Marisa Orth, Miguel Falabella, Pedro Carvalho e Inês Aires Pereira: os dois casais do “Convite” português — Foto: Hugo Rodrigues/Divulgação Ainda faltam alguns meses para 2026 terminar, mas já é possível afirmar que “O convite” é o maior fenômeno de boca a boca da temporada cinematográfica. Cinco semanas depois da estreia, em 7 de julho, a comédia acumulava quase 400 mil espectadores e havia alcançado um retorno de bilheteria de mais de R$ 10 milhões. Isso num período de disputa de salas com os blockbusters “A odisseia” e “Homem-Aranha: um novo dia”. “O filme adulto de entretenimento, que costumamos chamar de ‘filme médio’, perdeu espaço nos últimos anos, mas a demanda não desapareceu”, diz Michelle Felício, gerente de marketing da distribuidora O2 Play. “O convite” é a refilmagem americana do espanhol “Sentimental” (2020), dirigido e escrito pelo catalão Cesc Gay, autor também da peça de teatro que o originou — um jantar de dois casais vizinhos que se veem levados a discutir detalhes íntimos de seus relacionamentos e posteriormente consideram a possibilidade de uma transa a quatro. O potencial de bilheteria dessa história foi atestado por uma sucessão de versões em pelo menos sete países, da França à Rússia, da Alemanha à Coreia do Sul. A versão portuguesa, “O pecado mora em cima”, está em fase de finalização e traz um bom naco de brasilidade: Marisa Orth e Miguel Falabella interpretam imigrantes que moram em Lisboa há tempos. “Nós fazemos o casal que parou de transar, enquanto o outro casal faz uma competição de orgasmos”, diz Marisa. Para ela, um dos fatores do sucesso do texto e do filme é fazer desse contraste um ponto de partida para discutir impasses nos relacionamentos. “Todo mundo quer falar sobre isso: o que a gente vai fazer quando chega a esse ponto. O casamento fechado não satisfaz mais; nem o aberto. Acontece com gente de todo tipo e de qualquer idade.” “Achei o roteiro interessante porque as pessoas ainda têm dificuldade em falar de seus desejos secretos”, diz Falabella. “Por mais que tenhamos evoluído como sociedade, isso ainda é um tabu. Prevalece a ideia da propriedade dos corpos: é obrigatório sufocar o desejo por qualquer outra pessoa.” Marisa sugere algo ainda maior. “A humanidade está numa esquina: há um amor que está acabando e outro que está começando.” O casal mais jovem e morador do apartamento de cima, de onde escapam sons de suas estrepolias libidinais, vem de um casamento que, desde o início, reserva as quintas-feiras para receber amigos em sexo coletivo. Há até um outro casal que está sempre presente, não importa se o total de participantes chegue a uma dezena. Os papéis desses vizinhos arrojados ficam a cargo dos atores portugueses Pedro Carvalho e Inês Aires Pereira, que emprestam seus nomes aos personagens. Carvalho é conhecido do público brasileiro por sua participação em várias novelas. Ambos têm ocupações que podem ser tão rendosas quanto fugazes, um reflexo do espírito ao mesmo tempo aventureiro e precário que orienta a relação. Inês, tal qual em “O convite”, é influencer especializada em relacionamentos, e Pedro é um stripper de programa de auditório conhecido como Bombeirão. O casal careta é formado por Lusa (Falabella), professor de literatura, filho de portugueses, e Iara (Marisa), que, segundo a atriz, “teve uma pálida carreira de coreógrafa e hoje manda umas dancinhas no TikTok”. Ao escolher atores e personagens brasileiros, a produtora Sónia Resende quis tratar da experiência da imigração. “É um tema fraturante [divisivo], mas decidimos abordá-lo de forma cômica”, diz Resende. “Hoje há um 1 milhão de brasileiros moradores de Portugal e decidimos mostrar como tem sido sua inclusão na sociedade portuguesa.” Há arestas nessa inclusão. No Brasil, Lusa era professor universitário de literatura portuguesa, mas, em Portugal, só conseguiu dar aulas no ensino médio, para turmas indisciplinadas. E Iara queixa-se de isolamento. “Ela diz que só conhece os peixeiros da feira e, mesmo assim, como têm sotaque açoriano, não entende direito o que eles dizem”, conta Marisa. “A personagem diz para o marido: ‘Vamos conversar, finalmente tem gente aqui’.” Falabella destaca que na adaptação portuguesa há um componente interessante, que não existe nem na espanhola, nem na americana. “O casal de