz, o peixe-leão utiliza suas estruturas para encurralar presas antes de capturá-las. O contato com esses espinhos pode provocar dor intensa e inchaço no local atingido. Também podem ocorrer sintomas como náusea, tontura, fraqueza muscular, dor de cabeça e dificuldade para respirar. Por isso, a recomendação é que a captura seja feita somente por pessoas treinadas e autorizadas. A espécie costuma habitar áreas recifais. Apesar dos riscos, a presença do peixe-leão não significa que as praias devam ser evitadas. Segundo a especialista, o principal cuidado para os banhistas é não tentar tocar ou capturar o animal caso ele seja avistado. — Não há pânico em relação à identificação deles em áreas de praia ou de banho. Porém, é um peixe que tem espinhos com veneno. Se as pessoas encontrarem, a gente orienta que não peguem, não coletem nem encostem, porque isso pode ocasionar lesões e reações diferentes em cada pessoa — diz. Em Porto Seguro, a prefeitura afirma que a participação dos pescadores é considerada fundamental para tentar conter o avanço da espécie. — É importante que os pescadores entendam o tamanho da problemática do aparecimento dessa espécie na nossa costa e contribuam junto à secretaria no combate ao mesmo — conclui Aluane.
Peixe venenoso avança pelo litoral da Bahia e prefeitura oferece R$ 10 por cada exemplar retirado do mar
Porto Seguro criou programa de incentivo à captura da espécie, que é exótica e não tem predadores naturais na costa brasileira; 442 exemplares já foram capturados






