Em um intervalo de menos de 24 horas, Davi Santos Machado saiu da versão de que havia dado apenas um soco no braço da vítima para admitir que participou do espancamento, desferiu socos, pontapés e vários golpes de cacetete na cabeça de Cláudio Rafael Landeiro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Davi Santos Machado ao chegar na 12ª DP (Copacabana) — Foto: Alexandre Cassiano Em menos de 24 horas, o segurança de rua Davi Santos Machado, de 21 anos, mudou radicalmente sua versão sobre a morte do ciclista Cláudio Rafael Landeiro, espancado em Copacabana, na Zona Sul do Rio, na noite de 11 de agosto. No primeiro depoimento à polícia, prestado no dia 17, Davi admitiu apenas ter dado um soco no braço da vítima para conseguir retirar uma bicicleta que Cláudio segurava e afirmou não ter presenciado nenhuma das agressões que ocorreram depois. No dia seguinte, porém, voltou a ser ouvido e confessou ter participado diretamente do espancamento, ao lado de dois entregadores. Disse que os três deram socos e pontapés em Cláudio e que ele também usou um cacetete para golpeá-lo. Em um dos trechos, afirmou que, em um “ato insano”, deu vários golpes na cabeça da vítima. A investigação aponta que Cláudio, de 37 anos, foi confundido com um ladrão de bicicletas. O veículo, no entanto, pertencia à irmã dele. As agressões, segundo a polícia, duraram quase nove minutos e foram registradas em parte pelos próprios envolvidos. Quatro homens foram indiciados por homicídio triplamente qualificado, por meio cruel, motivo fútil e impossibilidade de defesa da vítima. Primeira versão No primeiro depoimento, Davi procurou a delegacia espontaneamente e apresentou uma narrativa em que praticamente se afastava do espancamento. Disse que trabalhava como segurança em uma lanchonete na Rua Barata Ribeiro e que, pouco depois da meia-noite, um entregador por aplicativo o havia alertado sobre um homem em “atitude suspeita” próximo à loja de doces Formiguinha. Segundo sua primeira versão, havia uma bicicleta “solta” no local e Cláudio estava próximo dela. Davi afirmou que perguntou a quem pertencia a bicicleta e que Cláudio respondeu que ela não lhe pertencia. Diante da resposta, decidiu ficar com o veículo até que aparecesse o “verdadeiro proprietário”. Quando tentou pegá-lo, segundo seu relato, Cláudio segurou a bicicleta para impedir que ele a levasse. Foi quando, ainda de acordo com a primeira versão, Davi deu um soco no braço da vítima, fazendo com que ela soltasse o veículo. Depois disso, afirmou que dois entregadores apareceram e levaram Cláudio em direção à Rua Felipe de Oliveira. Davi declarou que não presenciou “eventuais agressões” praticadas contra o ciclista depois que ele foi levado e que só posteriormente soube que a vítima havia sido agredida. Disse ainda não saber, por conhecimento próprio, quem havia praticado o espancamento nem de que forma. Confissão A narrativa mudou no dia seguinte. Em novo depoimento, Davi disse que não conhecia Cláudio antes daquela madrugada e que nunca o havia visto nas proximidades da Rua Barata Ribeiro ou da Rua Felipe de Oliveira. Também mudou a versão sobre a origem da suspeita. Se no primeiro depoimento afirmou que havia sido alertado por um entregador, no segundo declarou que estava do outro lado da rua quando um morador chamou sua atenção para um homem parado próximo a uma pilastra, em uma situação que considerou suspeita. Ele disse que resolveu abordar Cláudio, perguntando o que fazia no local e se a bicicleta encostada na pilastra lhe pertencia. Mais uma vez, afirmou que a vítima respondeu que o veículo não era dela. Davi, então, decidiu pegar a bicicleta e entregá-la ao colega Jorge Luiz Ricardo Dias, que, segundo ele, estava de folga, mas passava pela rua. Jorge, segundo Davi, disse que iria fotografar a bicicleta e divulgar a imagem em grupos de WhatsApp para tentar localizar o proprietário. Em seguida, Davi passou a admitir uma participação que havia negado no depoimento anterior. Disse