cima também inveja o de baixo pela estabilidade e compromisso.” Para o ator, isso reforça o desejo de intimidade: “Embora ninguém se toque, o tempo inteiro há uma promessa de corpos, uma fisicalidade”. Em parte como resultado da escolha por personagens brasileiros, Resende, que viu várias das versões feitas fora da Espanha, considera a portuguesa aquela que mais alterações fez na história original. “Nós quisemos trazer a confluência entre Portugal e Brasil, mesmo nos temas considerados universais. Cada país tem culturas próprias também em termos de sexualidade e intimidade. Quem vê o filme revê um relacionamento que tem, teve ou deseja ter.” O roteirista Edson Athayde, publicitário brasileiro que mora há muito tempo em Portugal, procurou referências dos próprios atores para construir certos traços dos personagens. O fascínio de Falabella pela poesia foi levado para o personagem. Numa determinada cena em que ele deveria dizer versos de Luís de Camões, Falabella preferiu o príncipe dos parnasianos brasileiros, Olavo Bilac: “Foste o beijo melhor da minha vida, ou talvez o pior”. Marisa também deu palpites. Sua personagem tem um altarzinho ecumênico, e originalmente incluía Iemanjá, a orixá ligada à água doce. A atriz sugeriu a troca por Oxum, a autêntica detentora dos mares, algo que tem mais a ver com a histórica ligação de Portugal com o oceano. Na trilha musical, Marisa canta “A minha casinha”, sucesso da cantora Milú nos anos 40 e conhecida também pela versão da banda de rock Xutos e Pontapés. E, mais uma vez evocando a hibridez dos personagens, está presente o “Fado tropical”, de Chico Buarque. A presença brasileira também fez parte de uma estratégia de ampliar o público potencial. Ainda não há data para a estreia de “O pecado mora em cima” no Brasil, mas em Portugal o lançamento comercial será no dia 15 de outubro. O processo todo vem sendo muito rápido: as filmagens terminaram em 23 de julho, depois de três semanas e meia de imersão num cenário construído em estúdio. Para acelerar a conclusão, a montagem foi sendo feita conforme as cenas foram rodadas. Ainda que corrido, o ambiente no set foi dos mais divertidos, com risadas frequentes da equipe. Resende conta que os atores chegaram a ser rebeldes. “Quando havia algum intervalo para ajeitar câmera ou a luz, os quatro se juntavam para contar piadas uns aos outros, fazer brincadeiras e cantar”, lembra a produtora. “Às vezes tínhamos que interromper e dizer ‘olha, temos que filmar’.” Marisa destaca as gargalhadas que o personagem de Falabella desperta. “Ele é uma prima-dona que surta diante da situação.” O diretor Rui Pedro Souza é sócio de Sónia Resende na produtora Station, que vinha do sucesso do filme “Revolução (sem) sangue”. O coprodutor espanhol, Carlos Fernández, detém os direitos de “Sentimental” e lhes propôs fazer a versão portuguesa. Resende pensou em Marisa e Falabella — que estavam fazendo a peça “Fica comigo esta noite” em Portugal — para os papéis do casal imigrante e conservador, uma escolha que considerou ousada para uma empresa produtora relativamente recente. E de fato percebeu certa reticência dos dois, quebrada depois que leram o roteiro. A ousadia de Resende também está ligada ao imenso prestígio dos atores em Portugal, onde a série “Sai de baixo” continua fazendo parte da memória e do afeto coletivo, assim como o “Vídeo show”, apresentado durante 15 anos por Falabella, diariamente. “Nós somos muito famosos em Portugal. Caco e Magda [personagens de “Sai de baixo”] são quase uma religião”, diz Marisa. “Os portugueses são gratos, têm um respeito pelas comédias do Brasil que é uma loucura. Ainda me surpreendo como eles gostam da gente, é muito bonito.” Em 30 de setembro, Marisa e Falabella estreiam um texto inédito escrito por ele, “Quando menos se espera”, uma comédia interpretada por seis atores, três brasileiros e três portugueses. “É sobre um homem conservador, pai de família que chefia o lar com pulso firme e moral ilibada”, conta Falabella. “Em uma hora, o mundo dele vira de pernas para o ar; tudo o que ele defende vem abaixo. É sobre a imprevisibilidade da vida.”
Marisa Orth e Miguel Falabella fazem o casal careta da versão portuguesa de ‘O convite’
‘O pecado mora em cima’ traz a dupla como imigrantes que moram em Lisboa há tempos









