'Minha melhor amiga' fala sobre como lidar com o ninho vazio, com a chegada dos filhos à adolescência e com o medo de amar e de recomeçar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mônica Martelli e Ingrid Guimarães nas filmagens de novo filme — Foto: Desirée do Valle De onde nascem as histórias? De fatos reais, épocas históricas, best-sellers, uma boa peça de teatro como “O convite” ou um clássico de Homero, como “Odisseia”, conhecido como “a história das histórias”. Meu próximo filme nasceu de uma amizade. Uma amizade de 30 anos com Mônica Martelli. Tempo suficiente pra caber juventude, casamentos, nascimentos de filhas, separações, perdas, menopausa, viagens e muitas gargalhadas. Nossas filhas herdaram nossa amizade e, durante nossas viagens, começaram a filmar a gente. Os vídeos viraram posts que viralizaram e viraram pedidos: “Faz um filme sobre vocês?” E dentro desse “vocês” tem muitas de nós. Foi daí que saiu um roteiro, com novos conflitos e personagens, inspirado na força da amizade feminina e na capacidade de se reinventar com alegria. Nossas mães escolhem nossos amigos na infância e depois a escola ajuda nesse papel. Na adolescência a gente se une com o grupo que a gente se identifica ou com aqueles que são “os companheiros de fazer merda da idade”. Depois vem a faculdade e algumas turmas ficam pra sempre (ou não). Na maioria das vezes viram vários estranhos que a gente nunca seria amigo se conhecesse na vida adulta. Manter a saúde mental por anos já é um grande desafio, manter uma amizade com saúde mental é chegar ao pódio. Durante um tempo os filmes que fiz foram categorizados como “filme de mulherzinha”. Eu falei de orgasmo feminino e, numa época em que muita mulher nem conseguia falar sobre o próprio prazer, vi o mercado de produtos eróticos crescer de uma maneira avassaladora, mulheres começarem a se tocar pela primeira vez e li artigos importantíssimos sobre a sobrecarga feminina, que era um dos temas centrais do filme. Uma discussão essencial que se resumia a: filme de mulher. Depois fiz vários filmes com assuntos que, falados por especialistas com muitos dados, teriam total relevância. Mas para alguns são coisas de mulher. Como se isso fosse algo menor. “Minha melhor amiga” fala sobre uma amizade de décadas e, através dela, sobre como lidar com o ninho vazio, com a chegada dos filhos à adolescência e com o medo de amar e de recomeçar. Mas fala também das pequenas alegrias que fazem a vida valer a pena: dançar numa cidade desconhecida ou apenas cantar uma música bem alto num carro. Eu tenho orgulho de fazer filmes sobre o (tão complexo) universo feminino. Porque dentro das questões femininas mora o mundo todo. Eu acho muito sério falar de coisas simples que, na verdade, não são simples. Acho bonito o movimento de ver turmas e turmas de mulheres combinando de ir ao cinema juntas. Porque a noite nunca acaba por ali. O filme recomeça no jantar, na conversa no estacionamento e na mensagem no grupo no dia seguinte. Uma se lembra de uma amiga que faz falta e outra relembra que tá na hora de botar o pé na estrada. Um filme escrito por mulheres, dirigido por uma mulher (Susana Garcia) e protagonizado por duas mulheres que viveram uma vida todinha sendo testemunhas oculares do melhor e do pior da outra. A nossa amizade não é exatamente a história do filme, mas certamente ajudou a gente a entender por que esse tipo de vínculo merecia estar numa tela de cinema. “Minha melhor amiga” estreia dia 3 de setembro nos cinemas. Sim, é uma publi. Porque entre odisseias e homens-aranha, entre bilhões investidos nos filmes gringos, ainda estamos aqui celebrando a irmandade feminina no cinema brasileiro. Afinal, passamos séculos assistindo às histórias dos homens como se fossem histórias da Humanidade. Durante muito tempo eram eles que contavam as nossas histórias. Se contar histórias através dos nossos olhos e dos nossos desejos é considerado filme de mulher, então que venham muitos. Porque histórias de mulheres nunca são pequenas. E eu sempre quero vê-las gigantes, numa tela de cinema.
Meu próximo filme e uma amizade de 30 anos com Mônica Martelli
'Minha melhor amiga' fala sobre como lidar com o ninho vazio, com a chegada dos filhos à adolescência e com o medo de amar e de recomeçar
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