— Foto: Lula Palomanes Que o Copacabana Palace está habituado a lidar com estrelas (e não daquelas com as quais a Embratur classificava os hotéis do Brasil), todos sabem. Aos 103 anos, que completa neste mês, o maior ícone da hotelaria brasileira deve boa parte da fama à interminável lista de personalidades e celebridades que lá se hospedaram. Quando o assunto é o Copa, é quase certo que um ou outro nome dessa lista, para lá de heterogênea, entre na conversa. Imagine então quando o interlocutor é ninguém menos do que Ulisses Marreiros, diretor-geral do hotel há cinco anos. “Nosso maior desafio é fazer com que os demais hóspedes se sintam como as celebridades, que já recebem atenção suficiente de muita gente”, afirma. Ele diz isso antes de citar a hospedagem de Katy Perry em 2024 e o pedido extravagante que a cantora fez certa noite: o preparo de 80 pizzas para distribuir entre os fãs que não arredaram o pé da porta do hotel. “Fazemos uma pizza muito boa”, diz Marreiros, para quem a americana foi uma “clientaça”. Segundo ele, tecer comentários sobre os hóspedes não é do feitio do hotel. “Mas alguns deles são figuras públicas, e quem divulga o fato de estarem hospedados conosco são eles mesmos.” Ele lembra que a cantora desceu para entregar as pizzas e não fez nenhum segredo disso, pelo contrário. Ulisses Marreiros nasceu em Portugal e primeiro pensou em ser professor de educação física. Trabalhou na TAP e depois ingressou na indústria hoteleira, chefiando hotéis da Belmond em Portugal e Espanha antes de vir ao Brasil — Foto: Leo Pinheiro/Valor Arrancar comentários sobre hóspedes ilustres de outras épocas é um pouco mais fácil, embora, também nesse caso, Marreiros não se permita falar muito. Sobre Jô Soares (1938-2022), limita-se a confirmar que ele engrossou a lista de residentes, da qual o cantor Jorge Ben Jor faz parte até hoje. O humorista morou com os pais, ainda garoto, no primeiro andar do Anexo, e de lá, volta e meia, saltava na piscina, na época mais funda do que hoje. Atirava-se também do topo do trampolim, que não existe mais. Reza a lenda, uma das inúmeras que permeiam a história do Copa, que Jô, mais de uma vez, ameaçou pular da cobertura do Anexo vestindo uma capa, para o desespero dos turistas lá embaixo. O Anexo foi inaugurado em 1948 - 25 anos depois da edificação principal, que foi construída com cimento alemão, mármore de Carrara e cristais tchecos e tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e nas esferas estadual e municipal. Foi na melhor suíte do Anexo que o cantor Sammy Davis Jr. (1925-1990) teria recebido seus convidados de sunga, botas e chapéu de caubói. De acordo com outra lenda, o bailarino russo Rudolf Nureyev (1938-1993) fez questão de cama de solteiro e que ela estivesse “voltada para o nascente”. Já o cantor americano Johnny Mathis teria exigido lençóis cor-de-rosa. Que o roqueiro Rod Stewart foi expulso da suíte presidencial, por causa de uma devastadora partida de futebol travada lá mesmo, ninguém duvida. Se [o hotel] continuasse a fazer exatamente o que fazia há 100 anos, já tinha fechado” O responsável por uma das maiores dores de cabeça que o hotel já enfrentou foi o cineasta Orson Welles (1915-1985). Numa noite dos anos 40, depois de se desentender, pelo telefone, com a atriz mexicana Dolores del Río (1904-1983), com quem teve um “affair”, ele teria atirado sua máquina de escrever na piscina, pela janela do apartamento. Ao longo dos anos, a história foi aumentada, e há quem diga que ele lançou uma cadeira e uma mesa de cabeceira e até quem afirme que toda a mobília voou pela janela, incluindo a cama e o piano. Sem entrar em detalhes, Marreiros conta que às vezes é acionado, tarde da noite, para ajudar a dar conta de um pepino ou outro provocado por algum cliente. Já a reforma em andamento, a maior na história do hotel, não se mostrou uma dor de cabeça. Pelo menos é