Fortes investimentos, salários líquidos aos jogadores e desvalorização da moeda local ajudam a explicar movimentações dos times na janela 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Novo reforço do Trabzonspor, Salah é recebido com festa na Turquia — Foto: Ozan KOSE / AFP Mohamed Salah no Trabzonspor, Lukaku, Greenwood e Aké no Fenerbahçe, Trossard no Besiktas e Rafael Leão no Galatasaray. Esses foram alguns dos jogadores que deixaram as grandes ligas da Europa nessa janela para jogar na Turquia, um campeonato fora do primeiro escalão, mas que chama atenção pelas contratações de nomes de peso. Apesar desse tipo de movimento não ser novidade no país, diversos fatores financeiros ajudam a explicar por que os quatro maiores clubes do futebol turco viraram um “bicho-papão” no mercado de transferências. Salah foi o principal nome da janela na Turquia. Após o fim do contrato com o Liverpool, o craque egípcio surpreendeu ao assinar com o Trabzonspor, time de fora da maior cidade do país, Istambul, e que não faz parte do trio mais tradicional do futebol turco — depois a equipe também contratou Fabinho, que estava na Arábia Saudita e disputou a Copa do Mundo pelo Brasil. Mesmo sem ser uma potência da Europa, o clube seduziu o atacante com um salário de 17 milhões de euros por temporada e um bônus de assinatura de 7 milhões de euros, além de 20% da receita obtida com a venda de produtos licenciados ligados ao atleta. O último grande jogador a movimentar o mercado na Turquia foi o atacante português Rafael Leão, anunciado pelo Galatasaray, no domingo, em um negócio de 38 milhões de euros com o Milan e um salário líquido de 10 milhões de euros por temporada. Rafael Leão é anunciado como reforço do Galatasaray — Foto: Divulgação / Galatasaray As contratações de jogadores badalados como Salah e Rafael Leão vão além do campo: elas atraem visibilidade, animam os torcedores, fomentam o mercado consumidor e movimentam até a economia local. Mas, para isso, é necessário gastar dinheiro, o que não é problema na Turquia. Na temporada passada, por exemplo, a liga turca teve o terceiro maior gasto em transferências do mundo — comprou bem mais do que vendeu —, atrás apenas da Inglaterra e a Arábia Saudita, levando jogadores como o atacante Osimhen (Galatasaray, que também contratou Gundogan e Leroy Sané, sem custos), o goleiro Ederson e o meia Asensio (ambos do Fenerbahçe). Em outros momentos, a Turquia já contratou nomes como Mesut Ozil, em 2021, Didier Drogba, em 2013, e o brasileiro Alex, que se tornou ídolo do Fenerbahçe entre 2004 e 2012. Os times da Turquia são ricos? Segundo Irlan Simões, pesquisador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esportes (Leme/Uerj) e fundador do Observatório Social do Futebol (Uerj), os times da Turquia são muito disputados politicamente e costumam receber fortes investimentos de patronos, mecenas, que acabam utilizando-se disso de forma política. A liga turca também tem forte poder aquisitivo, e, com um mercado consumidor grande, torcidas muito engajadas, arrecadam alto, como em cotas de televisão e patrocinadores. Já Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil — empresa de entretenimento norte-americana, comandada pelo cantor Jay-Z, que gerencia a carreira de centenas de atletas — destaca que a Turquia passou a tratar os grandes craques do futebol mundial como empresas. E aqui entra um ponto importante: os salários são pagos líquidos no país, com os impostos sendo arcados pelos clubes. Assim, Salah recebe, na prática, 50% a mais do que em seu último contrato com o Liverpool, de acordo com o jornal The Guardian — como ele chegou sem custo de transferência, o Trabzonspor pôde direcionar o dinheiro para os vencimentos. Com isso, para entregar ao jogador o mesmo salário líquido, times em outros países precisam investir significativamente mais. — Assim como governos concedem incentivos para que indústrias se instalem em seus países, reduzindo impostos, os turcos passaram a tratar jogadores como geradores de atenção e de novos negócios. Com uma carga tributária equivalente a um terço da carga das principais ligas europeias, ao final de cada mês, franceses, espanhóis e até mesmo portugueses, para oferecerem a um atleta um mesmo salário líquido, precisam desembolsar muito mais. Todos os atletas do mundo são ao menos trinta por cento mais caros nas outras ligas relevantes da Europa — explicou Thiago Freitas. Lukaku é anunciado como reforço do Fenerbahçe — Foto: Divulgação / Fenerbahçe A essas diferenças tributárias, soma-se o fato de que a lira (moeda turca) se desvalorizou demais em relação ao euro na última década — hoje, 1 euro