Gerando resumoA busca pelo herdeiro político de Donald Trump já começou e tem dois postulantes principais: o vice-presidente americano JD Vance e o secretário de Estado Marco Rúbio. Ambos são cotados como possíveis candidatos em 2028, a primeira eleição que não terá o presidente em 16 anos, e representam diferentes caminhos para a legenda para o período pós-Trump. PUBLICIDADEApesar de não querer deixar o poder, o presidente americano já admitiu que está pensando sobre quem será seu sucessor. Ele elogia constantemente o trabalho de Vance e Rubio e pergunta a aliados sobre qual seria o melhor candidato presidencial para 2028. Vance é considerado o herdeiro ideológico do movimento Make America Great Again (MAGA) e defende políticas protecionistas na economia e isolacionistas na política externa. PublicidadeO vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio, representam duas alas distintas do Partido Republicano Foto: Evan Vucci/APJá Rubio é o queridinho da ala mais tradicional da legenda, tem posições intervencionistas na política externa e um capital político que antecede a Donald Trump.“Rubio é o favorito das elites republicanas, enquanto JD Vance é mais popular dentro do núcleo duro de apoio de Trump”, diz Carlos Poggio, professor de ciência política do Berea College, no Kentucky. “Eles também têm níveis de experiência diferentes e de lealdade. Rubio possui uma trajetória histórica no Partido Republicano e Vance é um político recente e mais leal a Trump do que à legenda”acrescenta. PublicidadeJD Vance e o trumpismo Vance nunca foi querido pelo establishment republicano desde os tempos de senador. Ele desbancou Rubio e outros políticos republicanos cotados para a vice-presidência em 2024 por conta de seus laços com o trumpismo. Sua relação com o Partido Republicano é mais recente e ele estava em seu primeiro mandato no Senado quando foi escolhido como companheiro de chapa de Trump. O atual vice-presidente ficou famoso em 2016, quando lançou a autobiografia “Era uma vez um sonho: A história de uma família da classe operária e da crise da sociedade americana”, que virou best-seller do The New York Times.PublicidadeO vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, participa de um evento na Casa Branca, em Washington Foto: Alex Brandon/APO livro narra a infância pobre de Vance em Middletown, Ohio, onde sofreu com violência doméstica, abusos e teve que ser criado por seus avós por conta da dependência química de sua mãe. A família do político também tem raízes na região dos Apalaches, no Kentucky, um dos locais mais pobres dos Estados Unidos, que sofre com uma crise relacionada ao uso de opioides.A obra foi elogiada por mostrar a realidade da classe operária rural branca e se transformou em leitura obrigatória para entender como Donald Trump surpreendeu ao vencer a eleição presidencial de 2016, principalmente com votos do chamado Cinturão da Ferrugem, região do Nordeste americano composta pelos Estados de Ohio, Pensilvânia, Michigan, Minnesota e Wisconsin. Por conta de suas raízes e do livro, Vance virou uma espécie de porta-voz desta classe trabalhadora branca e um exemplo de como é possível ascender socialmente, com uma carreira de sucesso como investidor no Vale do Silício antes de entrar na política. PublicidadeO vice-presidente representa uma ala chamada de populistas econômicos dentro do Partido Republicano e rompe com a doutrina liberal mais tradicional que foi traçada pelo ex-presidente americano Ronald Reagan.O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, conversa com o presidente americano Donald Trump, em Washington Foto: Chip Somodevilla/AFPO senador é contrário ao livre-comércio e monopólios corporativos e chegou a elogiar sindicatos e criticar Wall Street. Vance também se mostrou um camaleão político nos últimos anos. Ele era crítico de Donald Trump em 2016 e chegou a chamá-lo de “Hitler da América”, mas se aproximou do presidente e mantém uma relação próxima com o mentor. Publicidade“Vance se tornou um dos políticos mais adaptáveis da história política moderna dos EUA”, avalia Nicholas Jacobs, professor do Departamento de Governo da Colby College, nos EUA.Cão de guardaO vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, discursa no funeral do senador Lindsey Graham, em Washington Foto: Jim Lo Scalzo/APAs declarações de Vance propagaram uma teoria da conspiração antissemita que liga Epstein a Israel e geraram desconforto na ala mais tradicional do Partido Republicano. Ele foi duramente criticado por jornalistas influentes de veículos conservadores, como o The Wall Street Journal e o New York Post por suas declarações. PublicidadeA ala tradicional também criticou Vance por conta de seu temperamento explosivo nas redes sociais, sua postura nas negociações com o Irã e o relacionamento próximo com o apresentador Tucker Carlson.O vice-presidente não parece preocupado com isso, disse um aliado de Vance ao portal Axios. “Quando o conselho editorial do Wall Street Journal o ataca, isso apenas envia à nossa base o sinal exato que queremos. Esse é o coração do establishment republicano pré-Trump”.PublicidadeO vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, caminha ao lado da segunda-dama Usha Vance, em Washington Foto: Saul Loeb/AFPRubio, o favorito do establishment Já Rubio é o favorito da ala tradicional do Partido Republicano. Ele tem posições mais alinhadas ao que a legenda defendia no período pré-Trump e conseguiu transitar dentro do movimento Make America Great Again (MAGA), apesar de ter sido um ferrenho adversário de Trump nas primárias republicanas de 2016. Ele chegou a receber o pejorativo apelido de “Little Marco” (Pequeno Marco) do presidente americano, mas caiu nas graças de Trump em seu segundo mandato.O secretário de Estado é filho de cubanos e foi senador pela Flórida por 14 anos. Ele sempre defendeu que os EUA fossem mais intervencionistas na política externa e é o arquiteto das medidas de Trump na América Latina, como a prisão do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro e os bombardeios a supostos barcos transportadores de drogas em águas internacionais. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, escuta o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursar em um evento em Washington Foto: Eric Lee/AFP“Rubio é uma figura muito querida dentro do partido desde antes do trumpismo”, aponta Jacobs. “Sua atuação como secretário de Estado tem sido elogiada, principalmente pelos neoconservadores que defendem uma política externa intervencionista”. PublicidadePara o especialista, o cargo de Rubio o credencia como um possível candidato, por conta da posição de liderança. “Trump colocou Rubio em um cargo de prestígio, com grande visibilidade e atuação”. Rubio mantém cautela Até agora, Rubio diz que não vai concorrer à presidência e ainda não montou uma estrutura para lançar uma campanha nas primárias. Mas um grupo de doadores republicanos deseja a sua candidatura. De acordo com o Axios, o empresário americano Ken Griffin, um dos maiores doadores do Partido Republicano, deseja que ele seja o candidato em 2028. PublicidadeEssa é a opinião de Jason Shepherd, um advogado e consultor republicano que mora em Marietta, um subúrbio perto de Atlanta. Shepherd chegou a liderar o Partido Republicano local, mas foi escanteado pelo partido com a onda trumpista. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, participa de uma reunião no Departamento de Estado, em Washington Foto: Tierney L. Cross/AP Ele quer voltar à vida política e afirma que Rubio pode devolver votos de eleitores moderados e suburbanos ao Partido Republicano. “Eu apoiei Rubio para presidente em 2016 e fui em vários de seus comícios. Dava para ver que ele era um político especial”. O consultor republicano aponta que Trump colocou Rubio em uma posição de mais destaque em comparação com Vance. “Trump é muito visual e fala muito sobre passar uma imagem de sucesso, então o protagonismo de Rubio nesse quesito mostra que ele pode ser candidato a presidente”. PublicidadeDisputa pela herança MAGAVance e Rubio não admitiram estar em uma disputa e se dizem amigos. O secretário de Estado chegou a afirmar que vai apoiar o vice-presidente em 2028 se ele entrar na corrida pela Casa Branca em 2028. Mas está claro que existe uma divergência entre alas do Partido Republicano e os dois são os porta-bandeiras destes movimentos. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa em Washington Foto: Saul Loeb/AFP O desafio para os dois é conquistar a base trumpista, que tem uma ligação emocional com o presidente americano. A tarefa não é fácil, já que Trump é um dos políticos conservadores mais carismáticos da história americana, de acordo com os especialistas entrevistados pelo Estadão. “Qualquer pessoa que esteja à sombra de Donald Trump parece amadora”, diz Nicholas Jacobs, do Colby College. “Rubio e Vance não têm o mesmo carisma de Donald Trump”.Além disso, o Partido Republicano precisa definir qual será sua plataforma após o fim do governo Trump. “A legenda ainda está tentando entender qual é a sua visão para os EUA e a ordem global”, diz Jacobs. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de uma reunião ao lado do secretário de Estado, Marco Rubio, em Washington Foto: Julia Demaree Nikhinson/AP“A agenda America First é bastante ambígua. O partido se tornou intervencionista na economia e não defende mais o equilíbrio orçamentário, mas ainda tem dúvidas sobre o seu papel na política externa e Rubio e Vance divergem nisso”, avalia o especialista. “Vance quer reduzir os compromissos internacionais e a ajuda econômica e militar, enquanto Rubio acredita em uma postura mais ativa”. A decisão é de TrumpA decisão sobre quem deve ser o candidato será de Donald Trump. Ele controla o partido com mãos de ferro e vai decidir uma eventual disputa entre Rubio e Vance. De acordo com pesquisas preliminares, o vice-presidente é o favorito e Trump tem indicado nos bastidores que Vance de fato deve ter seu apoio, mas o movimento trumpista é volátil e tudo pode mudar muito rapidamente. Saiba mais Como a escolha de J.D. Vance como vice de Trump representa o futuro do Partido RepublicanoComo Marco Rubio governa a Venezuela à distânciaFeeling de Trump aprofunda os temores do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato“Vance está para Trump da mesma forma que Maduro está para Hugo Chávez”, diz Poggio. “Maduro foi seu sucessor, só que sem o mesmo carisma e a habilidade política”. Para Jacobs, Trump gosta de apoiar o vencedor e está esperando para ver se Vance terá viabilidade política como candidato. “Ele só gosta de se envolver quando o vencedor está praticamente definido, então não é possível descartar uma vitória de Marco Rubio”.Vale ler tambémEste acordo militar inédito mudará as peças do xadrez geopolítico do Oriente MédioO que terremotos como o da Colômbia têm em comum com riquezas naturais? A resposta está na geologiaCrise diplomática entre Milei e Lula afundará ainda mais o comércio na América Latina?
Vance ou Rubio? Quem é o favorito para herdar o império conservador de Trump no Partido Republicano?
Vice-presidente é considerado o herdeiro ideológico do movimento MAGA, enquanto ex-senador se destacou como secretário de Estado e caiu nas graças de Trump