o que o diretor-geral afirma neste “À Mesa com o Valor”. “O sucesso de uma obra dessas, com o hotel em funcionamento, deve-se muito ao planejamento, que começou em 2021”, avalia. “Ela pode ter provocado dissabores pelo caminho, mas, até agora, nos saímos superbem.” Cerca de 300 pessoas, quase a metade do número de funcionários do hotel, estão encarregadas da reforma em curso, que vai repaginar o Anexo, além do restaurante Cipriani, localizado no térreo desse prédio, e a piscina externa. Esta foi interditada e cercada por um tapume no dia 8 de junho. Desde então, a incensada Black Pool, a piscina do sexto andar, tradicionalmente restrita aos ocupantes das suítes situadas nesse andar, está liberada para todos. A reforma começou em abril de 2025 e está prevista para terminar em setembro. Com ela, o Anexo vai reabrir com novo nome, Edifício Piscina, e 68 acomodações em vez das 96 atuais. O Cipriani, que tinha 1 estrela Michelin quando fechou, vai reabrir com capacidade 20% menor. Outra novidade será uma nova operação ao redor da piscina, um bar de drinques, cujo nome ainda não foi definido. Vai se somar ao Cipriani, ao restaurante Pérgula, onde o café da manhã é servido, e ao Mee, a escolha de Marreiros para esta entrevista. Com a equipe do Copacabana Palace, submetida a constante treinamento — Foto: Divulgação Às 19 horas, ele entra no asiático, premiado com 1 estrela Michelin, vestido como sempre - de costume (preto, no caso), sapatos de couro impecáveis e camisa social com os dois primeiros botões abertos (a peça de hoje é rosa). Depois de se acomodar, de costas para uma pintura dominada pelo rosto de uma mulher, diz que a cor das paredes foi trocada de vermelho para azul, entre outras novidades recentes na decoração, e elogia a carta de drinques, assinada pelo head bartender, Stephano Giglio, que vem à mesa para explicá-la. A carta é inspirada no xintoísmo, religião japonesa que enfatiza a pureza e a energia do espírito. O primeiro coquetel que Giglio criou para ela ganhou o nome de Shinto, com gim e cordial de manjericão. Marreiros solicita ao maître Danilo Martins um dos mocktails (coquetel sem álcool), o Haiboru, feito com infusão de limão e uma planta chamada rooibos, além de soda de morango clarificada com pectina. Outra sugestão é o Matcha Sour, feito com gim sem álcool, matchá, limão siciliano e clara de ovo pasteurizada. Já o repórter experimenta o Shinto e, em seguida, o Amaterasu, junção de uísque japonês, laranja kinkan, mel e espumante de saquê. Os drinques, intercalados com água com gás, acompanham as duas primeiras etapas do jantar. A primeira delas é composta por uma seleção de sashimis servida em uma travessa “instagramável” com direito a gelo seco, sobre o qual Martins despeja água quente, formando uma névoa densa. A segunda etapa é composta por cinco niguiris para cada um. Um dos pratos preferidos do entrevistado, o camarão Hong Kong com noz pecan caramelizada, chega à mesa a seguir. Vem acompanhado de carpaccio de wagyu com molho tataki, crocante de nori, brotos e alho. Para acompanhar esses dois pratos, nos rendemos ao vinho branco, o chardonnay da vinícola Pedras da Quinta, localizada em Encruzilhada do Sul (RS). No baile do Copa, um dos muitos eventos que têm lugar no mítico hotel — Foto: Divulgação É grande a expectativa pela retomada do Cipriani, comandado pelo chef italiano Nello Cassese, que acumula o cargo de diretor de gastronomia da Belmond na América do Sul. Além da conquista da estrela Michelin, o restaurante entrou no ranking “Latin America’s 50 Best Restaurants”. Na edição de 2024, abocanhou a 77ª colocação. No mesmo ano, repaginou-se a “mesa do chef”, que foi criada em 2011 e costumava ser utilizada duas vezes por semana para jantares exclusivos. Ficava dentro da cozinha do Cipriani, em frente à boqueta, e acomodava até seis pessoas. Voltou à ativa com novo nome: “mesa do chef Dom