Mudanças climáticas obrigam instituições a repensar formas de manejo e avanços na conservação enquanto tentam vencer estigmas e pressão por recursos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ursos polares se refrescam no gelo em seu recinto no Zoológico de Praga em 30 de julho de 2026, enquanto as temperaturas chegavam a 36 graus Celsius ou mais — Foto: MICHAL CIZEK/AFP No começo do mês, três leoas do Tama Zoological Park, em Tóquio, morreram após apresentarem sintomas compatíveis com estresse térmico durante uma onda intensa de calor que elevou os termômetros da capital japonesa a quase 40°C. Segundo o zoológico, exames indicaram desidratação severa e falência múltipla de órgãos dos animais. Embora ainda não seja possível atribuir as mortes exclusivamente ao calor extremo, o caso acontece em um contexto em que as mudanças climáticas, que já afetam animais selvagens em diferentes regiões do planeta, impõem novos desafios às instituições que os mantêm sob cuidados humanos — tudo isso em meio a uma pressão para se manterem e a velhos estigmas sobre seu papel nos esforços de conservação. — Os zoológicos hoje precisam se preparar para um cenário climático cada vez mais desafiador — diz ao GLOBO a presidente da Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (Azab), Mara Cristina Marques. — O monitoramento de dados ambientais permite antecipar situações de risco e ajustar o manejo diante de eventos extremos, como períodos de calor acima da média ou de frio intenso. Mas a adaptação deve ser um processo contínuo. No caso de Tóquio, após a morte das leoas — e com o agravamento das condições de outros 10 leões que apresentaram sintomas semelhantes, precisando de tratamento —, o zoológico suspendeu temporariamente a exposição dos animais e reforçou medidas de hidratação e resfriamento. O comunicado mais recente da instituição, de 13 de agosto, ainda informava que a ala continua fechada ao público. As leos Mugi, Luena e Ichigo, que morreram em zoológico de Tóquio — Foto: Divulgação / Tama Zoological Park Medidas emergenciais do tipo também começaram a se fazer necessárias em zoológicos na Europa, onde as ondas de calor têm se tornado frequentes. Parques na Alemanha e na República Tcheca, por exemplo, tiveram de adaptar rotinas de vários de seus animais no último mês, oferecendo banhos de água fria (especialmente nos répteis, cuja temperatura corporal se regula pela do ambiente) ou dando alimentos congelados e blocos de gelo como forma de amenizar o calor. Já no Reino Unido, o calor chegou a alterar, mais de uma vez nas últimas semanas, o funcionamento de algumas instituições, como o London Zoo e Whipsnade Zoo. No Zoológico de São Paulo, explica ao GLOBO a bióloga Tays Izidoro, estratégias já fazem parte da rotina. Em dias quentes, os animais "recebem atividades de enriquecimento ambiental com alimentos congelados", que são preparados de acordo com a dieta de cada espécie. — Também podem receber banhos de mangueira nas tardes mais quentes e ter acesso a ambientes climatizados, quando necessário — explica Izidoro, acrescentando que também há planejamentos específicos para quando o inverso ocorre e as temperaturas ficam mais baixas. Mas mudanças permanentes também são necessárias, explica ao GLOBO o diretor técnico do BioParque do Rio, Gerson Norberto. — A primeira é estrutural: recintos com sombra, ventilação natural, piscinas e diferentes microclimas, para que o próprio animal escolha onde e como se proteger. Não se trata apenas de "resfriar o bicho", mas também de dar a ele autonomia para se regular — diz Norberto. — É assim que estamos repensando os recintos do BioParque no Rio, junto com dietas, horários de alimentação e enriquecimento ambiental adaptados ao clima. Outra frente de mudança, explica o médico veterinário, é a conservação. Segundo ele, "muitos animais de zoológico fazem parte de programas de reprodução e reintrodução na natureza, e essa natureza também está mudando": — Não basta preparar um animal para o calor de hoje: é preciso prepará-lo para o clima que vai encontrar amanhã, no recinto ou de volta à vida livre. Arquitetura, manejo, veterinária e conservação precisam andar juntos nessa adaptação. Novo propósito Apesar da imagem negativa associada aos zoológicos no passado, onde animais serviam como mero entretenimento e em espaços inadequados, hoje, em grande parte dos casos, o modelo é outro. Muitos funcionam como espaços de pesquisa, produzindo dados relevantes para estratégias de conservação, inclusive em meio às mudanças climáticas. Tais iniciativas ganham importância diante da perda de habitats e das ameaças à fauna de todo o planeta. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), as mudanças climáticas já afetam mais de 15 mil espécies incluídas na Lista Vermelha do órgão, elevando seu risco de extinção. Elefantes do Zoológico de Cincinnati, Ohio, nos EUA, se banham em piscina durante onda de calor — Foto: Madeleine Hordinski/The New York Times — O zoológico moderno existe para o animal ser visto com um propósito. Precisa estar inserido numa estratégia de conservação, reprodução de espécies ameaçadas, populações geneticamente viáveis, pesquisa e, quando possível, reintrodução na natureza — acrescenta Norberto. — Isso muda também a experiência do visitante. Ele não deve sair do zoológico só sabendo que viu uma onça ou um gorila, e sim entendendo quais ameaças aquela espécie enfrenta e o que está sendo feito para protegê-la. A visitação, destaca Norberto, tem um papel importante para a manutenção desses locais. Além disso, para muitas pessoas, sobretudo em um mundo cada vez mais urbanizado, ver de perto um animal selvagem é uma experiência que dificilmente seria possível fora de um zoológico. (De acordo com a ONU, 45% da população mundial vive em áreas urbanas nos dias atuais, percentual que deve continuar em crescimento nas próximas décadas.) É difícil saber quantas pessoas visitam zoológicos anualmente ao redor do mundo, mas dá para se ter uma ideia da popularidade deles com dados de associações individuais. Em nível global, por exemplo, a Associação Mundial de Zoológicos e Aquários (Waza, na sigla em inglês) estima mais de 700 milhões de visitantes por ano em suas 400 instituições associadas. Pressões além do clima Mas mesmo com a popularidade, muitos zoológicos têm sofrido com pressões financeiras ( ou até mesmo demográficas) para se manterem. É o caso novamente do Japão, onde esses locais ainda atraem um público expressivo — foram mais de 38 milhões de visitantes em 2025, segundo a Associação Japonesa de Zoológicos e Aquários (Jaza) —, ao mesmo tempo em que enfrentam dificuldades para se manter em um país que envelhece e perde população vertiginosamente. O cenário pressiona as instituições mantidas por governos locais (o que é o caso de cerca de 80% dos zoológicos associados à Jaza), que precisam concorrer por recursos com outras demandas públicas. Em Tokushima, por exemplo, a prefeitura apontou neste ano a redução da população e, consequentemente, do número de visitantes, além dos problemas estruturais, entre os desafios para manter o zoológico municipal.