Quando Bárbara Neves começou a andar de moto, ainda criança, havia quem olhasse com estranhamento para o incentivo recebido dentro de casa. Seu pai chegou a ser chamado de “meio doido” por permitir que a filha praticasse uma modalidade vista como masculina. Anos depois, aos 24, a goiana se prepara para estrear no Sertões e percebe uma mudança justamente entre aqueles que estão começando. — Comecei a andar de moto, tinha pouquíssimas meninas que corriam. O pessoal achava até que meu pai era meio doido de me incentivar: ‘Esse é um esporte mais para homem’. Hoje já vejo muitos pais querendo colocar as filhas, crianças, para correr também — conta Bárbara ao GLOBO. — Cada geração vai tornando isso mais natural. As próximas pilotas já vão vir mais fortes porque vêm da base, desde crianças, com a mesma estrutura que os meninos. Estreante no Sertões Bárbara Neves — Foto: Reprodução/Instagram A mudança ainda acontece em ritmo gradual. Das 248 pessoas inscritas na edição de 2026, 11 são mulheres, o equivalente a 4,4% do grid. Elas aparecem como pilotas e navegadoras em motos, carros e UTVs. Entre elas estão nomes mais experientes, como Moara Sacilotti, e representantes de uma nova geração, como Gabriela Weirich, navegadora de UTV que, aos 19 anos, é também a competidora mais jovem de toda a prova. O percentual coloca o Sertões próximo do observado na maior referência mundial do rally raid. No Dakar deste ano, 39 dos 812 competidores eram mulheres, aproximadamente 4,8%. A distância entre as duas provas é pequena, embora os números mostrem também o tamanho do desafio: tanto no Brasil quanto no principal rali do mundo, mais de 95% dos participantes ainda são homens. Para Leonora Guedes, CEO do Sertões, porém, medir a participação feminina apenas pelo número de mulheres dentro dos veículos deixa de fora uma transformação que começa a aparecer em outras áreas da competição. A caravana do evento reúne cerca de 2,5 mil pessoas e depende de profissionais de saúde, fotografia, engenharia, mecânica, comunicação e dezenas de outras funções. — Quando a gente fala de automobilismo, fala de um esporte predominantemente masculino. Isso vem mudando ao longo dos anos. E gosto muito de enfatizar que não são só as cadeiras de piloto e navegadora. É no todo do evento. São mais ou menos 2.500 pessoas e diversas funções para fazer o evento acontecer. O propósito é que a gente tenha mulheres em todas elas — afirma Leonora. Leonora Guedes, CEO do Sertões — Foto: Divulgação Segundo a executiva, áreas que durante décadas foram exclusivamente masculinas começaram recentemente a receber profissionais mulheres. Ela cita como exemplos as equipes médica e de fotografia, que passaram por essa mudança a partir da edição passada. Equipe 100% feminina Um dos símbolos desse movimento estará novamente dentro do próprio grid. Pelo segundo ano consecutivo, o Sertões recebe a FIA Girls on Track Brasil, iniciativa ligada à Comissão Feminina de Automobilismo da CBA e ao programa internacional da Federação Internacional de Automobilismo. A equipe é formada exclusivamente por mulheres, não apenas dentro do veículo. Elisa, Camilla e Pâmela no Rally dos Sertões — Foto: Lucas Guimarães Pâmela Bozzano pilota, Elisa Lacerda ocupa o banco de navegadora e Camila Mattheis comanda o time. A estrutura conta ainda com Brenda Farias na engenharia e Ana Cristina da Silva na mecânica. Pâmela é uma das 11 mulheres inscritas na competição, enquanto Elisa fará sua estreia no Sertões depois de 15 anos de experiência no rali e passagens por competições de regularidade. — A gente sabe que é um esporte predominantemente masculino, mas sabe também que tem espaço para mulher. Estamos conquistando nosso espaço e mostrando que isso aqui não é só para homem — ressaltou Elisa Lacerda ao GLOBO. A composição é tratada pela organização como uma maneira de mostrar que a participação feminina no automobilismo pode ultrapassar o cockpit. — Pelo segundo ano temos uma equipe 100% feminina: chefe de equipe, pilota, navegadora, mecânica, engenheira. Isso, sem dúvida, é também uma inspiração para uma nova geração — diz Leonora. — Quando você começa a ter equipes que têm mulheres em outras funções, tira uma primeira barreira. Ela talvez não se sinta deslocada como poderia se sentir numa equipe 100% masculina. A barreira de entrar Para quem já cresceu entre motos e competições, como Bárbara, a experiência pode ser diferente. A estreante afirma que se sente acolhida no ambiente do rali, inclusive por homens que acompanharam sua trajetória e ajudaram em sua formação. Ainda assim, reconhece uma cobrança adicional. — Cresci nesse meio, então para mim é muito tranquilo. Muita gente me viu crescer e me sinto muito acolhida. Lógico que vêm alguns desafios de ser mulher, de ter que ficar se provando, essas coisas, mas tento buscar mais o lado positivo — afirma. Leonora identifica justamente nessa sensação de precisar demonstrar pertencimento uma das barreiras que ainda precisam ser derrubadas. Para ela, a divisão cultural entre esportes “de menino” e “de menina” perdeu força nas gerações mais novas, mas a predominância masculina continua capaz de afastar potenciais competidoras e profissionais. — Acho que existia muito essa questão de que “isso aqui é de mulher, isso aqui é de homem”. A nova geração não vem com essa mentalidade. Posso fazer judô, posso fazer karatê, posso fazer dança, o que eu quiser — diz. — Mas a presença predominante dos homens pode inibir: “Será que me cabe nesse lugar?”. Existe o receio de ser julgada, de ser aceita, de ser bem recebida. A resposta que a organização pretende transmitir, segundo a CEO, é justamente a oposta. — O que a gente quer mostrar e faz questão de reforçar é: sim, você é bem-vinda. Pode vir. Tem espaço para você onde quiser. Pilotando, navegando, como engenheira, como chefe de equipe. Para Bárbara, a transformação mais importante talvez esteja acontecendo antes mesmo de essas meninas terem idade para pensar no Sertões. Campeã em modalidades como Enduro e Cross Country, ela começou a competir no rally apenas neste ano e fará sua estreia na maior prova off-road do país justamente em casa: a edição de 2026 larga e termina em Goiânia. O que mais a anima para o futuro, porém, é observar meninas recebendo hoje oportunidades semelhantes às que durante décadas foram oferecidas quase exclusivamente aos garotos. — Acredito que cada geração que vem vai tornando isso cada vez mais natural. As próximas pilotas já vão vir mais fortes porque vêm da base desde crianças, com a mesma estrutura que os meninos. É essa normalidade que Leonora também busca. Mais do que celebrar uma mulher no volante, outra na navegação ou uma equipe inteiramente feminina, o objetivo é que a presença delas deixe, pouco a pouco, de precisar ser tratada como algo excepcional.