Pérignon”. Era o primeiro espaço do tipo assinado pela marca de espumantes da LVMH, conglomerado de luxo do qual a Belmond faz parte. Na Europa, a Dom Pérignon assina a mesa do chef do restaurante Le Meurice, em Paris, de Alain Ducasse, e a do Enigma, em Barcelona, de Albert Adrià. O Cipriani foi inaugurado em 1994; o Mee; em 2014; e o Pérgula, em 1949, que teve uma grande reforma em 2017. No asiático, os não hóspedes correspondem a 70% da clientela; no Cipriani, eles representavam 65%; e, no Pérgula, correspondem a 60%. “A gastronomia é um pilar muito forte do Copa”, diz Marreiros. As hospedagens correspondem a 55% do faturamento, o departamento de alimentos e bebidas contribui com cerca de 25% e o setor de eventos, com os 20% restantes. Nos anos 40, o grande restaurante do Copa era o Grill Room. Consta que foi rebatizado Bife de Ouro depois que um cliente se indignou com a conta de um jantar. O antigo restaurante disputava as atenções com a boate Meia-Noite, que não existe mais. Terminada a noitada ali, muita gente só ia embora depois de devorar o picadinho do Copa, servido até hoje pelo Pérgula. Marreiros conta que 2022 foi o ano no qual o hotel mais faturou, em boa medida devido às restrições impostas pela pandemia às viagens para fora do Brasil, o que levou muita gente a se voltar para as opções locais de hospedagem. É um fenômeno que também favoreceu outro hotel que está sob a alçada dele, o das Cataratas, o único dentro do Parque Nacional Iguaçu, em Foz do Iguaçu (PR). Marreiros acumula o cargo de diretor no Brasil da Belmond, dona do Copa e concessionária do hotel paranaense, que é do governo. A retomada dos turistas internacionais ajudou os dois hotéis a continuar registrando bons resultados desde então. “Para o Copa, 2022 foi um ano extraordinário, assim como 2023 e 2024”, afirma. Segundo ele, 2025 não ficou muito atrás, apesar da redução da capacidade por conta das obras no Anexo. Elas só reduziram a participação dos hóspedes brasileiros, que costumam se concentrar nos fins de semana. Em 2025, os estrangeiros responderam por 68% da ocupação. Historicamente, costumam representar 60%. No ano passado, o Brasil recebeu quase 9,3 milhões de turistas, um número recorde, e o estado do Rio, quase 2,2 milhões, outra cifra inédita. “Surfamos nessa onda”, diz Marreiros. As diárias no Copa partem de R$ 3.500. Já a suíte presidencial custa a partir de R$ 25 mil; no Réveillon são R$ 60 mil por dia, com uma permanência mínima de uma semana. Marreiros vê com bons olhos a reinauguração prevista para setembro de um concorrente de peso, o Sofitel em Ipanema, em obras desde 2019. “Será mais um hotel de luxo a posicionar o Rio de Janeiro num patamar de hospedagem mais elevado. Vai ser muito bom para nós, assim como a vinda do Four Seasons, que, ao que parece, desta vez vai sair”, diz. “São novidades que vão aumentar o ‘bolo’ - ou seja, atrair mais gente - e não diminuir a nossa fatia.” O Brasil, segundo ele, está diante de uma janela de oportunidade para atingir a marca de 20 milhões de turistas internacionais até 2030. Com Fernanda Montenegro. Celebridades são uma presença constante na vida do diretor do Copa — Foto: Divulgação Ulisses Marreiros nasceu em Faro, no extremo sul de Portugal, há 52 anos. Seu nome é fruto do fascínio paterno pela mitologia grega. O pai se inspirou no protagonista da obra de Homero para nomear o primogênito e batizou o segundo de Aquiles. Só a mãe dos dois deu sinal verde para o tributo à cultura helênica. Frutos de outros dois relacionamentos, os irmãos mais novos do diretor-geral se chamam Inês e Marcio. O pai dele trabalhou na TAP como teletipista, ofício mais próximo da Grécia Antiga que dos dias atuais. O entrevistado trabalhou na mesma companhia aérea, junto à equipe do check-in, em dois verões seguidos antes de ingressar na graduação de gestão hoteleira na Universidade do Algarve e no