0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jair Bolsonaro é interpretado por Jim Caviezel em 'Dark Horse' — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil — Reprodução A Polícia Federal deu um prazo de 10 dias para a Agência Nacional do Cinema (Ancine) apresentar informações sobre o polêmico longa-metragem “Dark Horse”, que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. A Ancine é responsável pela regulação e fiscalização do mercado audiovisual brasileiro e está analisando o registro da produção, que tem previsão de lançamento depois das eleições – e precisa de aval da agência para ser exibida nos cinemas nacionais. Um dos pontos que a PF quer esclarecer com a agência é quais são as pessoas físicas e jurídicas vinculadas ao filme, além de produtores, coprodutores, distribuidoras, representantes legais e demais participantes do projeto que constam no banco de dados da Ancine. De acordo com a PF, essas informações interessam à investigação em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), que tramitam sob a relatoria do ministro André Mendonça. O filme abriu uma crise na campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República após virem à tona mensagens do senador cobrando dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para o financiamento da produção. Uma das linhas de investigação da PF é saber se os milhões de reais despejados por Vorcaro foram usados para bancar as despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) durante autoexílio nos Estados Unidos. No ofício obtido pelo blog, assinado na última terça-feira (18), a Polícia Federal pede informações sobre o registro de “Dark Horse”, além de “comunicação de produção, certificação ou qualquer outro procedimento administrativo relacionado à obra cinematográfica”. A PF também quer que a Ancine esclareça se o filme recebeu incentivos fiscais, recursos públicos federais ou “quaisquer benefícios vinculados às políticas públicas de financiamento do setor”. Filmagem irregular Em 28 de julho, a Ancine abriu um processo administrativo e autuou a produtora Go Up Entertainment por irregularidades na gravação do filme. O auto de infração, emitido pela Superintendência de Fiscalização e Combate à Pirataria, informa a conduta que levou à intervenção da agência: “produzir no Brasil a obra cinematográfica estrangeira DARK HORSE sem comunicar o fato à ANCINE.” Ancine aponta infração durante filmagem de 'Dark Horse' no Brasil — Foto: Reprodução Segundo as regras da agência, a filmagem de uma produção internacional no Brasil deve ser feita sob a responsabilidade de empresa registrada na própria Ancine, que além de comunicar sobre a obra tem que apresentar uma série de documentos, como cópia do contrato, plano de filmagem e passaporte de cada profissional estrangeiro contratado. Nada disso, no entanto, foi feito pela produtora no caso de “Dark Horse”. Na prática, com a autuação da Go Up, a Ancine sinaliza a aplicação futura de uma multa que varia entre R$ 2 mil e R$ 100 mil. Produtora nunca lançou filme Não apenas a filmagem e o financiamento de “Dark Horse” são cercados de interrogações. Proprietária da Go Up Entertainment, a jornalista Karina Ferreira da Gama, nunca lançou nenhum filme, nem no Brasil e nem no exterior. Karina entrou no projeto do filme pelas mãos do deputado federal Mário Frias (PL-SP), que assina o roteiro de “Dark Horse”. A jornalista também preside o Instituto Conhecer Brasil, que entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo repasse de R$ 2 milhões em emendas enviadas pelo deputado para a produção de filmes. O instituto tem registro na Ancine desde 2020 mas também nunca lançou um filme nem no Brasil nem no exterior. O filme se tornou munição para aliados de Lula – e virou uma dor de cabeça para a campanha do senador bolsonarista, respingando no seu desempenho nas pesquisas de opinião, antes de surgirem as mais recentes revelações de que o líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), teria recebido um imóvel de R$ 2,45 milhões em Salvador como propina do Master. Após uma série de reportagens do Intercept Brasil, Flávio reconheceu ter captado R$ 61 milhões de Vorcaro, pagos por meio de uma empresa ligada a ele a um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro. Nenhum deles explicou por que era necessária a intermediação do fundo, o que levantou a suspeita de que o dinheiro na verdade estivesse sendo usado para financiar o autoexílio do filho 03 nos Estados Unidos. Registro Em 22 de junho, a Europa Filmes entrou com um pedido de “registro de obra estrangeira” (ROE) para lançar “Dark Horse” nos cinemas brasileiros. A distribuidora planeja um lançamento de grande porte para o filme, com a exibição em pelo menos 650 salas – no patamar do fenômeno de bilheteria “Tropa de Elite 2” – e cópias dubladas espalhadas por todo o país. O trailer de “Dark Horse” indica que a produção foi filmada no Brasil, com diálogos em inglês e um elenco predominantemente estrangeiro, capitaneado pelo ator americano Jim Caviezel (célebre pelo papel de Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson), que interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro. Conforme informou a equipe da coluna, a dor de cabeça que “Dark Horse” causou a Flávio Bolsonaro é inversamente proporcional ao “espaço” que o longa-metragem reserva ao senador. No filme, o personagem de Flávio é secundário, com pouquíssimos diálogos – diferentemente do espaço reservado à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que tem um papel muito mais relevante na trama. Após conferir o filme, a avaliação do QG da campanha de Flávio é a de que “Dark Horse” está mais para um thriller policial sobre a facada em Jair Bolsonaro em 2018 do que para uma cinebiografia propriamente dita. O personagem de Flávio tem participação discreta na trama, o que na tese de seus assessores deveria esvaziar os argumentos da campanha lulista de que o filme pode ser usado para promover a sua candidatura.