A trajetória de Yayoi Kusama, que morreu aos 97 anos em 14 de agosto de 2026, também foi marcada por uma controvérsia envolvendo trechos de sua autobiografia, publicada em 2002. Os trechos, de cunho racista, provocaram críticas e repercutiram anos depois, quando foi marcada exposição da artista no Museu de Arte Moderna de São Francisco, nos Estados Unidos, em 2023. Na ocasião, Kusama pediu desculpas pela linguagem utilizada e afirmou que sua intenção sempre havia sido defender valores de amor, esperança, compaixão e respeito. — Lamento profundamente ter usado linguagem ofensiva em meu livro — afirmou a artista. Na mesma declaração, Kusama acrescentou: — Minha mensagem sempre foi de amor, esperança, compaixão e respeito por todas as pessoas. Minha intenção ao longo da vida foi elevar a humanidade através da minha arte. Peço desculpas pela dor que causei. O que Kusama escreveu na autobiografia Em uma passagem do livro, Kusama descreveu pessoas negras como “seres primitivos e hiper-sexualizados”. Os trechos foram divulgados pelo site Hyperallergic e geraram questionamentos sobre a realização da exposição em São Francisco. A versão original da autobiografia, publicada em japonês, também continha outros trechos que foram posteriormente retirados da tradução para o inglês. Em um deles, Kusama chamou de “favela” o bairro de Nova York onde morava e afirmou que os preços dos imóveis estavam “caindo US$ 5 por dia” por causa de “negros atirando uns nos outros e moradores de rua dormindo na região”. Um crítico do San Francisco Chronicle questionou a decisão do Museu de Arte Moderna de São Francisco de manter a exposição. Pessoas observam a obra intitulada "Dancing Pumpkin", da artista japonesa Yayoi Kusama, na National Gallery of Victoria (NGV), em Melbourne, em 5 de junho de 2025 — Foto: AFP Museu discutiu como apresentar as contradições da artista O episódio levou a instituição a discutir de que maneira apresentar a trajetória de Kusama diante das declarações publicadas em sua autobiografia. O então diretor do museu, Christopher Bedford, afirmou que a instituição pretendia tratar o assunto de forma aberta e contextualizada. Segundo ele, a discussão permitiria “ser muito franco sobre a relação do museu com o anti-racismo” e “pensar sobre como podemos apresentar assuntos difíceis com nuances”. O museu também planejava um simpósio para discutir a autobiografia, a criatividade de Kusama e a relação entre a vida pessoal da artista e sua produção. A proposta incluía materiais para o público “sobre estas difíceis relações entre o criador e a obra”. A fama das bolinhas Yayoi Kusama nasceu em 1929, no Japão, filha mais nova de uma família abastada. Aos 10 anos, começou a produzir os padrões de pontos e redes que décadas depois se tornariam características centrais de sua obra. Segundo a própria artista, esse estilo nasceu de uma experiência durante a infância. Ela contou que, ao observar uma toalha decorada com flores vermelhas, passou a enxergar o mesmo motivo pelo ambiente e sobre o próprio corpo. — Um dia, depois de ver sobre uma mesa uma toalha decorada com um motivo de flores vermelhas, comecei a observar o mesmo motivo de flores vermelhas em todo o teto, nas janelas e nas colunas. Ele preenchia toda a sala e até cobria meu corpo. No fim dos anos 1950, Kusama mudou-se para os Estados Unidos e foi para Nova York, onde entrou em contato com a vanguarda artística. Durante os anos 1960, participou dos chamados “happenings”, produziu performances e passou a explorar a repetição de bolinhas. Nos anos 1970, voltou ao Japão e ingressou voluntariamente em uma clínica psiquiátrica de Tóquio, onde passou a viver e trabalhar pelo restante da vida. Sua produção se expandiu ao longo das décadas, com esculturas de abóboras e instalações da série “Infinity Mirror Room” entre suas obras mais conhecidas. Yayoi Kusama: alucinações de infância ajudaram a criar artista famosas por bolinhas; saiba quem era — Foto: AFP Morte Kusama morreu em 14 de agosto de 2026, em um hospital de Tóquio, aos 97 anos. Segundo a sociedade responsável por sua obra, ela continuou pintando até os últimos dias. — Ela continuou pintando até seus últimos dias, sem nunca largar o pincel, e continuou sua exploração do amor eterno e da alma perpétua. O legado da artista também foi lembrado após sua morte. Tim Cook, CEO da Apple, classificou Kusama como uma “verdadeira visionária”. — A criatividade de Yayoi Kusama fez o mundo da arte avançar e nos deixou um mundo mais luminoso e vibrante.