Enquanto a cúpula do PL se ocupava em administrar a disputa entre Michelle e Flávio Bolsonaro e tentar superar a crise provocada pelo caso Dark Horse, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) submergiu para cuidar do próprio projeto político: montar uma bancada só dele, com ao menos um candidato em cada unidade da federação. Na definição dele, um “exército” de pessoas em que possa confiar, alinhado aos seus “princípios e valores” na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Deputado federal mais votado no país nas eleições de 2022, com 1,47 milhão de votos, ele pretende eleger ao menos dez deputados federais, principalmente pelo PL e pelo Novo, além de políticos do Republicanos e até do PP. Em Minas, sua meta é ter nove deputados estaduais espalhados por todas as regiões. “Eu acredito que se nós elegermos de dez (deputados) federais ‘para frente’ já vai ser histórico e vamos conseguir formar uma bancada de jovens conservadores que vai fazer a diferença no Congresso. Vai ser a maior bancada de jovens eleitos federais na história”, afirmou Nikolas à equipe da coluna. O deputado ainda não pode se candidatar ao Senado Federal, que exige idade mínima de 35 anos. Nikolas tem 30. O deputado também nunca escondeu o desejo de concorrer à Presidência da República, cargo que também só poderá disputar a partir de 2034. Daí o empenho em demonstrar força elegendo deputados. Quem são os candidatos Os escolhidos foram recrutados principalmente pelas redes sociais entre vereadores jovens e influencers. Defendem pautas como a proibição do aborto, o fim da “doutrinação” universitária, o combate à chamada “ideologia de gênero” e a oposição ao feminismo. Um deles é o influenciador Pedro Pôncio, que se apresenta como ex-membro do MST e defende endurecer punições contra ocupações ilegais. Com mais de 1,5 milhão de seguidores, vai tentar uma vaga de deputado federal pelo Novo em São Paulo. Também fazem parte da lista lideranças como Júlia de Castro (PL), pré-candidata a deputada federal no Rio de Janeiro, que ganhou notoriedade por denunciar ser perseguida durante a graduação na Unirio após se declarar bolsonarista. Todos receberam a orientação de divulgar materiais de campanha padronizados — como os populares “santinhos” — e tiveram direito a gravações de vídeos com o deputado mineiro nos chamados Media Days em Belo Horizonte e Brasília. Nikolas diz que cada um pagou sua passagem. “Quem do Brasil pôde ir, foi para lá e a gente gravou. A gente ficou o dia inteiro gravando. Tudo com recursos próprios, já que foi (feito) em pré-campanha”, afirmou. Como são os conteúdos Desde meados de julho, esses vídeos começaram a surgir nas redes sociais dos candidatos. São basicamente dois tipos de conteúdo. Num deles, Nikolas aparece ao lado dos postulantes em vídeos com fundo preto, sua marca em publicações sobre o Pix e o escândalo do INSS. Em outro modelo, ele diz estar “invadindo as redes” de seus candidatos em gravações mais simplificadas, feitas com a câmera frontal do celular. Os textos são os mesmos, apenas com poucas variações para falar sobre os estados. De acordo com políticos que participaram das gravações, há diversos conteúdos que ainda serão divulgados ao longo da campanha. Todos os escolhidos por Nikolas mantém publicações feitas com ele fixadas, ou seja, em destaque, em seus perfis do Instagram, e muitos ressaltam ser “o único escolhido” pelo mineiro em seus respectivos estados. Nas próximas semanas, o parlamentar planeja lançar um site para mostrar aos seus eleitores e seguidores quem são os seus escolhidos em cada localidade. Caso consiga realmente eleger uma bancada, ela não vai se restringir a filiados ao PL. No Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, Nikolas escolheu, respectivamente, os vereadores Hiago Stock, Guilherme Kilter e Beatriz Borba, também do Novo, como postulantes à Câmara. Há ainda a empresária Athally Albuquerque (Republicanos) em Roraima e o vereador Sanches da Federal (PP) em