Condenação de ex-ditador à pena de morte tem peso simbólico, afirma Guga Chacra em newsletter especial 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Retrato do ditador deposto da Síria, Bashar al-Assad, jogado em rua de Latakia — Foto: Ozan Kose/AFP Desde a eclosão da guerra no Irã, Guga Chacra escreve newsletter diária com informações e análises exclusivas. Clique aqui para se inscrever. A Justiça da Síria condenou Bashar al-Assad, seu irmão e um primo à pena de morte por crimes contra a Humanidade durante a guerra civil no país (2011-2024). A decisão tem peso mais simbólico, já que o ex-ditador está asilado na Rússia, assim como seu irmão. O único que deve ser punido com a execução é o primo Atef Nagib, que comandava as forças do regime em Daara, no sul do território sírio. Ainda assim, a decisão do Judiciário em Damasco é histórica. Acusações – Os crimes atribuídos a Assad envolvem a morte de centenas de milhares de sírios no que foi um dos mais sangrentos conflitos no Oriente Médio no século 21, ao lado da Guerra do Iraque — iniciada pelos EUA com a invasão ao país então comandado por Saddam Hussein. Além das mortes, torturas e prisões arbitrárias, o regime de Assad é acusado de ter usado armamentos químicos contra a sua própria população durante a guerra. Asilo em Moscou – Assad deixou a Síria horas antes de seu regime entrar em colapso no final de 2024, em meio ao avanço do grupo jihadista Hayet Tahrir al-Sham, liderado por Ahmed al-Sharaa, que passou a comandar o país. Fugiu para a Rússia, de quem era aliado. Levou junto apenas os familiares e alguns de seus assessores mais próximos. Vive em Moscou com a família. Embora recluso na maior parte do tempo e monitorado pelas forças de segurança russas, chegou a ser visto em alguns dos restaurantes mais sofisticados da capital. Seu irmão, Maher al-Assad, também estaria em Moscou e não está cla qual seria a relação entre ambos agora. Apoio russo – Ao longo da guerra, a Rússia defendeu o regime de Assad por uma série de motivos. O principal seria a aliança histórica entre os dois países. Além de uma base aérea, os russos mantinham na Síria sua única base no Mar Mediterrâneo. Também contava o fato de o regime de Assad, desde os tempos de seu pai, Hafez, ser um cliente fiel de armamentos russos. Por último, havia a aliança entre ambos para combater o radicalismo islâmico de grupos como a al-Qaeda e um sentimento de defesa de minorias como os alauítas e os cristãos. Defesa de Putin – Nos últimos meses, Vladimir Putin se aproximou do regime de al-Sharaa e concordou em ceder o controle de suas bases militares na Síria. A partir de agora, os dois países realizarão treinamentos conjuntos. Apesar da coincidência de datas, não há relação entre a condenação de Assad e o acordo entre os dois países. Putin não entregaria um aliado deposto porque, se o fizesse, colocaria em risco suas relações com ditadores em outras partes do mundo que confiam na relação bilateral, como é o caso da Coreia do Norte. Críticas – A sentença foi anunciada em meio a uma certa insatisfação de parentes de vítimas do regime de Assad com o atual regime de al-Sharaa. Muitos membros do antigo regime seguem livres na Síria, sem punição. A elite econômica dos tempos de Assad continua poderosa e conseguiu se acomodar com o novo regime sem maiores problemas. A condenação de Assad e de seus parentes talvez amenize essas críticas. O ditador oftalmologista – Assad sempre despertou curiosidade de analistas internacionais por seu histórico antes de chegar ao poder diferente de outros ditadores. Estudou medicina na Universidade de Damasco e fez residência em oftalmologia em Londres. Na capital britânica, conheceu sua mulher, Asma, uma executiva de banco, filha de sírios radicados no Reino Unido e formada no King’s College. Governo – Quando seu irmão Bassel, visto como sucessor de Hafez, morreu em um acidente de carro em 1994, Bashar teve de abandonar a residência médica e voltar para a Síria. Recebeu treinamento militar e foi preparado para suceder o pai. Assumiu o poder em 2000, depois da morte de Hafez. Após uma moderada abertura econômica, chegou a ensaiar uma breve abertura política, mas acabou endurecendo. Por um período, entre 2007 e 2010, chegou a desfrutar de boas relações com lideranças ocidentais. A eclosão da Primavera Árabe, no entanto, alterou completamente o cenário. Guerra – Assad reprimiu a oposição com enorme violência e se transformou em um dos mais sanguinários líderes da história moderna. Centenas de milhares de pessoas morreram por causa de suas ações. A Síria se tornou caótica, com partes do território sendo dominadas pelo grupo Estado Islâmico, outras pelos curdos e algumas por grupos ligados à al-Qaeda — incluindo a organização de al-Sharaa. Por volta de 2024, no entanto, Assad posava como vitorioso, controlando a maior parte do país. Queda – A Província de Idlib, porém, seguia nas mãos do Hayet Tahrir al-Sham, uma organização jihadista que era considerada terrorista pelos EUA. No fim de 2024, em um movimento surpreendente, conseguiu avançar sobre as principais cidades sírias e, em alguns dias, dominou Damasco. Naquele momento, ao ver que seu regime cairia, Assad fugiu. Nesta terça, em Moscou, recebeu a notícia da condenação à morte por seus crimes contra a Humanidade.