Neurologista explica como os cuidados em casa podem garantir segurança e conforto diante da evolução rápida da doença 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lito Sousa dará continuidade ao tratamento em casa — Foto: Reprodução - Redes Sociais / Pexels RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Após receber alta em São Paulo, o especialista em aviação Lito Sousa continuará o tratamento em casa. Ele também enfrenta um diagnóstico recente de câncer de próstata. A rara enfermidade neurodegenerativa é causada por alterações na proteína príon. Ela provoca rápida perda de memória, demência e tremores graves no paciente. Sem cura disponível, a assistência domiciliar foca em cuidados paliativos. O objetivo principal é garantir conforto, dignidade e controle dos sintomas na rotina familiar. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O especialista em aviação Lito Sousa, de 59 anos, foi liberado do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, para iniciar uma nova etapa do tratamento da Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) em regime de Home Care. Com isso, o cuidado passa a priorizar o controle dos sintomas, o conforto e a qualidade de vida do paciente. A mudança para o atendimento domiciliar foi confirmada Mila Seidl, esposa do Lito, em publicação realizada nas redes sociais na última sexta-feira (21). Porém, não significa o fim dos cuidados médicos. Pelo contrário, diante de uma doença neurodegenerativa rara e de evolução rápida, Lito, que também descobriu um câncer de próstata há quatro meses, passa a receber em casa o acompanhamento necessário para lidar com os sintomas e as novas necessidades que podem surgir ao longo da evolução do quadro. Segundo o neurologista Dr. Diogo Haddad, coordenador do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a principal mudança provocada pelo Home Care é o local onde o cuidado acontece. Como ainda não existe um tratamento capaz de interromper ou reverter a doença, parte importante da assistência pode ser realizada em casa, desde que exista estrutura adequada. — O objetivo é proporcionar segurança e conforto em um ambiente familiar — explica Haddad. O especialista, no entanto, ressalta que não acompanha Lito Sousa e, portanto, não pode fazer uma avaliação específica sobre o estado clínico do influenciador. Outro ponto importante, segundo o neurologista, é que a DCJ costuma apresentar evolução rápida. Por isso, o atendimento domiciliar precisa ser adaptado constantemente. — As necessidades de um paciente podem mudar em semanas, e a equipe deve conseguir reavaliar e adaptar o cuidado ao longo da evolução — afirma. Segundo o Ministério da Saúde, a Doença de Creutzfeldt-Jakob faz parte do grupo das Encefalopatias Espongiformes Transmissíveis (EET) e está associada a alterações anormais da proteína príon. As EET são chamadas assim por seu poder de transmissibilidade e de suas características neuropatológicas, que provocam alterações espongiformes no cérebro, dando ao tecido um aspecto semelhante ao de uma esponja. A doença pode provocar quadros de demência, perda de memória, tremores e outras alterações neurológicas. Apesar de várias propostas terapêuticas terem sido estudadas, no momento não existe cura nem procedimento comprovado capaz de interromper ou reverter a progressão da DCJ. Por isso, o tratamento é principalmente paliativo, com o objetivo de controlar manifestações da doença, reduzir desconfortos e proporcionar o máximo de bem-estar possível ao paciente. O que é o tratamento Home Care? O Home Care é uma modalidade de atendimento em saúde que prevê a continuidade do tratamento no domicílio do paciente. Ou seja, o paciente deixa a estrutura hospitalar, mas continua recebendo toda assistência necessária em casa. A frequência e os tipos de atendimento variam de acordo com as necessidades de cada pessoa e com a evolução da doença. No caso da DCJ, Haddad explica que o acompanhamento precisa considerar diferentes aspectos da rotina. Entre eles estão a mobilidade e o risco de quedas, a alimentação e a hidratação, a capacidade de engolir com segurança, o risco de broncoaspiração, a comunicação, a higiene, o funcionamento intestinal e urinário, o sono e a integridade da pele. Também é necessário observar sintomas como dor, rigidez, ansiedade, agitação e movimentos involuntários. Dependendo das necessidades de cada pessoa, a equipe pode envolver médico, enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, nutrição, psicologia e profissionais especializados em cuidados paliativos. Essa composição, porém, não é igual para todos os pacientes. — Isso deve ser individualizado para cada paciente — explica o neurologista. Com a progressão da doença, a tendência é que haja maior dependência, o que torna fundamental o apoio e a orientação aos familiares e cuidadores. No caso de Lito, essa nova rotina permitirá que os cuidados sejam realizados em um ambiente familiar, com acompanhamento voltado às condições apresentadas por ele. A equipe poderá atuar no controle dos sintomas e na identificação de novas necessidades relacionadas à progressão da doença. Por que os cuidados são paliativos? A Doença de Creutzfeldt-Jakob provoca deterioração rápida e progressiva das funções cognitivas e motoras, e, até o momento, não possui uma terapia capaz de modificar esse curso. Dessa forma, o tratamento se concentra no alívio dos sintomas e na manutenção da qualidade de vida. Os cuidados paliativos não significam que o paciente deixou de receber tratamento. — Ainda existe a percepção equivocada de que cuidado paliativo significa ‘parar de tratar’. Não é isso — afirma Haddad. Segundo ele, a proposta é tratar ativamente aquilo que pode melhorar o conforto e a qualidade de vida, ao mesmo tempo em que se evitam intervenções que não tragam benefício real. Na DCJ, essa abordagem ganha importância justamente pela velocidade com que a doença pode provocar perda de autonomia. Os cuidados paliativos ajudam no controle dos sintomas, no planejamento das decisões futuras e na preservação do conforto e da dignidade. — Em uma doença para a qual ainda não temos cura, existe muita coisa que a medicina pode e deve fazer. Cuidar continua sendo uma forma muito importante de tratar — finaliza o neurologista. *aluna do curso Jornalismo do Futuro sob supervisão de Daniel Biasetto.