Goiás. “O partido nunca foi uma barreira para ele. Ele não só produz conteúdo, ele vê outros também. Então, isso acaba mostrando para ele quem ‘está firme’ e quem não está”, afirmou Kilter, que já havia sido selecionado para um curso promovido por Nikolas em 2024, voltado para eleger vereadores ao redor do país. Corrigindo erros do passado A estratégia de Nikolas é uma forma de corrigir um erro do passado, criando um método para capitalizar com o fenômeno que já ocorreu em 2022, quando sua grande influência fez o PL eleger nove deputados estaduais devido ao coeficiente eleitoral. Naquele ano, ele só apoiou Bruno Engler (PL), que foi eleito deputado estadual com 637.412 votos, mais que o dobro da segunda colocada. Mas também acabou elegendo de carona outras figuras que nem sempre estavam totalmente alinhadas a ele. Em 2026, ele decidiu mudar essa lógica elegendo a própria bancada e usando sua força política para impedir a entrada de outras lideranças no seu quintal. Já no início deste ano, em relação à Câmara Federal, Nikolas chegou a vetar a possível filiação do ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos) ao PL, e expôs um atrito com o presidente Valdemar Costa Neto na disputa do controle da chapa proporcional no estado, como mostrou o GLOBO. “Ele prefere eleger alguém mais alinhado do que um escolhido da elite partidária. Essa é uma razão perfeitamente humana e natural de se sentir usado”, avalia um observador da política local ouvido sob reserva pela equipe da coluna. Bancadas nas Assembleias O plano de Nikolas prevê expandir sua influência em Minas Gerais, e para isso fechou dobradinhas com nove candidatos de diferentes regiões de Minas. Na capital, ele pede votos para o vereador de Belo Horizonte Pablo Almeida (PL). No norte do estado, na região de Montes Claros, ele está em campanha pelo vereador de Janaúba Samuel Caires (PL). Já no Vale do Mucuri, próximo ao extremo sul da Bahia, o apoio está direcionado para Ugleno Alves (PL), vereador de Teófilo Otoni. Nikolas também selecionou candidatos a deputado estadual fora de Minas Gerais. No Mato Grosso, Ulysses Moraes (PL); no Mato Grosso do Sul, Davêrson Matos (PL), vereador da pequena cidade de Rio Brilhante; e no Rio Grande do Norte, Josemar Varela (PL). Até o momento, Nikolas também já divulgou seu apoio público para concorrentes do Amazonas, Distrito Federal, Pernambuco, Acre e Espírito Santo. ‘O futuro é nosso’ “Ele defende os mesmos valores que eu defendo todo dia. Se você confia no meu trabalho, confie nele também”, diz Nikolas em um vídeo gravado ao lado do vereador Feliciano Neto (PL), candidato a deputado federal pelo Pará. Nikolas investe em um discurso sobre a “batalha” que encara em Brasília para “varrer a velha política”. Os candidatos também incorporaram uma frase utilizada por ele: “o presente é deles, mas o futuro é nosso”. “A gente tem uma batalha muito clara pela frente e, para vencer, eu preciso montar um exército de pessoas em que eu possa confiar. Pessoas que pensam como eu e você. Se a gente quer varrer a velha política, eu preciso de aliados de trincheira ao meu lado”, afirma Nikolas em um dos vídeos gravados com o vereador Sanches da Federal. Em estados maiores, como São Paulo, Nikolas apoia mais de um candidato a deputado federal. Além de Pedro Pôncio, ele também associou sua imagem ao vereador paulistano Lucas Pavanato (PL), o mais votado do país em 2024. Já em Santa Catarina, ele tem reforçado sua parceira com a deputada estadual Ana Campagnolo (PL), candidata à reeleição, que foi alvo de críticas do núcleo duro do bolsonarismo — dentre eles o próprio Flávio e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro — por se posicionar contra a candidatura de Carlos Bolsonaro (PL) ao Senado.
Nikolas Ferreira quer eleger ‘exército’ de aliados para ampliar influência política
Parlamentar do PL passou os últimos meses recrutando potenciais candidatos de direita para formar bancada própria de pelo menos dez deputados federais