que acompanhou Cláudio durante parte do trajeto e encontrou dois entregadores de aplicativo, que perguntaram o que estava acontecendo e se a vítima seria um ladrão. Segundo ele, respondeu que Cláudio era apenas um “suspeito”. Agressões Cláudio Rafael foi espancado até a morte em Copacabana — Foto: Reprodução — Foto: Reprodução Davi afirmou que, depois, os dois entregadores e ele próprio passaram a agredir Cláudio com socos e pontapés. Disse também que utilizou um cacetete para golpeá-lo. O relato avançou ainda mais durante a oitiva. Davi afirmou que as agressões começaram na Rua Felipe de Oliveira e se estenderam até um portão de garagem, onde Cláudio foi deixado. Segundo Davi, Cláudio foi levado pelos dois entregadores mediante força física em direção à Rua Felipe de Oliveira. De acordo com sua versão, a vítima não ofereceu resistência e obedecia às ordens. Os entregadores seguiam pela rua de bicicleta, um à frente e outro atrás, enquanto Cláudio caminhava entre eles. Davi declarou, porém, que não acompanhou os três durante todo o deslocamento. O segurança afirmou que os dois entregadores seguraram Cláudio pela roupa antes de começarem as agressões. Também disse que a vítima não havia ameaçado nem tentado agredi-lo com socos antes do espancamento. Sobre o golpe que havia admitido no primeiro depoimento, Davi passou a classificá-lo como um “soco de alerta”, afirmando que não fez Cláudio cair, perder o equilíbrio ou bater em algum objeto. Segundo Davi, depois das agressões, Cláudio apresentava ferimentos, sangramento e estava no chão. Ele disse não ter ouvido a vítima pedir socorro, mas afirmou que Cláudio “apenas pedia para que o soltassem”. Segundo ele, a vítima ainda estava acordada, embora bastante machucada, quando foi embora. Davi disse que não sabe quem chamou socorro. Em outro trecho, afirmou que se recorda de aproximadamente seis pessoas que participaram de algum modo da abordagem ou permaneceram no local acompanhando o espancamento. Uma dessas pessoas, segundo ele, deu ordens e o incentivou a usar o porrete contra a cabeça de Cláudio. Davi não identificou quem seria. Foi então que, segundo suas próprias palavras, em um “ato insano”, desferiu vários golpes na cabeça da vítima. Segundo o segurança, várias pessoas, entre moradores da região e outros presentes, teriam presenciado as agressões e não fizeram nada. O segurança afirmou que decidiu intervir na situação envolvendo a bicicleta “por instinto” e disse não saber explicar por que agiu daquela maneira. Também reconheceu que, naquele momento, não havia qualquer informação concreta de que a bicicleta tivesse sido furtada. No fim do segundo depoimento, Davi disse que resolveu confessar depois de ver sua mãe passar mal ao tomar conhecimento do que havia acontecido. “Se pudesse voltar atrás, teria agido de forma diferente”, afirmou, segundo o termo. Conhecia 'de vista' Ao ser questionado sobre os dois entregadores, Davi disse que os conhecia de vista porque passavam frequentemente pela região realizando entregas e que sabia apenas que faziam ponto em Botafogo, também na Zona Sul. Davi disse ainda que trabalhava como segurança na região com mais cinco homens, e que o grupo era coordenado por um policial militar, responsável pelo serviço. Espancamento filmado Apesar de ter afirmado que fez o registro da bicicleta, Davi declarou não saber que alguém havia filmado as agressões. Disse que não recebeu nem assistiu a gravações e que não sabia se algum dos entregadores havia usado um celular para registrar os acontecimentos. No entanto, a polícia suspeita que parte do espancamento foi filmada pelos próprios envolvidos. Davi também declarou que não entrou em contato com a Polícia Militar, Polícia Civil, SAMU, Corpo de Bombeiros ou qualquer outro serviço público durante ou depois das agressões. Disse que não procurou saber quem havia acionado o socorro e que, depois de ir embora, não retornou à Rua Felipe de Oliveira para verificar o estado de Cláudio.