No Sul da França, um roteiro conecta cenários que mudaram a vida de Vincent van Gogh, sítios onde cachorros farejam trufas preciosas, cidades medievais protegidas por muralhas e fortalezas, heranças do Império Romano e vinhedos quase infinitos. Uma viagem que até poderia ser feita de carro, trem ou mesmo bicicleta, para os mais resistentes. Mas que ganha um charme adicional quando acontece deslizando sobre as águas de um rio que nasce na Suíça e desce até o Mediterrâneo. Entre Arles, na Provença, e Lyon, na porta de entrada para os Alpes, o Ródano é uma estrada hídrica que transporta os viajantes para uma França bucólica e histórica. O segundo maior rio do país (onde é chamado de Rhône) parece ter sido projetado pela natureza — e adaptado pelo homem, ao longo de séculos — para ser explorado a bordo de navios de passageiros como o AmaKristina, um dos 29 da companhia de cruzeiros fluviais AmaWaterways. O ritmo lento da navegação contrasta com a dinâmica das paradas, cada dia num porto diferente, onde se pode ver de perto a diversidade oferecida pela região. Batizado de “Colors of Provence”, o roteiro pelo Ródano é um dos sucessos da companhia, que navega por rios europeus, asiáticos, africanos e sul-americanos. Ele agora faz parte do programa “AmaBrasil”, que consiste em cruzeiros exclusivos para passageiros brasileiros, com atendimento a bordo e passeios guiados em português, além de um diretor de cruzeiro brasileiro. A saída acontecerá entre os dias 22 e 29 de julho de 2027. Batizado de “Colors of Provence”, o roteiro pelo Ródano é um dos sucessos da companhia, que navega por rios europeus, asiáticos, africanos e sul-americanos. Ele agora faz parte do programa “Ama Brasil”, que consiste em cruzeiros exclusivos para passageiros brasileiros, com atendimento a bordo e passeios guiados em português, além de um diretor de cruzeiro brasileiro. A saída acontecerá entre os dias 22 e 29 de julho de 2027. O “Colors of Provence” foi o sexto roteiro anunciado no programa. Haverá ainda três saídas especiais do cruzeiro “Enchanting Rhine”, pelo Rio Reno, entre Basileia, na Suíça, e Amsterdã, nos Países Baixos, passando também por França e Alemanha, em novembro de 2026 e julho de 2027. E duas do “Melodies of the Danube”, em novembro de 2026 e agosto de 2027, ligando as cidades de Budapeste, na Hungria, e Vishofen, na Alemanha, e cruzando ainda Áustria e Eslováquia, sempre pelo Rio Danúbio. No futuro, segundo Miranda, o projeto será expandido para os rios Mekong, entre Camboja e Vietnã, e Nilo, no Egito. Arles: seguindo os passos de Van Gogh As Arenas de Arles, uma espécie de "mini-Coliseu" construído pelos romanos na cidade, uma das portas de entrada para a Provença, no sul da França — Foto: Eduardo Maia/O Globo A luminosidade própria da Provença tem um papel especial na história da arte moderna. Matisse se encantou com Nice, Picasso encontrou inspiração em Antibes e Cagnes-sur-Mer foi a última “musa” de Renoir, por exemplo. Para Vicent van Gogh, a escolhida foi Arles, hoje uma agradável cidade de pouco mais de 50 mil habitantes, cheia de História, e que serve como ponto inicial do roteiro fluvial pelo Ródano. O pouco tempo em que viveu em Arles, entre fevereiro de 1888 e maio de 1889, foi suficiente para marcar a vida e a obra do então jovem artista holandês. Foi ali, sob a luz da Provença, que ele pintou quadros icônicos, como “Noite estrelada sobre o Ródano”, “O quarto” e “Os girassóis”. Foi também nesse período que, após uma discussão acalorada com o amigo e também pintor Paul Gauguin, cortou parte de sua orelha esquerda. O pátio florido do Hôtel-Dieu, o antigo hospital de Arles onde Van Gogh foi atendido depois de cortar sua orelha: paisagem foi retratada pelo artista na pintura 'O jardim do hospital' — Foto: Eduardo Maia/O Globo Não faltam na cidade guias que oferecem tours seguindo os passos de Van Gogh, o que também pode ser feito por conta própria. Esse roteiro passa por locais como o Jardin d’Eté, passeio público que aparece no quadro “O jardim do poeta”, a Place du Forum, local do antigo café retratado em “Terraço do Café Noir”, e a Place Lamartine, onde ficava a famosa Casa Amarela, endereço de Van Gogh na cidade. Também dá para visitar o antigo Hôtel-Dieu, o hospital onde o pintor foi atendido após o corte na orelha. O pátio florido que ficava de frente para seu quarto foi imortalizado