Ex-judoca une sua voz, por muito tempo reclusa, à luta pela inclusão no esporte feminino 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Judoca Edinanci Silva conversando com médico Bernardino Santi, durante treinamento em Sidney-2000 — Foto: Ivo Gonzalez / Agência O Globo / 01-09-2000 Tive a honra de apresentar as duas últimas edições da cerimônia de introdução de atletas ao Hall da Fama do Comitê Olímpico do Brasil. Já até escrevi sobre uma delas neste espaço. E nesta sexta-feira, gravando o “Hello LA”, me lembrei da outra ao ver o sorriso de Edinanci Silva. Era o mesmo, na entrevista que deu a mim e a Fabi Alvim (para falar do lançamento de “Mulher forte sim senhor”, sua biografia, escrita pela jornalista Helena Rebello), de quando subiu ao palco de um salão do Copacabana Palace para receber a honraria. E, também como daquela vez, se misturava às lágrimas, que começaram a cair quando viu no telão as primeiras imagens que mostramos, de sua participação nos Jogos de Atlanta 1996. Eu era repórter do GLOBO e estava lá, cobrindo o maior evento esportivo do mundo pela primeira vez. Mas não a vi lutar. As provas de judô ficavam a cargo de Jorge Luiz Rodrigues, um dos grandes jornalistas com quem tive o prazer de trabalhar. Foi ele também que acompanhou o desgastante processo de liberação de Edinanci para competir em Atlanta. Por ter uma condição biológica que na época era definida como hermafrodita, ela precisou não apenas passar por testes físicos de feminilidade como também se submeter a um tratamento para limitar os níveis hormonais. “Naquela época não tinha rede social”, disse Edinanci na entrevista, sorrindo depois de ter enxugado as lágrimas. “Me diziam coisas horríveis na cara mesmo”. Nem todos os repórteres tinham a correção e o profissionalismo do Jorge, e ela foi vítima de muito sensacionalismo de vocês da imprensa. Finalmente liberada, passou a carregar nas costas “apenas” o peso de conquistar uma medalha inédita para o judô feminino do Brasil. Não conseguiu, mas não foi por acaso que conseguiu seu melhor resultado, um quinto lugar em Pequim 2008, depois que Ketleyn Quadros rompeu essa barreira. Hoje, ela seria chamada de atleta intersexo, um termo mais científico e menos ofensivo. E precisaria fazer um exame menos invasivo, com coleta de saliva. Mas não seria liberada para competir nos Jogos, por causa das novas diretrizes do Comitê Olímpico Internacional —como aconteceu com Caster Semenya, a sul-africana que dominava as provas de longa distância do atletismo. Edinanci foi solidária a Semenya na entrevista. E mais ainda a Tiffany, atleta trans (uma situação diferente, mas também passível de veto) que acaba de saber que não poderá disputar a Superliga pela décima vez em sua carreira, porque a Confederação Brasileira de Vôlei aderiu à nova regulamentação —que só é obrigatória para eventos olímpicos. O argumento usado pelo COI — proteger a integridade do esporte feminino — gerou uma onda de suporte, mais silencioso do que verbalizado, entre atletas mulheres. Mas também houve corajosos protestos, como os de Gabi e Rosamaria, da seleção feminina de vôlei. A voz de Edinanci, por muito tempo reclusa depois do encerramento da carreira, se junta à delas com duas palavras: acolhimento e inclusão. Ela precisou lutar muito por seu amor ao judô. E agora reaparece para nos lembrar que a sociedade não pode simplesmente deixar à margem quem não se enquadra em seus padrões.
O que Edinanci, mulher forte, tem a dizer
Ex-judoca une sua voz, por muito tempo reclusa, à luta pela inclusão no esporte feminino