primeiro ano do curso. A mãe dele era gerente de um supermercado. Foi onde ele debutou profissionalmente, aos 15 anos, descarregando mercadoria dos caminhões e organizando e etiquetando produtos nas prateleiras. Também foi um emprego de verão, repetido ao longo de três anos. Antes de resolver enveredar pelo turismo, sua meta era ganhar a vida como professor de educação física. Da rotina de exercícios daquela época só mantém, hoje em dia, o hábito de correr nas ruas. É algo que faz, volta e meia, acompanhado de alguns hóspedes. Isso porque uma das atividades de lazer oferecidas pelo Copa é esta: corrida na orla com o diretor-geral, toda quinta-feira, às 7 horas. O percurso geralmente é de 7 km, no máximo, entre Copacabana e Ipanema. “Normalmente, aparecem dois ou três hóspedes, às vezes nenhum”, diz. O maior quórum até aqui? Nove pessoas, incluindo Marreiros. A inspiração veio de uma estadia, há mais de uma década, no hotel que a Belmond geria em São Petersburgo, na Rússia, até a invasão da Ucrânia. “Às 6 horas da manhã, corri pela cidade em meio a monumentos incríveis junto com o diretor-geral”, recorda. “Para mim, foi um luxo.” A lembrança abre espaço para a interminável discussão sobre o que pode ou não ser chamado de luxo. “Para muita gente, dispor de 50 mordomos ou só de banheiros revestidos de mármore ainda é sinônimo de luxo”, diz. “Mas vai da interpretação de cada um.” Na sua visão, o que norteia a mordomia oferecida pelo Copa são os esforços para favorecer momentos de celebração. “A família Guinle criou este hotel em um momento de grande celebração, relacionado ao Centenário da Independência do Brasil, em 1922”, argumenta. “É uma âncora para nós. E todo dia há algum tipo de celebração por aqui, seja o aniversário de um hóspede, seja um casamento na área de eventos.” Em 1989, a família Guinle vendeu o hotel para a rede britânica Orient-Express, rebatizada de Belmond em 2014. Quatro anos depois, a companhia foi adquirida pelo conglomerado de Bernard Arnault. Apesar da fachada inalterada, o hotel mudou muito da inauguração até os dias de hoje. “Se continuasse a fazer exatamente o que fazia há 100 anos, já tinha fechado”, afirma o diretor-geral, acrescentando que as mudanças referem-se, principalmente, a inovações tecnológicas. “Já o cuidado com os clientes e o nosso padrão de hospitalidade, possivelmente, são os mesmos desde o início.” A grande reputação, diz Marreiros, traz um desafio extra. “Faz com que muita gente venha com expectativas enormes, que muitas vezes são frustradas, em função das dimensões do hotel”, afirma. Daí o constante treinamento dos quase 600 funcionários. “É uma equipe maior do que eu gostaria, mas menor do que preciso”, diverte-se, repetindo uma frase que ouviu recentemente. A escolha das sobremesas é delegada ao maître: sponge cake de matchá e o crumble de cacau acrescido de chocolate com togarashi, sorvete de gergelim e caramelo de missô. Um licor de shissô, produzido pelo próprio Mee, acompanha a sobremesa. Marreiros nunca havia pisado no Copa quando foi contratado para comandá-lo. “Foi um blind date”, brinca, quando o jantar já está perto do fim. Antes, chefiou por mais de sete anos outro hotel da Belmond, o La Residencia, na ilha de Maiorca, na Espanha. No Reid’s Palace, outro hotel do mesmo grupo, na Ilha da Madeira, em Portugal, entrou como gerente e saiu, três anos depois, como diretor-geral. Também trabalhou no Vila Vita Parc, no Algarve, e no One&Only Reethi Rah, nas Maldivas, entre outros hotéis. Encerrada a refeição, Marreiros informa que estará de volta, no outro dia, às 7h45, o horário que costuma chegar ao Copa. “É que sábado, quando o Pérgula serve sua tradicional feijoada, é o meu dia preferido no hotel”, justifica. “Então acabo estando aqui mesmo de folga, e às vezes até mesmo no domingo.” É dia de brunch ao redor da piscina, não raro com a presença de várias estrelas.