em “O jardim do hospital”. Nos arredores de Arles, Les Baux é uma ótima escapada, por conta própria ou em excursão. Trata-se de uma cidade medieval no alto de uma montanha, onde suas ruas estreitas e labirínticas foram tomadas por uma infinidade de lojas e restaurantes. Ali fica o Carrières de Lumières, uma antiga pedreira transformada em espaço para projeções de luz e som, que podem ser de obras de artistas consagrados ou temas ligados a história e a natureza. Avignon: a cidade francesa dos papas Interior do Palácio dos Papas, grande atração de Agignon: por quase cem anos essa cidade no sul da França foi o endereço oficial do alto comando da Igreja Católica — Foto: Eduardo Maia/O Globo As águas do Ródano também levam os viajantes para um tempo em que os papas não viviam em Roma, e sim em Avignon. Protegido por muralhas medievais, de frente para as margens do rio, o centro antigo conta a história de quando a cidade foi uma das mais importantes do mundo, ao ser a sede oficial da Igreja Católica entre 1303 e 1377, e ainda abrigar mais dois papas dissidentes até 1429. Toda essa história, permeada por intrincadas crises políticas e sociais, típicas da Europa medieval, está contada no impressionante Palácio dos Papas, uma construção de mais de 15 mil metros quadrados com enormes salões, torres que parecem de fortalezas e exemplares impressionantes de arte sacra. Vale reservar algumas horas para explorar tudo com calma e paciência, já que o lugar costuma estar sempre movimentado. A Pont d'Avignon, um dos monumentos mais conhecidos de toda a extensão do Rio Ródano, na Provença, sul da França — Foto: Eduardo Maia/O Globo Fora do palácio papal também há muito para ser visto. Bem ao lado está o Rocher de Doms, uma elevação natural que hoje abriga um belo jardim e mirantes com vista panorâmica do Ródano. Logo abaixo, já fora das muralhas, a Ponte Saint-Bénézet, ou Pont d’Avignon, construída apenas pela metade sobre o rio, é outro símbolo da cidade — e não se espante se vir pessoas dançando sobre ela, numa referência a uma das canções infantis mais tradicionais da França. E, atravessando o rio, na ilha de Berthelasse, pode-se avistar as construções do centro histórico, num dos cartões-postais mais famosos da Provença. Avignon também é base para explorar a Pont du Gard, uma maravilha da engenharia do Império Romano a 25km de distância. Na verdade, trata-se de um antigo aqueduto, construído para abastecer a cidade romana de Nemasus (atual Nîmes), uma das principais da província da Gália em meados do século I. A estrutura de pedra com três níveis de arcada sobre o Rio Gardon tem 48 metros de altura e 275 metros de comprimento. Viviers: farejando trufas A cidade histórica de Viviers, um verdadeiro museu a céu aberto às margens do Rio Ródano, no sul da França — Foto: Eduardo Maia/O Globo Viviers é mais uma cidade medieval que surge às margens do Ródano. Seu rico complexo arquitetônico não parece se encaixar com a população atual, de menos de quatro mil pessoas. Mas é explicado por um passado bem mais glorioso, em que a cidade foi uma importante sede episcopal na região — um período que começou no século V e se estendeu por quase 1.500 anos. Suas ruas funcionam como um museu a céu aberto: a partir da “cidade baixa”, habitada pelas classes trabalhadoras, ladeiras levam para a “cidade alta”, onde ficam as construções ligadas ao clero e aos nobres, como a Catedral Saint-Vincent e seus prédios adjacentes, e a Maison des Chevaliers, símbolo das elites comerciais. Um cão farejador de trufas e sua tratadora na Domaine de Cordis, na cidade de Grignan, nos arredores de Viviers, no sul da França — Foto: Eduardo Maia/O Globo Um outro programa bem popular na região é conhecer as propriedades produtoras de trufas negras. As melhores domaines ficam no departamento de Drôme, do outro lado do rio, a menos de uma hora de viagem. Muitas delas são abertas à visitação, mesmo fora da época das trufas, entre dezembro e fevereiro. As visitas permitem aprender como são tratadas as raízes dos carvalhos, ainda como mudas, para que se tornem ambientes propícios para o fungo, e sempre terminam com algum tipo de degustação. Mas nada empolga tanto os visitantes quanto conhecer de perto os cachorros treinados para farejar e encontrar as trufas escondidas (ainda que, fora da temporada, esta seja uma exibição um tanto “pega-turista”). Tournon e Tain: vinhos e chocolate Parreira carregada com uvas no castelo de Tournon-sur-Rhône, às margens do Rio Ródano, no sul da França — Foto: Eduardo Maia/O Globo Já fora das águas provençais, o AmaKristina continua sua viagem Ródano acima. E, no início da noite, finalmente chega à quarta escala do roteiro, que apresenta dois destinos em um. De um lado, onde atraca, está Tournon-sur-Rhône, com seu castelo e torres medievais. Do outro, Tain-l’Hermitage, com suas encostas cobertas por vinhedos. Duas cidades unidas pela primeira ponta suspensa do Ródano, a Passerelle Marc Seguin, só para pedestres, que se cruza em menos de dez minutos. Por mais que essa obra possa empolgar entusiastas da engenharia, a maioria dos visitantes está interessada em duas coisas: vinho e chocolate. No mapa do vinho francês, a região se destaca com três áreas de denominação de origem controlada. Do lado de Tournon, está a da colina Saint-Joseph, e em Tain-l’Hermitage, a da colina Hermitage e da cidade vizinha, Crozes-Hermitage. Nas três, as estrelas são as uvas Syrah, usadas para os vinhos tintos, e Marsanne e Roussane, para os brancos. As vinícolas mais importantes estão na zona da Hermitage, como Maison M. Chapoutier e Cave de Tain, abertas à visitação. Vista panorâmica mostra o centro medieval de Tournon-sur-Rhône (primeiro plano) e os vinhedos da colina de Tain-l'Hermitage (ao fundo), com o Rio Ródano no meio — Foto: Eduardo Maia/O Globo A cidade também abriga uma das marcas de chocolate mais conhecidas do país, a Valrhona. Sua Cité du Chocolat é uma verdadeira atração turística, com museu, fábrica e uma loja onde é possível comprar o doce em todos os formatos, feitos com cacau das mais diversas partes do mundo, inclusive Bahia e Amazônia. Já em Tournon, a graça é perambular pelo labirinto de ruas medievais no entorno do chateau da cidade, uma construção medieval que atualmente abriga um interessante museu e uma das melhores vistas para o rio que podemos ter em todo esse roteiro. Vale a pena percorrer também o caminho que passa pelas torres construídas na colina, junto aos vinhedos, que também oferecem um ótimo visual. Vienne: Roma Antiga na França de hoje O belo Jardin de Cybèle fica no local do antigo Fórum romano, no centro da cidade de Viviers, no sul da França — Foto: Eduardo Maia/O Globo Não confunda esta cidade com a capital da Áustria, que fica às margens do Danúbio. Na Vienne do Ródano, os tempos áureos não foram os de Mozart e Beethoven, e sim séculos antes. A cidade, hoje de porte médio, com cerca de 30 mil habitantes, já foi um dos principais portos do Império Romano. Essa importância logística e econômica se reflete na herança que ficou daqueles tempos, como ruínas de construções de grande porte, ainda bem visíveis na cidade. É o caso do Théâtre Antique, um anfiteatro romano que podia abrigar até 13 mil pessoas em meados do século I e que hoje é usado eventualmente em shows e festivais de música, com capacidade para até oito mil espectadores. Ele fica numa das encostas da colina de Pipet, um dos pontos mais altos da cidade, onde uma antiga fortificação medieval se converteu numa pequena igreja e num mirante com vistas espetaculares. O Templo de Augusto e Lívia, construído em homenagem ao imperador romano e sua mulher, continua de pé no centro de Viviers, no sul da França, mais de dois mil anos depois — Foto: Eduardo Maia/O Globo A coleção de sítios arqueológicos galo-romanos da cidade conta ainda com o Jardin de Cybèle, na área onde funcionou o antigo Fórum, ainda com algumas paredes, arcos e fundações preservados, e o Templo de Augusto e Lívia, construído entre 20 e 10a.C. em homenagem ao então imperador romano e sua esposa. A estrutura, com suas colunas e teto triangular, foi transformada numa igreja católica no século V, e por isso permanece de pé ainda hoje, cercada por mesas de cafés e restaurantes. Avançando alguns séculos na História, a antiga Catedral (hoje Basílica) de Saint-Maurice foi palco de um importante acontecimento da Idade Média. Nela, o papa Clemente V (o que mudou o papado para Avignon) presidiu o Concílio de Vienne, entre 1311 e 1312, em que foi decidida a extinção da Ordem dos Cavaleiros Templários. Lyon: sabores da cidade grande O prédio futurista do Musée des Confluences, no ponto de encontro dos rios Ródano e Saône, em Lyon, na França — Foto: Eduardo Maia/O