Produção local do míssil pode ampliar capacidade ucraniana de atingir alvos fortificados a centenas de quilômetros 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Andy Burnham fala durante reunião da Coalizão dos Dispostos, em Kiev, em 24 de agosto de 2026; Reino Unido promete manter ajuda à Ucrânia apesar de ameaças russas — Foto: TETIANA DZHAFAROVA / AFP A Rússia elevou o tom contra o Reino Unido nesta segunda-feira após Londres anunciar que permitirá a divulgação de tecnologia confidencial para que a Ucrânia possa produzir o míssil de cruzeiro SCALP, desenvolvido em conjunto por britânicos e franceses. Em Kiev para as celebrações do Dia da Independência ucraniano, o premier Andy Burnham reafirmou o apoio britânico ao país e disse que Londres continuará ao lado de Kiev “pelo tempo que for necessário”. Em resposta, Moscou sugeriu que o Reino Unido estava “jogando combustível no fogo”. “O Reino Unido está participando da guerra ao lado de Kiev”, disse em nota o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, acrescentando que o governo britânico está “empenhado em jogar gasolina no fogo e em elaborar planos para impedir qualquer tipo de processo de paz”. Na semana passada, a embaixada russa em Londres havia advertido que, quanto maior fosse o envolvimento britânico e o apoio à Ucrânia, “maior seria o preço” que o país pagaria. A declaração de Peskov foi feita no mesmo dia em que Burnham chegou a Kiev em sua primeira viagem ao exterior desde que assumiu o cargo, em 20 de julho. O primeiro-ministro se reuniu com o presidente Volodymyr Zelensky e copresidirá uma reunião da Coalizão dos Dispostos, grupo formado por 34 países para apoiar a Ucrânia na guerra contra a Rússia, enquanto a ajuda americana diminuía sob o governo de Donald Trump. Os líderes visitantes levaram promessas de mais apoio militar e financeiro. O premier britânico anunciou que seu governo concordou em permitir que a empresa de defesa MBDA divulgue informações confidenciais relacionadas a componentes britânicos usados no míssil de longo alcance SCALP, segundo seu gabinete. A medida deve abrir caminho para que França e Ucrânia avancem nos planos de produzir a arma em território ucraniano. “O povo ucraniano não deve ter dúvidas: o Reino Unido está ao seu lado hoje e pelo tempo que for necessário”, disse Burnham em comunicado, ressaltando que seguirá apoiando a defesa de Kiev apesar das “escandalosas ameaças russas” contra o Reino Unido. Zelensky, por sua vez, disse que a presença dos líderes europeus refletia os temores do continente em relação às ambições mais amplas da Rússia. Em discurso na Praça de Santa Sofia, na capital ucraniana, o presidente afirmou que diante da ofensiva russa, “muito mais está sendo decidido do que o futuro da Ucrânia” — e que a ajuda estrangeira era vital. O país tem dependido fortemente das nações da Otan para obter ajuda no combate ao Exército russo, enquanto Moscou, por sua vez, recebe apoio da Coreia do Norte e da China. — Nenhuma nação em uma guerra como esta poderia depender exclusivamente de suas próprias armas. Nenhuma nação poderia resistir a ataques dessa intensidade sem a ajuda do mundo — disse o presidente. Míssil SCALP O SCALP, conhecido como a versão francesa do míssil Storm Shadow, do Reino Unido, é um míssil de cruzeiro de longo alcance destinado a ataques em profundidade. A arma tem alcance máximo de 550 km e pode transportar uma ogiva penetrante de alto poder explosivo de 400 kg, segundo o projeto Missile Threat, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). O míssil é lançado pelos caças ucranianos Su-24 ou Mirage 2000 e voa próximo ao terreno para tentar evitar as defesas aéreas. A Ucrânia já utilizou versões importadas do SCALP e do Storm Shadow. Em novembro de 2024, os mísseis foram empregados pela primeira vez contra alvos dentro da Rússia. Após o lançamento, o sistema combina navegação interna, por posicionamento global e por referência ao terreno com um sistema de busca por infravermelho e algoritmos de reconhecimento automático de alvos, permitindo precisão em diferentes condições meteorológicas. A produção local pode ampliar a capacidade ucraniana de atingir alvos militares enterrados, como bunkers de comando. Esse tipo de instalação é mais difícil de alcançar com os drones mais leves usados por Kiev, que têm sido empregados contra alvos mais expostos, como refinarias de petróleo e armazéns. A Ucrânia também vem utilizando armas de maior alcance para atingir alvos no interior do território russo e provocar danos econômicos. Reino Unido e França não anunciaram quantos mísseis SCALP/Storm Shadow foram fornecidos à Ucrânia até o momento, mas, em 2025, a fabricante