Em uma eleição considerada “apertada” por aliados de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), os quatro estados com maior concentração de eleitores indecisos na nova rodada da pesquisa Quaest, divulgada neste mês, passaram a receber atenção especial das campanhas. No topo do ranking estão colégios eleitorais populosos e decisivos para o pleito, como Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de Rio Grande do Sul e Paraná, com uma variação entre 18% e 16% de entrevistados sem um candidato definido. A disputa por esse contingente levou os dois lados a combinar estratégias territoriais, com presença física em palanques, e à elaboração de discursos voltados a temas específicos. No caso de Flávio, três dos quatro estados já coincidem com áreas que a campanha vinha tratando como prioritárias. A tentativa de alcançar esse eleitor passa por concentrar o discurso em segurança pública e custo de vida, temas que levantamentos internos identificaram entre as principais preocupações do eleitorado, ampliar a exposição na TV e recorrer a aliados locais para divulgar a candidatura. Com secretário de Bukele Ontem, Flávio fez mais um movimento para reforçar seu foco na segurança. Ele se reuniu com o ministro de Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, com quem discutiu ideias para o combate do crime organizado. Flávio disse se inspirar no país de Nayib Bukele, sobretudo na ampliação de presídios — Tem pouco preso no Brasil, tinha que ser mais. Só não tem mais porque a legislação é frouxa, então por isso nós vamos criar mais meio milhão de vagas em presídios — disse. Entre os locais considerados cruciais para Flávio está Minas, segundo maior colégio eleitoral e onde indecisos são 17%. O estado foi a segunda parada de Flávio na campanha, onde neste momento há empate técnico entre o senador (31%) e o petista (30%). Flávio esteve em Belo Horizonte e participou de agenda com Flávio Roscoe, candidato do PL ao governo, além de dividir atos com Nikolas Ferreira (PL), personagem que o QG da campanha considera especialmente útil para ampliar a capilaridade entre jovens e conservadores. A previsão é que o presidenciável volte ao estado outras quatro vezes antes do primeiro turno. O diagnóstico da campanha é que há espaço para avançar sobre uma parcela do eleitorado que não está necessariamente disponível para Lula, mas tampouco se considera bolsonarista A dificuldade é que, por trás do percentual de indecisos, convivem perfis distintos de eleitores que já votaram na esquerda e hoje estão frustrados com o governo, antigos eleitores de Bolsonaro que não se sentem representados pelas opções atuais e até bolsonaristas que ainda não transferiram o voto para Flávio. — Preciso dele (Flávio) pelo menos duas vezes aqui e acredito que ele virá. Tem muito indeciso. Quem é Lula já falou que é Lula, e indeciso não vai para Lula. Se não, já tinha ido. Nossa tendência é crescer — afirma o presidente do PL mineiro, Domingos Sávio . A campanha de Lula também identifica nos indecisos um eleitorado que pode ser convencido a partir de argumentos específicos. O entendimento é que a comparação do atual governo com o de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, será o principal trunfo para conquistar esse eleitor. A expectativa é que no horário eleitoral seja possível explorar com mais ênfase essa estratégia, o que poderia render um aumento na rejeição do adversário. Em Minas, o PT conta com candidatura própria de Patrus Ananias. A campanha também aposta na presença constante do presidente no estado. O petista foi nos dois últimos sábados a Belo Horizonte, o mais recente em evento focado no público feminino Mulheres com Lula, com a primeira-dama Janja Lula da Silva e as candidatas ao Senado, Marília Campos (PT) e Áurea Carolina (PSOL). — Nós entendemos que esse eleitor buscará elementos da razão e não da emoção, para formar sua opinião. Vai, de forma mais pragmática, comparar os candidatos, suas trajetórias, histórias de vida e propostas. Esse perfil do eleitorado vai buscar na racionalidade as respostas para os problemas que ele enfrenta sobre emprego, renda, segurança, saúde e educação. Acreditamos que o legado de trabalho do governo do presidente Lula é um elemento muito importante — afirma Éden Valadares, secretário de comunicação do PT. Desafio no Rio No Rio de Janeiro, onde a Quaest registra 16% de indecisos, a estratégia de Flávio tem sido rodar o estado. O candidato abriu oficialmente a corrida presidencial em Copacabana, depois fez compromissos na Baixada, com passagens por Nova Iguaçu e Duque de Caxias, e participou de ato no Maracanãzinho. No último sábado, participou de uma barqueata em Angra dos Reis. O Rio é onde a campanha tenta repetir a margem obtida por Jair Bolsonaro sobre Lula para compensar desvantagens em outras regiões — na última pesquisa, há também um empate técnico, com Flávio marcando 31% e Lula 29%. Já Lula, que esteve no Rio no dia 22, deve voltar mais algumas vezes ainda antes do primeiro turno. O petista dará apoio a Eduardo Paes, hoje à frente de Douglas Ruas (PL), aliado de Flávio. Dos quatro estados, Flávio tem aliados liderando as pesquisas no Rio Grande do Sul e no Paraná, com os candidatos Luciano Zucco e Sérgio Moro. Lula resolveu apoiar nomes do PDT, em quadro mais desfavorável: Juliana Brizola (RS) e Requião Filho (PR). Flávio estará em Porto Alegre na quarta-feira, onde há 18% de indecisos, o maior patamar. Ele vai gravar material para rádio, televisão e redes com os candidatos ao Senado Marcel van Hattem (Novo) e Ubiratan Sanderson (PL). A estratégia dos petistas também parte de uma tentativa de transformar ações do governo em argumento para conquistar o eleitor, segundo o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), candidato ao Senado. Após ter uma agenda de Lula cancelada no estado, petistas gaúchos trabalham para levar o presidente ao estado ainda no primeiro turno. No Rio Grande do Sul, Flávio está à frente com 34% das intenções de voto, segundo a Quaest. Já Lula marcar 28%. No Paraná, os indecisos, são 17%, mas a vantagem de Flávio é grande: tem 41% contra 23% de Lula. O PL organiza uma viagem ao estado para setembro. Na campanha de Lula há a expectativa também que o presidente vá pelo menos ao estado. Quem são indecisos A publicitária Jessica Pançardes, de 26 anos, moradora de Conservatória, no Rio, é uma entre os indecisos de estados-chave. Ela votou em Bolsonaro em 2022 e costuma escolher candidatos conservadores. Sua vontade, porém, é se abster. — Voto sempre em candidatos voltados à direita no espectro político. Mas não vejo nenhum candidato que represente meus valores — afirma. Há também uma parcela considerável de indecisos em outros estados. Em Pernambuco, com 11% sem voto definido, a advogada Camilla Camelo, de 29 anos, moradora do Recife, sempre votou à esquerda, mas diz ter caminhado em direção ao centro. Ela cogita anular pela primeira vez. — Dado os últimos quatro anos, vemos os brasileiros endividados. Isso me fez parar para refletir se quero mais quatro anos de Lula. As promessas não chegam — diz.
Lula foca em legado e Flávio em segurança para atrair eleitor nos quatro estados com mais indecisos
Disputa por esse contingente levou os dois lados a combinar estratégias territoriais, com presença física em palanques, e à elaboração de discursos voltados a temas específicos











