Os acionistas da USA Rare Earth, mineradora americana que tenta desafiar o domínio da China na produção de terras-raras, aprovaram na sexta-feira, em assembleia, um aumento de capital necessário para financiar a compra, por US$ 2,8 bilhões (R$ 14,5 bilhões), da Serra Verde Mineração, de Goiás, negócio anunciado em abril. A mineradora, controlada por fundos estrangeiros, tem em Goiás o que é tido como o maior projeto de produção desses insumos fora da Ásia. As terras-raras, cuja produção exige um complexo processo industrial, servem para fabricar uma série de insumos para a fabricação de produtos de alta tecnologia, com destaque para “ímãs permanentes”, usados em motores elétricos, drones, telefones celulares e turbinas eólicas. Domínio da China, reação dos EUA Nas últimas décadas, o avanço acelerado de processos industriais que tornaram a produção mais barata deu o monopólio da fabricação desses insumos à China. Por causa desse domínio, a produção de terras-raras se tornou central na disputa geopolítica entre EUA e China. Os chineses já usaram restrições de vendas como estratégia na guerra comercial e tarifárias com os americanos. USA Rare Earth tem capital aberto na Nasdaq A USA Rare Earth, corporação com capital aberto na Nasdaq, é uma das apoiadas. E o Brasil, que detém a segunda maior reserva de terras-raras do mundo, atrás apenas da China, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, em inglês), se destaca no mapa de oportunidades. — Foto: Editoria de Arte O aumento de capital aprovado na sexta-feira era passo necessário para o negócio anunciado em abril porque apenas US$ 300 milhões serão pagos em dinheiro. O restante da aquisição da Serra Verde será paga com ações da USA Rare Earth. A mina da Serra Verde, em Minaçu, norte de Goiás, é a única no Brasil pronta para extrair terras-raras — embora ainda esteja em fase inicial de crescimento da produção —, mas o capital da empresa já era estrangeiro. A mineradora era controlada por empresas de participações — as americanas Denham Capital e EMG e britânica Vision Blue. Com a aquisição pela USA Rare Earth, os atuais acionistas ganharão, em troca da mina e demais ativos, 34% de participação acionária na corporação americana, segundo documentos prévios à assembleia de acionistas de sexta-feira. Apoio financeiro direto da Casa Branca Toda a operação financeira teve apoio direto da Casa Branca. Antes do negócio, em fevereiro, quando do lançamento do Project Vault, a Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC), agência de fomento americana, aprovou um empréstimo de US$ 565 milhões para a Serra Verde (R$ 2,9 bilhões, pelo câmbio atual). O governo americano aportará US$ 750 milhões (R$ 3,9 bilhões) nesse fundo, que terá também investidores privados, com um capital total de US$ 1,55 bilhão (R$ 8 bilhões). Compra garantida, retorno no azul Essa parte da operação financeira é fundamental, porque uma das vantagens competitivas da China no setor é que, ao dominar todas as etapas da produção, as empresas chinesas vendem os insumos a preços imbatíveis. — Foto: Editoria de Arte Como o fundo capitalizado pelo governo americano firmou contrato de 15 anos de compra da produção da Serra Verde, por preços fixos, isso ajudará a mineradora a garantir uma operação financeira rentável, mesmo vendendo mais caro do que os chineses. Assim, a USA Rare Earth dá um salto na estratégia de controlar a produção de terras-raras em todas as etapas. A empresa americana desenvolvia uma mina no Texas e uma fábrica em Oklahoma, nos EUA, enquanto seguia com projetos de fábricas no Reino Unido e na França. Agora, com a mina e a usina de beneficiamento em Goiás, a companhia americana passa a ter um projeto que produz a partir de argila iônica, o mesmo tipo de reserva que levou a China a dominar o setor.