vale cerca de 56 liras turcas. Assim, os clubes da Turquia passaram a ter receitas em uma moeda mais forte, como cotas de transmissão e premiação de competições europeias, e certas despesas no seu dinheiro local. Nesta janela, por exemplo, o Trabzonspor vendeu Oulai, de 20 anos, para a Fiorentina, por 26 milhões de euros, e o brasileiro Felipe Augusto, de 22, para o Zenit, por 15 milhões de euros, enquanto o Fenerbahçe faturou 24,5 milhões de euros com Sidiki Chérif, de 19, negociado com o Coventry City. Outro fator que pode pesar na escolha dos atletas pelo futebol turco é a carreira na Europa. Mesmo fora das cinco grandes ligas (Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França), o jogador pode continuar disputando competições como a Champions League, em vez de ir para mercados alternativos como da Arábia Saudita e dos Estados Unidos, e receber também grandes salários. Um cenário capaz de atrair nomes de diferentes perfis, como Trossard, campeão da Premier League sendo titular pelo Arsenal, Greenwood, atacante de 24 anos, e Salah, já em reta final da carreira. Impacto dos investimentos Diante disso, os clubes conseguiram investir pesado no mercado. E o retorno foi imediato. Em 24 horas após a chegada de Salah, o Trabzonspor vendeu mais de 17 mil ingressos de temporada — funciona como um passe anual que garante acesso aos jogos em casa —, gerando cerca de 11 milhões de euros. Em toda a temporada passada, foram vendidos 6,5 mil ingressos. Já segundo o portal 61saat, da Turquia, o clube vendeu 82 mil camisas em apenas duas semanas após a chegada do egípcio — mais de 40% do total de 200 mil da última temporada. O Fenerbahçe, por sua vez, contratou Mason Greenwood por 39 milhões de euros, Nathan Aké por cerca de 8 milhões e Romelu Lukaku por 6 milhões, reforços que se juntam a um time com Kanté, Ederson e Asensio, jogadores que construíram suas carreiras nos principais palcos da Europa. No primeiro grande desafio da temporada, a equipe eliminou o Lyon nos playoffs da Champions League, com uma vitória fora de casa, e garantiu a vaga na fase de liga da principal competição europeia, e, consequentemente, maior premiação — o Galatasaray também vai disputar o torneio. Já o Besiktas garantiu sua vaga na Europa League, enquanto o Trabzonspor foi goleado pelo Ferencváros por 4 a 0 nos playoffs e caiu para a Conference. Essa leva de contratações, no entanto, cria um problema a ser administrado pelas equipes: a quantidade de estrangeiros. A liga turca tem um limite de 14 jogadores de outros países que podem ser relacionados por partida, sendo dez sem restrição de idade e quatro nascidos a partir de 1 de janeiro de 2004 (cerca de 22 anos). Com isso, o brasileiro Anderson Talisca, por exemplo, ficou fora do jogo do Fenerbaçe contra o Konyaspor, no último dia 22. No duelo seguinte, contra o Lyon, pelos playoffs da Champions, a escalação titular do time teve dez estrangeiros — o torneio europeu não tem limite de inscrição. O único turco entre os 11 iniciais foi o atacante Aydin. O elenco do Fenerbahçe conta com 20 estrangeiros no total. Dívidas sem fim Apesar do forte poder de investimento e badaladas contratações, os times da Turquia convivem com grandes dívidas. Ou seja, gastam muito mais do que arrecadam. Os quatro grandes, somados, devem mais de 1 bilhão de euros. Para tentar diminuir o prejuízo, alguns clubes escolhem vender ativos. O Galatasaray, por exemplo, vendeu seu centro de treinamento, em 2023, ao município de Istambul por cerca de 480 milhões de euros, segundo o jornal The Telegraph. Mesmo assim, eles passam pelas regras do Fair Play Financeiro da Uefa, que, em poucas palavras, tentam impedir que clubes gastem mais do que arrecadam. Trossard em campo pelo Besiktas. Ao fundo, bandeira da torcida com a comemoração do jogador — Foto: Divulgação / Besiktas — Os clubes turcos já foram multados e punidos por não cumprirem com determinações do Fair Play Financeiro, mas as punições não são rigorosas o suficiente para que políticas definitivas sejam implementadas. Além disso, planos locais de renegociação de dívidas geraram capacidade adicional de endividamento, em cenário similar ao que se deu no Brasil com o regime de centralização de dívidas e recuperação judicial. O peso político de obrigar grandes clubes, marcas que mobilizam dezenas de milhões, a abdicarem de competitividade, é enorme, e poucos estão dispostos a arcar com isso — afirmou Thiago Martins. Assim, os clubes turcos encontram um cenário que lhes permite ser agressivos no mercado de jogadores, mesmo sem necessariamente terem uma estrutura financeira mais saudável do que a das grandes ligas europeias.