Plataformas ilegais que operam fora da autorização do Ministério da Fazenda usam ativos digitais para receber recursos, pagar usuários e movimentar dinheiro para fora do país 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Criptoativos não podem ser usados nas bets autorizadas no Brasil, mas a barreira regulatória não alcança plataformas ilegais que operam fora da autorização do Ministério da Fazenda. A brecha pode permitir que ativos digitais sejam usados para receber recursos, pagar usuários e movimentar dinheiro para fora do país sem passar pelos mesmos controles exigidos das operadoras licenciadas. O ponto central é a diferença entre o mercado regulado e o ilegal, disse um executivo de compliance de uma casa de apostas autorizada, que pediu para não ser identificado. Operadoras licenciadas precisam identificar usuários, validar CPF, monitorar movimentações, comunicar operações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e enviar dados ao sistema de gestão de apostas do governo. Fora desse ambiente, a dinâmica muda. Segundo a fonte, plataformas clandestinas podem recorrer a empresas de fachada, meios de pagamento irregulares, influenciadores e grupos fechados em aplicativos de mensagem para captar usuários e movimentar recursos. Mesmo quando sites ilegais são bloqueados, operadores conseguem trocar de endereço e voltar a divulgar a plataforma em questão de minutos. A criptomoeda entra nesse circuito como um meio conveniente de pagamento e remessa, por dispensar, em alguns casos, a intermediação bancária tradicional. Caio Motta, arquiteto sênior de soluções da Chainalysis para a América Latina, destaca que esse uso está ligado ao papel financeiro dos criptoativos. “Criptos são, primeiro, um ativo financeiro como qualquer outro, que é utilizado por organizações criminosas para movimentar operações, reduzir custos e aumentar a velocidade das operações”, afirma. Segundo relatório da Chainalysis, carteiras ilícitas receberam ao menos US$ 145,9 bilhões em criptoativos em 2025, alta de 155% em relação ao ano anterior. “Quando a gente avalia todo o globo de movimentações, é uma parcela muito reduzida, cerca de 1% de atividade ilícita”, pondera Motta. A tecnologia cria uma aparente contradição. “Qualquer organização criminosa que usa criptoativo acaba abrindo mão do anonimato, porque todas as transferências ficam registradas na blockchain”, diz Motta. “A partir do momento em que eu consigo capturar dinheiro ou uma carteira, eu consigo não só saber o que aquele dinheiro representa, mas avaliar o histórico daquela movimentação.” A fonte do setor de apostas pondera que esse rastro tem limites: “Criptoativos também podem circular por plataformas não reguladas, carteiras próprias, operações entre usuários e ambientes de difícil monitoramento, como a dark web”, o que dificulta as investigações. Para Motta, o combate ao crime depende de ganho operacional das autoridades. “No passado, dados de blockchain eram negligenciados. A partir do momento em que as forças de segurança começaram a entender o valor dessas informações, começaram a incorporar esses dados, e isso resultou em resultados muito concretos e positivos”, afirma.