O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deverão caminhar juntos nas eleições deste ano, mas o cenário político no Amapá é desafiador e servirá de teste de força para o senador. A disputa pelo governo estadual tem como favorito o ex-prefeito de Macapá Dr. Furlan (PSD), que lidera as pesquisas de intenção de voto contra o atual governador, Clécio Luís (União Brasil), aliado de primeira hora de Alcolumbre. Num cenário eleitoral polarizado, os dois candidatos buscam se afastar do pleito nacional e focar a disputa em questões do estado. Alcolumbre está no meio de seu mandato, então não concorrerá neste ano. Ele busca, no entanto, a vitória de seu grupo político, mirando sua reeleição em 2030, num momento de tentativa de reaproximação com Lula. Nesta quarta-feira, Alcolumbre e Lula se reuniram pela segunda vez desde que romperam relações após derrota da indicação de Jorge Messias a uma vaga ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado. As duas autoridades deverão conversar novamente nos próximos dias. O ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, disse, após o encontro, que o presidente do Senado “tem já compromisso com a nossa chapa no Amapá” e “está absolutamente sintonizado com a reeleição” de Lula. A declaração ocorreu após jornalistas perguntarem se, a exemplo do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), Alcolumbre iria declarar apoio ao petista. — O Davi tem já compromisso com a nossa chapa no Amapá. Eu tenho acompanhado isso. Independente aqui da pauta no Senado, das matérias de interesse do governo, nós temos uma chapa à reeleição do governador, a candidatura do senador Randolfe, e o Davi está absolutamente sintonizado com a reeleição do Lula e com o nosso palanque lá no Amapá— afirmou. Apesar dessa declaração do ministro da articulação política de Lula, os candidatos ao governo do Amapá devem afastar a disputa nacional do dia a dia eleitoral no estado. De um lado, está o Dr. Furlan, que foi reeleito prefeito de Macapá, em 2024, no primeiro turno com 85%, o maior percentual entre as capitais do Brasil. Apesar de ser apoiado por três partidos com candidaturas próprias à Presidência da República —PL, com Flávio Bolsonaro; PSD com Ronaldo Caiado; e Novo com Romeu Zema — o ex-prefeito deverá se manter neutro na eleição presidencial, de acordo com um aliado. Sua vice é a deputada estadual Luciana Gurgel (PL). Completam a chapa o senador Lucas Barreto (PSD), que busca a reeleição, e a esposa do ex-prefeito, Rayssa Furlan (Podemos), que quer a outra vaga ao Senado. Em live na semana passada, Flávio Bolsonaro afirmou que apoiará os dois nomes no estado para o Senado. Coordenador da campanha do filho do ex-presidente, o senador Rogério Marinho (PL-RN) disse que é uma “missão difícil”, mas que aposta nas chances de eleger os candidatos. — Essa composição reúne diferentes forças políticas em torno de um objetivo comum: construir um projeto de desenvolvimento para o Amapá, baseado no diálogo, na eficiência da gestão pública e na melhoria da qualidade de vida da população — diz Furlan. Questionado pela reportagem se apoiará Flávio e se dará palanque ao senador no estado, o ex-prefeito não respondeu. Clécio Luís, por sua vez, tem maior leque de alianças partidárias: além da federação União Brasil-PP, do Republicanos e do PSDB-Cidadania, é apoiado por siglas de esquerda PT, PDT, PC do B, PV, Rede e PSOL. Em sua chapa estão o senador Randolfe Rodrigues (PT), que busca a reeleição e é líder de Lula no Congresso, e Alliny Serrão (União Brasil), primeira mulher a presidir a Assembleia Legislativa do Amapá. Aliado de primeira hora de Alcolumbre, Clécio foi eleito governador em 2022 com 53,65% dos votos e apoio do PL ao PT. Professor, iniciou sua carreira no movimento estudantil, foi vereador e prefeito da capital antes de assumir o governo. Ao GLOBO, o governador destacou “excelentes parcerias” com o governo federal e o presidente Lula que ajudaram o estado, mas afastou o cenário nacional das eleições. — Temos que fortalecer cada uma delas (parcerias), independentemente de quem seja o presidente e de quais são nossas preferências. Não considero que o debate nacional está em pauta no Amapá. Nossa prioridade é continuar transformando nosso estado, elevando o nível das nossas entregas, e fazer uma discussão sobre o que é melhor para o futuro do nosso estado — diz o governador. Em 2022, o Amapá foi o único estado a registrar uma virada de Jair Bolsonaro (PL) contra Lula entre o primeiro e segundo turno. Na primeira etapa, o petista teve 45,67% dos votos, ante 43,41% de Bolsonaro. No segundo turno, Bolsonaro teve 51,36%, enquanto Lula recebeu 48,64% dos votos. O Amapá tem uma população estimada de cerca de 806 mil pessoas, segundo o IBGE —cerca de 60% da população do estado está na capital, Macapá. Nas eleições deste ano, os principais temas a serem explorados devem ser segurança pública, infraestrutura, saúde e educação. Os candidatos também têm abordado em seus discursos a exploração do Petróleo na Foz do Amazonas, falando do crescimento econômico que isso poderá trazer ao estado no futuro. Em outubro de 2025, o Ibama concedeu à Petrobras a licença para perfuração na Foz do Amazonas, na Margem Equatorial, após um processo que durou anos. A segurança pública também estará no centro do debate. O estado lidera o ranking dos mais violentos do Brasil, com uma taxa de 42,5 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes em 2025, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Adversários políticos Formado em medicina, Dr. Furlan foi deputado estadual antes de derrotar Josiel Alcolumbre, irmão do presidente do Senado, na eleição à prefeitura da capital em 2020. Com forte presença nas redes sociais, usa a alcunha “prefeitão” para falar dos feitos de sua gestão. Ele aposta no discurso da renovação política e tem como mote representar o “time da transformação”. Furlan renunciou ao cargo em março deste ano para evitar ser cassado. Ele foi afastado por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) dentro da investigação de operação que apura supostas fraudes em licitações da saúde. Em maio, foi alvo de buscas da Polícia Federal na operação Palanque Digital. Ele é suspeito de usar uma milícia digital para atacar opositores e se autopromover. Naquele momento, negou envolvimento e disse que estava à disposição da Justiça para colaborar. Em julho, o Tribunal Regional Eleitoral do estado (TRE-AP) rejeitou outro pedido de cassação de diploma e de declaração de inelegibilidade do ex-prefeito. Aliados de Furlan acusam o grupo de Alcolumbre de usar sua influência política para atacar o adversário. Clécio está atrás nas pesquisas de intenção de voto, mas seu grupo político aposta no início formal da campanha eleitoral, nos índices de aprovação da gestão, no poder da máquina pública e no leque de alianças partidárias para reverter esse cenário. Ele usa como mote “por todo o Amapá” e fala em dar continuidade aos trabalhos realizados em seu mandato. Levantamento do G1 mostrou que o governador cumpriu integralmente 19 das 34 promessas assumidas na campanha de 2022 (12 foram cumpridos em parte e 3 não foram cumpridos).