MBDA reativou linhas de produção que estavam fechadas havia 15 anos. Segundo autoridades britânicas, a liberação da tecnologia é um passo para viabilizar a produção em território ucraniano, mas a expansão da fabricação pode levar anos. A expectativa, porém, é que ela comece até o fim deste ano. O reforço também não resolve uma das principais vulnerabilidades atuais da Ucrânia: a escassez de mísseis defensivos. O país enfrenta falta de interceptadores para sistemas Patriot, usados para combater mísseis balísticos russos. Kiev pediu autorização para fabricar os interceptadores do Patriot em território ucraniano, mas o presidente americano, Donald Trump — que apoiou inicialmente a ideia no começo de julho — depois recuou. O governo americano também rejeitou pedidos ucranianos para adquirir mísseis de cruzeiro Tomahawk de longo alcance, cujos estoques foram afetados pela guerra no Irã. Produção doméstica Ao mesmo tempo, a Ucrânia vem ampliando sua própria produção de armas de longo alcance. A fabricante ucraniana Fire Point desenvolveu o míssil de cruzeiro FP-5 Flamingo, com alcance declarado de 3 mil km. Zelensky afirmou neste mês que a arma foi usada para atingir uma instalação russa de componentes eletrônicos para foguetes, a cerca de 900 km da fronteira. A Fire Point também desenvolveu drones de longo alcance, enquanto Kiev utiliza ainda mísseis balísticos de menor alcance. Em publicação neste mês, Peter Dickinson, editor do blog Ukraine Alert, do Atlantic Council, disse que a ampliação do alcance das armas ucranianas transformou a extensão territorial da Rússia em um problema para Moscou, que precisa distribuir seus recursos limitados de defesa entre um número crescente de possíveis alvos: “Uma longa lista de aspirantes a conquistadores invadiu a Rússia apenas para ver seus exércitos serem engolidos pela vastidão do país. A Ucrânia agora tenta virar essa lógica militar de cabeça para baixo com uma campanha de bombardeios estratégicos que busca explorar a imensidão da Rússia e transformá-la de uma grande vantagem em uma fraqueza fatal”, escreveu. Os drones de longo alcance da Ucrânia atingiram repetidamente instalações da vital indústria petrolífera da Rússia, provocando escassez de combustível, e também lançaram uma campanha contra a maior varejista on-line russa, a Wildberries. Mas os fornecedores estrangeiros também precisam levar em conta suas próprias necessidades, os níveis de produção de armas e a profundidade de seus estoques. Novos ataques Na cidade russa de Krasnodar, no sul do país, três adolescentes foram mortos e seis crianças ficaram feridas, disse a comissária russa para os direitos das crianças, Maria Lvova-Belova, enquanto a Ucrânia atacava vários depósitos da Ozon, outra varejista online, pelo terceiro dia consecutivo, segundo autoridades e a empresa. A empresa informou que um grande incêndio atingiu uma instalação logística da Ozon nos arredores de Krasnodar após o ataque ocorrido durante a noite. Um drone também atingiu as instalações de um centro logístico da Ozon na região russa de Adiguésia, no sul do país, disse o governador regional, Murat Kumpilov, embora a empresa tenha afirmado que seu depósito na Adiguésia não foi danificado. Ao todo, quatro instalações da Ozon teriam sido alvos. Ao mesmo tempo, o Estado-Maior ucraniano informou que suas forças atingiram durante a noite a empresa estatal russa de defesa Kamenetsky Combine, na região de Rostov, provocando um incêndio. Segundo o órgão, a fábrica produz combustível para foguetes e mísseis. O Ministério da Defesa da Rússia informou que suas defesas aéreas interceptaram e destruíram durante a noite 351 drones ucranianos em oito regiões russas, na península da Crimeia e nos mares de Azov e Negro. Moscou anexou ilegalmente a Crimeia em 2014. A pasta também informou que suas forças continuaram durante a noite a atacar portos ucranianos e embarcações que transportavam cargas para as Forças Armadas. A região de Odessa, no sul da Ucrânia, foi alvo de um ataque de grande escala com mísseis e drones russos nesta segunda-feira. Instalações de armazenamento de alimentos e infraestrutura energética estavam entre os alvos, informaram autoridades regionais. Quinze pessoas, incluindo duas crianças, ficaram feridas em um ataque de drones russos contra Chernihiv, no norte do país, segundo o Serviço de Emergência da Ucrânia. A Rússia também voltou sua atenção, nos últimos meses, para shopping centers, supermercados e postos de gasolina ucranianos. Drones russos atingiram um centro comercial no centro da Ucrânia em um ataque durante o dia na sexta-feira, matando 16 pessoas e ferindo 130, segundo autoridades ucranianas. (Com AFP e New York Times)