Desemprego ocupa, há um ano, o 1º lugar entre as preocupações econômicas dos eleitores, à frente da inflação, enquanto taxa de aprovação de Milei, de 37%, está próxima do nível mais baixo de seu mandato 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Trabalhadores da construção civil no distrito financeiro de Buenos Aires — Foto: Tomas Cuesta/Bloomberg O presidente Javier Milei reduziu a inflação e a pobreza na Argentina, ao mesmo tempo, em que eliminou o déficit orçamentário do país. Contudo, o mercado de trabalho continua mergulhado na crise que ele foi eleito para enfrentar. Pelo segundo ano consecutivo, a economia do país vizinho está crescendo, mas o emprego está caindo no setor formal, onde os trabalhadores têm salários mais altos, benefícios e assistência médica. Essa queda no emprego é a principal ameaça à tentativa de reeleição de Milei no próximo ano, com investidores torcendo para que o pêndulo político da Argentina não se afaste de sua abordagem pró-mercado. — O que parece estar se tornando cada vez mais importante é a criação de empregos, já que as pesquisas mostram que isso está se tornando um fator fundamental para a confiança do consumidor. Como isso está relacionado aos votos, o mercado provavelmente ficará atento a esse indicador — disse Pablo Goldberg, gestor de portfólio de mercados emergentes na BlackRock. A Argentina perdeu 241 mil empregos com carteira assinada no setor privado desde que Milei assumiu o cargo — ou 4% do total —, enquanto seu governo cortou 73 mil funcionários públicos, mostram dados oficiais. O número de empregadores do setor privado caiu para 482 mil, o menor nível desde 2007, segundo o centro de estudos Fundar. O presidente da Argentina, Javier Milei — Foto: Luis Robayo/AFP Apenas uma província — Neuquén, lar do boom energético do país — registrou aumento no número de empresas durante o mandato de Milei, indicando que os trabalhadores não estão migrando de setores em dificuldades para indústrias prósperas, constatou a consultoria Equilibra. — Estamos passando por um processo que podemos caracterizar como crescimento sem criação de empregos de qualidade — um crescimento sem emprego — disse Matías Maito, economista especializado em mercado de trabalho da Universidade de San Andrés, referindo-se aos empregos com carteira assinada. — A única coisa que cresceu nos últimos dois anos foi o emprego informal. O secretário do Trabalho da Argentina, Julio Cordero, não respondeu a um pedido de entrevista. O desemprego ocupa, há um ano, o primeiro lugar entre as preocupações econômicas dos eleitores, à frente da inflação, enquanto a taxa de aprovação de Milei, de 37%, está próxima do nível mais baixo de sua gestão, de acordo com o LatAm Pulse, uma pesquisa de opinião pública conduzida pela AtlasIntel para a Bloomberg News. Parte da mudança nas preocupações é resultado do sucesso de Milei em reduzir a inflação, que estava em três dígitos, e o aumento do desemprego nem sempre é um fator decisivo para os eleitores. O presidente Carlos Menem foi reeleito em 1995, mesmo com um desemprego de dois dígitos, após derrotar a hiperinflação. Mas, naquela época, Menem tinha uma inflação anual abaixo de 2%; os economistas projetam que a inflação no próximo ano ficará em torno de 20%. À medida que as políticas de Milei contêm a alta dos preços, elas também estão impulsionando, ao menos em parte, a queda dos empregos. Seus cortes de gastos reduziram as obras públicas e aumentaram as contas de serviços públicos, resultando em menos empregos na construção civil, menor renda disponível e redução do consumo das famílias. Com alguns controles cambiais ainda em vigor, uma taxa de câmbio mais forte também tornou os serviços argentinos, da tecnologia ao turismo, mais caros. As medidas de Milei para abrir a economia a uma maior concorrência estrangeira ajudaram a conter os preços, mas também atingiram duramente setores industriais tradicionais. Até mesmo as contratações nos setores competitivos da Argentina, do petróleo à mineração e à tecnologia, estão em queda ou estagnadas na era Milei, segundo dados do governo e relatórios do setor. O número de funcionários na empresa de serviços em nuvem de Patricio Pagani, a The Black Puma, praticamente dobrou, passando de cerca de 20 para aproximadamente 40 empregados, entre a pandemia e a chegada de Milei à presidência. No entanto, os salários no setor privado dobraram em termos de dólares desde que ele assumiu o cargo, reduzindo as margens de Pagani. Agora, o empresário planeja contratar mais funcionários no Brasil e abrir uma unidade na Colômbia, onde os custos trabalhistas são menores. Tantos veteranos experientes em tecnologia estão procurando emprego em Buenos Aires que Pagani, de 48 anos, nem sequer está contratando para cargos de nível inicial: — Vejo a taxa de desemprego entre profissionais altamente qualificados muito mais alta do que era há cinco anos. Neste momento, a Argentina deixou de ser competitiva em termos de custos. O desemprego na economia formal subiu para 7,8%, mas o impacto é mascarado por um mercado de trabalho informal em expansão, que agora representa 44% da força de trabalho do país. Um estudo da Universidade Católica da Argentina mostrou que trabalhadores de diferentes níveis de escolaridade e renda estão trabalhando cada vez mais sem registro, mas os economistas veem isso como um último recurso, e não como uma preferência. "A informalidade continua sendo a segunda melhor opção em relação a um emprego formal assalariado" embora seja melhor do que o desemprego, afirmou Roxana Maurizio, pesquisadora do instituto de políticas IIEP da Universidade de Buenos Aires: — No panorama geral, pelo menos, não é um destino desejável. Inscrições para cursos profissionalizantes disparam Sergio Moreno recebeu mais de 3.500 inscrições para 700 vagas neste ano na Fundacion Oficios, o programa de capacitação profissional que ele coordena nos arredores de Buenos Aires, e que oferece cursos para carpinteiros, eletricistas e outros profissionais especializados. O número de inscrições aumentou 40% em relação ao ano passado. Moreno nunca havia recebido tantas candidaturas. Sergio Moreno, diretor da Fundacin Oficios, em Benavidez, na Argentina — Foto: Erica Canepa/Bloomberg Ele está construindo novas salas de aula à medida que a demanda aumenta por parte de argentinos da classe trabalhadora que buscam uma oportunidade de emprego, já que muitos não conseguem trabalho— ou não conseguem horas suficientes — para pagar as contas. — Em momentos de crise, pelo menos na Argentina, existe uma tendência de migrar para a informalidade porque é mais barato, você não paga impostos. Muitas empresas fecharam, e não estou falando contra ou a favor do governo, é apenas um fato — afirmou Moreno. Ruben Barboza, de 56 anos, está desempregado desde novembro passado, quando uma fábrica de móveis que o havia contratado fechou devido à forte queda nas vendas. O trabalhador está fazendo seu segundo curso de capacitação profissional, depois de ter se candidatado a 30 vagas sem receber nenhuma oferta. Por enquanto, ele vive da renda da esposa. — Para as pessoas trabalhadoras que conheço, sim, a inflação é importante, mas importa menos do que ter um emprego, conseguir pagar as contas e colocar comida na mesa — disse Barboza, que não apoia Milei. — Não sou apenas eu. Muitas pessoas não estão conseguindo chegar ao fim do mês.
Perda de empregos na Argentina é a maior ameaça à política de Milei
Desemprego ocupa, há um ano, o 1º lugar entre as preocupações econômicas dos eleitores, à frente da inflação, enquanto taxa de aprovação de Milei, de 37%, está próxima do nível mais baixo de seu mandato







