Na diss track 'SLV', Shabjdeed atacou Saint Levant, que atualmente vive em Los Angeles, pela falta de conteúdo político e menções à situação em Gaza 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Saint Levant, rapper nascido em Jerusalém que vive em Los Angeles: críticas por trocar canções sobre terra natal por temática amorosa — Foto: Avery Norman/The New York Times/16-2-2023 O rapper palestino Shabjdeed costuma fazer músicas desafiadoras sobre as dificuldades de viver sob a ocupação israelense na Cisjordânia. Mas, na recente “SLV”, ele voltou sua indignação contra outro artista palestino, uma estrela pop em ascensão global chamada Saint Levant. Nascido em Jerusalém e criado em parte na Faixa de Gaza, Saint Levant, cujo nome verdadeiro é Marwan Abdelhamid, vive hoje em Los Angeles e é mais propenso a cantar sobre seus amores do que sobre sua terra natal. Essa parece ser a principal queixa de Shabjdeed. “Misturando a Palestina com todo tipo de merda e pretensão europeia, agindo de forma descolada... Vou colar uma melancia bem na sua coxa — só para você saber o quanto amo meu país”, cantou Shabjdeed dirigindo-se a Saint Levant e fazendo referência à fruta de cores vermelha, verde e preta, que compartilha as cores da bandeira palestina. A música, que ataca a persona e a obra de Saint Levant por considerá-las inautênticas, ressoou entre muitos palestinos, levantando questões sobre identidade e representação, especialmente no campo das artes. Os representantes de Shabjdeed e Saint Levant não responderam aos pedidos de comentário. Os palestinos têm uma longa história de deslocamento, sem um Estado independente ou uma liderança política centralizada. A questão de quem fala por eles — e de que maneira — tornou-se um debate acalorado, especialmente após a guerra em Gaza e o aumento da violência de colonos israelenses na Cisjordânia. A própria identidade palestina é complexa. Ela foi moldada não apenas por uma longa história, mas também pela expulsão e pelo deslocamento forçados de palestinos decorrentes da criação do Estado de Israel em 1948. As décadas subsequentes de ocupação israelense e novas ondas de deslocamento levaram a uma fragmentação da experiência palestina, com muitos sendo forçados a viver longe de suas casas ancestrais. — Cada um de nós carrega uma peça diferente de um quebra-cabeça que foi despedaçado em 1948 — disse Tamer Nafar, rapper considerado o padrinho do hip-hop palestino. — A ocupação nos dispersou. Ela não mudou necessariamente nossa identidade ou nossa essência, mas certamente mudou nossa perspectiva, nossas condições de vida e a maneira como cada um de nós se relaciona com a Palestina. Enquanto Shabjdeed, radicado em Ramallah (Cisjordânia), apresenta-se como a voz mais autenticamente palestina, as críticas ácidas presentes na faixa “SLV” levaram alguns a examinar mais de perto suas palavras e ações. Críticos da música recente o acusaram de não se manifestar o suficiente contra a guerra em Gaza e apontaram que ele continuou a realizar shows durante aquele período. Saint Levant, de 25 anos, compôs músicas sobre Gaza e manifestou-se contra a guerra durante suas apresentações. Ele não respondeu à provocação de Shabjdeed, embora outro rapper palestino o tenha feito. 'Palestinos não são um bloco monolítico' Emsallam, músico palestino-jordaniano, foi alvo de uma música de ataque (ou diss track) de Shabjdeed em 2018. Quando Shabjdeed lançou “SLV”, Emsallam rapidamente divulgou uma resposta em forma de música, instando-o a fazer rap sobre a guerra em Gaza em vez de atacar artistas palestinos. “Você não tem mais honra — meu Deus, depois dessa música não quero ouvir seus chiados”, cantou Emsallam. “Não ouvimos sua voz há três anos, em meio a todos os massacres.” Alguns palestinos contestaram as críticas de Shabjdeed, argumentando que suas letras reforçam longo histórico de redução da complexidade de suas vidas à luta política. — Os palestinos não são um bloco monolítico, não somos todos iguais, e não acho que alguém tenha o direito de ditar quem pode ser considerado palestino — disse Tala Hammash, fã de ambos os artistas. — Acho que essa é uma das principais críticas à música de ataque contra Saint Levant. E daí que ele fale sobre amor e coisas do tipo? Isso o torna menos palestino?