Durante o fenômeno, equipes monitoram desde o campo magnético do Sol até alterações na atmosfera terrestre e nas reações de diferentes espécies 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A coroa solar brilha enquanto a Lua bloqueia completamente o Sol durante a fase de totalidade do eclipse solar total, visto de Berlanga de Duero, a 240 km a nordeste de Madrid, em 12 de agosto de 2026 — Foto: OSCAR DEL POZO À medida que o eclipse escureceu o céu sobre a partes da Europa nesta quarta-feira, milhões de pessoas olharam para cima para ver seu característico anel de fogo. Mas, aqui embaixo, os cientistas observaram o evento com especial atenção, na esperança de aprender mais sobre o Sol e sua relação singular com o nosso planeta. Antes mesmo do eclipse começar, os cientistas já faziam previsões sobre o formato que a atmosfera externa do Sol, a coroa, assumiria. O imprevisível campo magnético do Sol, que determina esse formato, é também a força que impulsiona o vento solar, as erupções solares e as ejeções de massa coronal, que enviam material do Sol para o sistema solar. A comparação entre previsões sobre a coroa solar e observações diretas durante um eclipse pode ajudar os cientistas a verificar sua compreensão do campo magnético do Sol e aprimorar suas previsões sobre o clima espacial que ele pode causar. Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Eclipse visto de San Millán de los Caballeros, na Espanha, nesta quarta — Foto: Bill INGALLS / NASA / AFP Durante o eclipse, cientistas da Nasa, a agência espacial americana, usaram jatos equipados com câmeras especiais para capturar imagens da coroa solar. Eles também enviaram balões meteorológicos para a faixa de totalidade — a área em que a Lua bloqueia completamente o Sol — para entender como a escuridão repentina do eclipse afeta nossa atmosfera. "O Sol impacta nosso dia a dia, satélites e astronautas no espaço, e podemos aproveitar este momento para aprofundar nossa compreensão dessa influência", disse Kelly Korreck, gerente do programa de eclipses da sede da Nasa em Washington, em um comunicado. Equipes na Islândia lançaram 80 balões meteorológicos da agência antes, durante e depois do eclipse para criar uma linha do tempo de seus efeitos no tamanho da "camada limite" da Terra, a parte mais baixa da atmosfera. Três equipes na Espanha também lançaram balões equipados com câmeras e sensores de 360 graus para observar como a escuridão afeta a produção de ozônio. A lua passa em frente ao sol enquanto este se põe durante um eclipse solar parcial em São Petersburgo, em 12 de agosto de 2026 — Foto: OLGA MALTSEVA Como estrela, o Sol emite constantemente matéria e partículas carregadas e, por vezes, desencadeia verdadeiras tempestades solares acompanhadas por gigantescas ejeções de plasma. Quando essas partículas colidem com o campo magnético da Terra, podem afetar satélites, colocar astronautas em perigo ou causar auroras espetaculares nas regiões polares. — Nosso trabalho busca compreender os mecanismos físicos que sustentam a atividade do Sol — explicou à agência AFP Allan Sacha Brun, astrofísico e diretor de pesquisa da Comissão Francesa de Energia Atômica e Energias Alternativas (CEA). Equipes da Agência Espacial Europeia (ESA) também usaram a oportunidade para monitorar de perto o fenômeno, com ênfase no comportamento do vento solar. — Por que as tempestades solares se propagam dessa maneira? Qual é a sua estrutura? Podemos desenvolver modelos que nos permitam prevê-las? — questiona a diretora científica, Carole Mundell. A sonda Solar Orbiter, lançada em 2020, vem coletando informações sobre a atmosfera e o vento solar há anos. Os eclipses nos permitem testar esse conhecimento e verificar "até que ponto nossos modelos são bons ou ruins", resumiu Miho Janvier, codiretora científica da missão. Pessoas usam óculos de observação solar para contemplar o eclipse solar parcial em Itxassou, no sudoeste da França, em 12 de agosto de 2026 — Foto: GAIZKA IROZ Com o eclipse, as pessoas também têm a oportunidade de se envolver nos estudos sobre o evento, enviando vídeos aos pesquisadores sobre sua experiência observando fenômenos como a poluição luminosa diurna — excesso de luz artificial ao ar livre — e as faixas de sombra do eclipse, os padrões ondulantes de sombra que se movem pelo chão pouco antes e depois da totalidade. Impacto no comportamento dos animais Cientistas na Espanha também estão aproveitando esse e os próximos eclipses para estudar o comportamento animal. Quando o céu escurece, muitas espécies agem de forma diferente, buscando lugares seguros para se abrigar, começando a cochilar ou até mesmo ficando agitadas. Nos próximos 18 meses, enquanto mais dois eclipses serão observados pela Espanha, mais de 200 cientistas cidadãos registrarão essas mudanças comportamentais como parte do Projeto TriEclipse, do cineasta Ángel García-Rojo. — Para mim, talvez a parte mais emocionante seja, na verdade, a participação das pessoas e a sensação de que todos nós podemos contribuir juntos para algo belo — disse García-Rojo. — Mais de 200 pessoas estão essencialmente saindo juntas, observando atentamente e fazendo a mesma pergunta simples: O que os animais farão quando a luz do dia desaparecer repentinamente? Eclipse visto de Madri nesta quarta — Foto: DEL POZO / AFP Muitas espécies provavelmente interpretam o céu escurecendo como sinal de que a noite chegou, disse Jim Mackie, responsável pelo manejo do comportamento animal no Zoológico de Londres. Os pássaros voam em busca de um lugar para pousar e, no zoológico, os gorilas começam a fazer seus ninhos. Os grandes felinos, que dormem cerca de 20 horas por dia, podem iniciar sua atividade noturna mais cedo do que o esperado. Um estudo realizado em 2017 com 17 espécies no Zoológico e Jardim Botânico Riverbanks em Columbia, Carolina do Sul, durante um eclipse total, descobriu que a maioria dos animais se preparou para dormir, mas que girafas, babuínos, gorilas, flamingos, lorikeets e um dragão-de-komodo se comportaram de maneiras que poderiam ser interpretadas como ansiosas. Teoria da relatividade geral A história do uso científico desses fenômenos é longa, e uma de suas contribuições mais notáveis ocorreu em 1919, quando observações durante um eclipse solar ajudaram a confirmar a teoria da relatividade geral de Albert Einstein. A Lua passa sobre o horizonte do Sol atrás da Pirâmide do Louvre, projetada pelo arquiteto sino-americano Ieoh Ming Pei, durante um eclipse solar parcial em Paris, em 12 de agosto de 2026 — Foto: SIMON WOHLFAHRT O fenômeno foi observado pelo astrônomo britânico Arthur Eddington durante o eclipse na Ilha do Príncipe, na África Ocidental. Na ocasião, Eddington conseguiu registrar a posição de estrelas que apareciam próximas ao Sol e observar que sua luz sofria um desvio — efeito conhecido como lente gravitacional. As observações corroboraram os cálculos de Einstein: a massa de grandes objetos celestes distorce o espaço-tempo e, como consequência, curva a trajetória da luz. O episódio ficou conhecido como o "eclipse de Einstein". Com New York Times e AFP.
Do Sol à atmosfera terrestre e até ao comportamento dos animais: O que um eclipse pode ensinar à ciência?
Durante o fenômeno, equipes monitoram desde o campo magnético do Sol até alterações na atmosfera terrestre e nas reações de diferentes espécies














