A Alloha é uma das dez maiores provedores de internet fixa do País, com 1,3 milhão de clientes Foto: Prapat/Adobe StockA Alloha Fibra, provedora de banda larga controlada pela Eb Capital, foi ao mercado externo para refinanciar as suas operações em um movimento que mostra o aperto vivido pelas empresas do segmento. A Alloha levantou US$ 350 milhões na semana passada, algo como R$ 1,8 bilhão, com uma emissão de títulos de dívida (bonds), assumindo uma agenda rígida de redução das suas dívidas. Os parâmetros foram equivalentes aos de uma reestruturação financeira, segundo fontes que acompanharam o processo.PUBLICIDADE“Eu discordo. De certa forma, pode ser vista como uma reestruturação, pois estamos mudando nosso perfil de compromissos financeiros, mas não é nada dramático, como uma reestruturação extrajudicial”, afirmou o sócio da Eb Capital e presidente do conselho de administração da Alloha, Eduardo Melzer. “A decisão pela captação foi 100% voluntária e individual da companhia. Buscamos um refinanciamento e tivemos uma validação de mercado gigantesca”, ressaltou, lembrando que a companhia é a primeira do setor a acessar o mercado internacional de dívida. A oferta teve demanda de quase US$ 500 milhões e atraiu investidores de primeira linha, apontou Melzer.Antes da operação, a Alloha carregava uma dívida líquida de R$ 2,9 bilhões e enfrentava desafios de liquidez, com R$ 388 milhões em caixa no fim do primeiro trimestre para fazer frente a dívidas de R$ 479 milhões de curto prazo. Com essa emissão de títulos internacionais, o grupo vai alongar seus prazos de pagamento e baixar o custo da dívida para cerca de CDI + 4%.Investidores estão ariscosA operação foi coordenada pelo Goldman Sachs e encontrou investidores ariscos com o mercado de dívida corporativa do Brasil em função de problemas gerados por empresas como Ambipar, Braskem, Raízen e Oi. Segundo fontes, isso aumentou o prêmio de risco lá fora.Para afastar desconfianças, a Alloha “carimbou” a destinação do dinheiro captado. A empresa deverá direcionar R$ 900 milhões imediatamente para liquidar a sua dívida com bancos locais e parte das emissões locais, liberando R$ 1,4 bilhão em garantias. O restante será utilizado para pré-pagar títulos no mercado de dívida local até 2027.PublicidadeAlém disso, o dinheiro levantado lá fora ficará em uma conta reserva, sobre a qual a companhia assumiu o compromisso de prestar informações mensais sob o risco de ser declarado um evento de “calote” automaticamente. Esses parâmetros rígidos são equivalentes aos de uma reestruturação financeira, segundo fontes que acompanharam o processo.Companhia atingiu pico de alavancagem em dezembro A Alloha viveu um momento de maior estresse em dezembro, quando teve que pedir a dispensa (waiver) de credores para o cumprimento de limites de alavancagem, o que ensejaria o pagamento antecipado de suas debêntures. Como contrapartida, pagou R$ 18 milhões pela taxa de dispensa (waiver fee) no começo deste ano.A alavancagem (medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda anualizado) no fim do primeiro trimestre estava em 3,49 vezes, um nível ainda alto, mas abaixo do pico de 3,85 vezes de dezembro. Na renegociação, a empresa assumiu o compromisso de manter a alavancagem abaixo de 3,65 vezes no fim de 2026 e abaixo de 3,0 vezes em 2027.“A captação de bonds resolve totalmente qualquer desafio de liquidez da Alloha”, ressaltou Melzer, que descartou a necessidade de novas contratações de crédito no curto prazo. Daqui para frente, o foco será 100% na gestão da companhia e melhora da rentabilidade.A emissão de títulos pela Alloha teve a classificação de risco B+, com perspectiva estável, segundo nota da Fitch Ratings. Na visão da agência, o processo de reestruturação em andamento sustentará a geração positiva de fluxo de caixa livre e uma estrutura de capital mais forte nos próximos anos.PublicidadeCompetição está mais acirradaA Alloha é uma das dez maiores provedores de internet fixa do País, com 1,3 milhão de clientes. Isso equivale a 2,3% de participação do mercado, o que não é pouco em um setor com milhares de empresas. Mesmo grande, perdeu cerca de 300 mil clientes nos últimos 12 meses (18% da base), demonstrando o peso da competição acirrada no segmento. A companhia passou a ser mais seletiva nas ações comerciais, abrindo mão de clientes com maior risco de inadimplência. Em paralelo, enxugou a estrutura para se adequar à nova escala das operações, cortando custos.CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEComo resultado, a receita líquida caiu 3% no primeiro trimestre (totalizando R$ 420 milhões), mas o lucro operacional aumentou 9% (para R$ 220 milhões), batendo recorde. A margem do lucro operacional subiu 3,4 pontos, para 52,5%. Por fim, o resultado líquido saiu do vermelho, com lucro de R$ 3,6 milhões (contra um prejuízo de igual monta um no antes).O refinanciamento da Alloha serve de alerta para o segmento de provedores regionais de internet, onde há várias empresas com níveis de alavancagem relevantes para um mercado apertado: Vero (3,26 vezes), Alares (2,94 vezes), Brasil Tecpar (2,83 vezes), Desktop (2,4 vezes), Brisanet (2,24 vezes) e Algar (2,23 vezes).Nos últimos anos, essas empresas pegaram financiamento para investir na ampliação das redes e/ou na compra de concorrentes. O problema é que a competição em banda larga ficou bem mais acirrada, com alto giro de clientes e dificuldades para reajuste dos preços. Qualquer um consegue contratar um plano de internet fixa de boa velocidade por R$ 90 mensais - preço inalterado há tempos. Para piorar, os juros altos têm feito os provadores gastarem muito dinheiro com as parcelas das dívidas.Em um ano, a Vero perdeu 5,5% dos clientes, ficando com 1,3 milhão. A Desktop ganhou só 1%, indo para 1,2 milhão; A Algar também subiu 1%, para 837 mil; a Alares ganhou 2%, para 812 mil; e a Brisanet avançou 3,4%, para 1,6 milhão. Já a Brasil Tecpar deu sequência às aquisições, ampliando sua base em 27%, para 1,4 milhão.PublicidadeEsse aperto de mercado alimenta expectativas de fusões e aquisições como forma de saída. A Ligga, de Nelson Tanure, não suportou o cenário de mercado e acabou adquirida pela Brasil Tecpar neste ano. A Desktop foi comprada pela Claro permitindo a saída da sua investidora, a HIG Capital. A Algar anunciou nesta segunda-feira, 10, a venda da sua divisão de negócios de internet das coisas (IOT).Esta notícia foi publicada na Broadcast+ no dia 10/08/2026, às 15:32A Broadcast+ é uma plataforma líder no mercado financeiro com notícias e cotações em tempo real, além de análises e outras funcionalidades para auxiliar na tomada de decisão.Para saber mais sobre a Broadcast+ e solicitar uma demonstração, acesse.Vale ler tambémGênio da lâmpada: IA interpreta literalmente o que pedimos, sem levar em conta o que achamos óbvioGalápagos prevê retomada de fusões e aquisições após queda de 50% no primeiro semestreA economia do tabu: é melhor regular ou taxar empresas como a Fatal?