Avaliação é da jornalista Renata Cafardo, autora de 'O algoritmo das famílias', livro lançado neste mês sobre como o mundo digital desafia a forma de criar os filhos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Criança no celular — Foto: Freepik O tempo que crianças e adolescentes passam em frente a telas perdeu espaço entre pesquisadores para definir o uso adequado de redes sociais. Num cenário de aplicativos com design manipulativo e conteúdos radicalizados, estipular uma quantidade de horas supostamente segura para crianças e adolescentes passarem nesses ambientes dá uma sensação irreal de proteção às famílias, avalia a jornalista Renata Cafardo, autora de “O algoritmo das famílias”, livro lançado neste mês sobre como o mundo digital desafia a forma de criar os filhos. — Uso moderado é aquele que não prejudica a criança a realizar outras atividades. É um problema, por exemplo, se ele estiver deixando de fazer exercícios físicos, de sair com os amigos, de conversar com pessoas, de ir a festas e outras coisas para fazer sempre algo ligado a telas — explica Cafardo, repórter de Educação do jornal O Estado de S. Paulo e presidente da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca). Historicamente, consolidaram-se entre sociedades médicas diversas recomendações de tempo de uso para crianças e adolescentes. No entanto, a mudança contínua das plataformas e a radicalização dos conteúdos fizeram com que essas orientações perdessem espaço para avaliações mais complexas. — Agora, a gente sabe que alguns minutos podem ser também um grande problema, não só pelo conteúdo, mas pelo design (da rede social) — afirma a autora. Em “O algoritmo das famílias”, Cafardo aponta uma série de riscos aos quais crianças e adolescentes estão sujeitos no mundo digital. Entre os mais graves, está o acesso facilitado a pornografia, inclusive de material que retrata atos abusivos e misóginos, o que, segundo a Unicef, pode levar meninos a normalizarem esse comportamento. Um estudo do Reino Unido também aponta para o aumento de índices de depressão em meninas com o maior uso das redes sociais. Além disso, observa no livro, pesquisadores da Universidade de Pequim, na China, descobriram que o simples ato de rolar um feed automático, independentemente daquilo a que se está assistindo, reduz a propensão ao pensamento analítico. — A rolagem infinita gera impactos na aprendizagem por prejudicar a memória e o foco. Enquanto isso, as notificações, que chegam sem parar, geram distrações e mexem com o sistema de recompensas do cérebro, a liberação de dopamina, o que pode causar vício — diz Cafardo. Ofensivas Na última semana, uma série de medidas no Brasil e nos Estados Unidos tem buscado aumentar a proteção a crianças e adolescentes nas redes sociais. A Meta, controladora do Instagram, fechou acordo com vários estados americanos em que se compromete a limitar o tempo de uso das plataformas por menores de idade e a pagar US$ 17 bilhões (R$ 87,5 bilhões). Já no Brasil, o governo federal acionou o Discord na Justiça pedindo o pagamento de R$ 500 milhões por dano moral coletivo devido à “proteção insuficiente” a mulheres, crianças, adolescentes e animais. Além disso, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) multou em R$ 153,7 milhões o TikTok por falhas no tratamento de dados pessoais de menores. Mudanças concretas nas redes sociais para que crianças e adolescentes naveguem em ambiente protegido, no entanto, ainda estão distantes. Por isso, os pais seguem com o desafio de controlar o uso das plataformas por seus filhos, o que vem causando tensão nas famílias. Cafardo cita as pesquisadoras britânicas Sonia Livingstone e Alicia Blum-Ross, que no livro “Parenting for a Digital Future” acusam o “discurso público opressivo” sobre tempo de tela de enfraquecer o ideal de diálogo e negociação dentro das famílias. A jornalista aponta em sua obra que “cresce na sociedade a ideia de que bons pais são aqueles que conseguem controlar o uso da tecnologia” e que “as famílias exemplares seriam aquelas cujos filhos usam o celular com moderação, não parecem reféns dos vídeos curtos, não se deixam capturar pela fantasia da perfeição das redes, não se expõem demais, não causam problema on-line”. — Mesmo o pai que tenta ser democrático, em vários momentos, quando não sabe mais como tirar aquela criança do celular, acaba apelando para o desespero autoritário porque o filho está “viciado” — diz. Sentar e conversar De acordo com ela, no entanto, o caminho que pais devem seguir ainda precisa ser o da conscientização. Cafardo acredita ser preciso explicar aos jovens sobre os riscos das redes sociais e como elas são construídas para manter o usuário o tempo todo on-line. Ainda assim, diz a jornalista, é preciso observar com o que crianças e adolescentes estão acessando no mundo digital. — A supervisão não pode ser um problema para pais que são democráticos. A rede social e os dispositivos digitais têm que estar sempre supervisionados pelos pais. É preciso usar controles parentais, como aplicativos que indicam as pesquisas que as crianças estão fazendo. Tem que haver esse controle o tempo todo — avalia. A estratégia também é indicada por especialistas em educação parental. De acordo com Claudia Alaminos, “conversar não significa deixar a decisão na mão deles”. — Conversar, no caso do celular, significa explicar por que determinado limite passou a existir. É importante ouvir as necessidades desse adolescente e estabelecer regras claras. A família pode decidir, por exemplo, que ninguém pega no celular na hora do jantar ou no período logo anterior ao sono, para que haja um certo relaxamento — afirma Alaminos. Ainda segundo a especialista, é também fundamental o exemplo dos adultos. — É muito difícil convencer uma criança ou um adolescente a não usar o celular na mesa quando os adultos usam, muitas vezes, sob o pretexto de que vai chegar uma mensagem do trabalho. Quanto mais a família comprar essa regra, mais fácil fica de a criança ou do adolescente engajar.
Design sedutor e conteúdo radical fazem tempo de tela deixar de ser métrica para uso seguro de redes
Avaliação é da jornalista Renata Cafardo, autora de 'O algoritmo das famílias', livro lançado neste mês sobre como o mundo digital desafia a forma de criar os filhos