Globo O AmaKristina leva três horas para alcançar Lyon a partir de Vienne, um percurso de 30km que, de carro ou trem, levaria pouco mais de meia hora. Mas quem tem pressa a bordo de um cruzeiro fluvial? A minutos da chegada, é possível ver a paisagem se transformando nas margens, com rodovias, galpões e prédios contemporâneos. Lyon se apresenta mesmo com o Musée des Confluences, um prédio futurista erguido bem em frente ao encontro das águas dos rios Ródano e Saône. O atracadouro escolhido, na região central, permite explorar as principais atrações com certa facilidade. Apesar de ser a terceira maior cidade da França, atrás de Paris e Marselha, Lyon é bastante compacta em sua área mais turística. Queijos vendidos no mercado gastronômico Les Halles de Lyon Paul Bocuse — Foto: Eduardo Maia/O Globo Vale a pena pular uma das refeições a bordo para experimentar a culinária da cidade, um dos orgulhos locais, seja em restaurantes estrelados ou nos tradicionais bouchons, onde se serve comida típica a preços relativamente em conta. Para um mergulho mais profundo no assunto, no entanto, o lugar ideal é o Les Halles de Lyon Paul Bocuse, considerado um dos melhores mercados gastronômicos da França. Lá se pode encontrar o melhor em termos de pães, queijos, vinhos, embutidos, vegetais e o que mais passar pela cabeça. Vale a pena chegar pela manhã ou para o almoço, porque os restaurantes e as lojas costumam fechar ao longo da tarde. Também é imperdível caminhar sem pressa pelo bairro histórico de Vieux Lyon, que preserva um dos maiores conjuntos de construções renascentistas do mundo. Ou subir até o bairro de Fourvière, no topo de uma colina, para ver de perto mais ruínas romanas e contemplar, do alto, o Ródano, seu mais novo velho conhecido. Um hotel butique que navega sem tédio O navio AmaKristina, da companhia de cruzeiros fluviais AmaWaterways, atracado no Rio Ródano, em Avignon, no sul da França — Foto: Eduardo Maia/O Globo Se os grandes navios de cruzeiros marítimos costumam ser comparados a “resorts flutuantes”, no caso dos cruzeiros fluviais a melhor equivalência seria com um hotel butique: pequenos, confortáveis e com serviço de alto nível. O AmaKristina tem capacidade para 158 passageiros, em 76 cabines, todas com vista externa, e 51 tripulantes, uma proporção que permite um atendimento bastante personalizado durante toda a viagem. Suas medidas (135 metros de comprimento, 11,5 de largura e quatro deques) são ajustadas para o tamanho das eclusas, as comportas que ajustam o nível da água ao longo do rio — são 12 no total entre Arles e Lyon. Passageiras do AmaKristina, navio de cruzeiros da AmaWaterways, observam, a partir do deque da piscina, a passagem do navio por uma eclusa no Rio Ródano, no sul da França — Foto: Eduardo Maia/O Globo O deque superior é aberto e conta com uma piscina pequena, uma pista para caminhada e cadeiras, sofás, mesas e espreguiçadeiras. Outro ponto de convivência é o lounge, onde há sempre um lanchinho e, às noites, uma apresentação musical. No primeiro deque, há uma pequena academia de ginástica e salas para tratamentos de beleza e massagens. O principal local para refeições é o Journeys Restaurant, aberto para café da manhã, almoço e jantar, com cardápios baseados na gastronomia local, com direito a vinhos de cada região. E há também o Chef’s Table, com poucos lugares e menu degustação no jantar. Uma das etapas do menu degustação do restaurante Chef's Table, no navio de cruzeiros fluviais AmaKristina, da AmaWaterways — Foto: Eduardo Maia/O Globo Comida e bebida alcoólica (nos horários das refeições) estão incluídos no pacote, que custa, em média, US$ 7 mil (R$ 36 mil) por pessoa para um cruzeiro de sete noites. O valor dá direito também aos passeios em todas as paradas. A cada desembarque, há sempre ao menos três opções de tour guiado: um para dar uma visão geral do destino, um com foco específico e um de bicicleta (fora dos passeios também é possível pegar as bikes para pedalar por conta própria). O cardápio de excursões inclui degustações em vinícolas, tours gastronômicos e caminhadas em meio à natureza. Eduardo Maia viajou a convite da AmaWaterways
Cruzeiro fluvial pelo sul da França revela todas as cores da Provença
Como é navegar pelo Rio Ródano, num roteiro que combina arte, História, trufas, vinhos e paisagens para quem não tem pressa de chegar







