Em meio às incertezas da economia mundial, um movimento chamou a atenção no final de julho. Em apenas dois dias, o Japão mobilizou cerca de US$ 95 bilhões para conter a queda do iene – e ainda contou com a intervenção dos Estados Unidos. O Federal Reserve de Nova York, agindo em nome do Tesouro americano, vendeu euros e comprou ienes. O resultado foi imediato.Depois de chegar a quase 164 ienes por dólar, menor cotação em quatro décadas, a moeda japonesa voltou para perto de 155. Mas o alívio durou pouco. Algumas semanas depois, o dólar já voltou a rondar 159 ienes. A questão é por que a segunda maior economia do mundo até 2010, dona de cerca de US$ 11,5 trilhões em ativos no exterior, precisa da ajuda dos EUA para defender sua própria moeda?O Japão vem de 30 anos de juros artificialmente baixos, com o seu banco central comprando os títulos do tesouro americano Foto: Eugene Hoshiko/APPUBLICIDADEA transformação japonesa é explicada em poucos números: a participação do país no PIB mundial, de quase 18% em 1995, hoje é de 4%; a dívida pública é superior a 200% do PIB; e a passagem dos juros japoneses de praticamente zero para 3% a 4% nos títulos de longo prazo. Mas não se trata apenas de socorrer um aliado.Washington também está defendendo seus próprios interesses. O Japão é o maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro americano, com cerca de US$ 1,1 trilhão em treasuries. Para comprar ienes e sustentar sua moeda, Tóquio poderia vender parte desses títulos. O problema é que isso aumentaria a pressão sobre um mercado que os próprios EUA tentam estabilizar, justamente quando os juros de seus títulos de longo prazo estão em níveis muito elevados.A ajuda americana ao Japão, portanto, está longe de ser desinteressada. Tóquio precisa de Washington para sustentar o iene e, por seu lado, Washington precisa evitar que Tóquio não despeje seus treasuries no mercado. O problema japonês começa, assim, a revelar uma fragilidade que não é apenas japonesa. O Japão e os EUA descobriram simultaneamente que existe um limite para o tamanho da dívida que o mercado aceita financiar a juros baixos. Mas estão chegando a esse limite por caminhos diferentes. PublicidadeO Japão vem de 30 anos de juros artificialmente baixos, com o seu banco central comprando os títulos do tesouro americano. Os EUA vêm de uma expansão fiscal extraordinária, com uma dívida crescente e necessidade cada vez maior de encontrar compradores privados para seus títulos públicos. Esses países enfrentam agora, em escalas diferentes, a mesma pergunta do mercado: quanto vocês vão me pagar para que eu carregue suas dívidas por 20 ou 30 anos?Talvez o que esteja acontecendo não seja apenas o fim da excepcionalidade japonesa. O Japão pode estar mostrando antecipadamente ao restante do mundo o que acontece quando o mercado resolve cobrar o preço de financiar dívidas enormes. Vale ler tambémOs altos gastos do governo já contrataram o freio de arrumação para 2027Bancos privados estudam entrar em financiamentos no Minha Casa, Minha VidaA despesa de seguro-desemprego deveria ter caído, mas saltou 188% em termos reais entre 2003 e 2014