País está no encontro de três placas tectônicas e no Cinturão de Fogo do Pacífico; terremoto de magnitude 7,4 deixou ao menos 80 mortos nesta segunda-feira 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Prédio destruído em Manizales, na Colômbia, após terremoto de magnitude 7,4 — Foto: John BONILLA / AFP O terremoto de magnitude 7,4 que atingiu o oeste da Colômbia nesta segunda-feira expôs, mais uma vez, a vulnerabilidade sísmica do país. O tremor ocorreu às 7h34 no horário local, com epicentro próximo a San José del Palmar, no departamento de Chocó, e foi sentido em cidades como Cali e Bogotá. O terremoto provocou ao menos 80 mortes e deixou um rastro de destruição, com edifícios colapsados em diferentes áreas do país. A explicação para a alta frequência de terremotos está, principalmente, na posição geográfica da Colômbia: o país está em uma região onde três placas tectônicas se encontram — uma característica compartilhada com poucos lugares do mundo e que faz do território colombiano uma área de intensa atividade sísmica. Segundo especialistas ouvidos pelo jornal espanhol El País, a combinação entre a movimentação das placas, a presença de falhas geológicas e a localização do país no Cinturão de Fogo do Pacífico faz com que terremotos sejam uma ameaça permanente. Placas tectônicas A parte continental da Colômbia está sobre a placa Sul-Americana. Já as ilhas de Gorgona e Malpelo estão sobre a placa de Nazca, enquanto San Andrés e Providencia ficam sobre a placa do Caribe. O encontro entre essas placas produz movimentos constantes no subsolo. Em determinadas áreas, uma placa pode mergulhar por baixo de outra — processo conhecido como subducção — acumulando e liberando grandes quantidades de energia. John Makario Londoño, doutor em geofísica pela Universidade de Kyoto, no Japão, e diretor técnico de Geoameaças do Serviço Geológico Colombiano, explicou ao El País que a Colômbia está em uma área “sismicamente muito ativa”. Segundo ele, são registrados pelo menos 2.500 pequenos terremotos por mês no país. Pessoas procuram por sobreviventes nos escombros de um prédio derrubado pelo terremoto que atingiu o oeste da Colômbia — Foto: JOAQUIN SARMIENTO/AFP A maior parte desses tremores é de baixa magnitude e não provoca danos ou sequer é percebida pela população. O problema está na possibilidade de ocorrência de eventos mais fortes, capazes de liberar uma grande quantidade de energia de uma só vez. A movimentação das placas também ajudou a moldar a geografia colombiana. De acordo com Londoño, a compressão provocada pelo choque entre as placas contribuiu para a formação das três grandes cordilheiras do país. O processo também provocou fraturas na crosta terrestre, dando origem a falhas geológicas que podem acumular energia e, posteriormente, liberá-la na forma de terremotos. Cinturão de Fogo do Pacífico A situação é agravada pela localização da Colômbia no chamado Cinturão de Fogo do Pacífico, uma extensa área que acompanha as bordas do Oceano Pacífico e concentra grande parte da atividade sísmica e vulcânica do planeta. O país também possui uma região conhecida como “ninho sísmico”, em Santander, onde terremotos ocorrem diariamente. A combinação desses fatores faz com que o território colombiano esteja permanentemente exposto à possibilidade de um terremoto de grande magnitude. Segundo uma reportagem publicada pelo El país, não é possível prever exatamente quando um terremoto vai acontecer. É possível, porém, identificar as regiões onde há maior probabilidade de ocorrência de eventos fortes e estimar sua intensidade. O Serviço Geológico Colombiano mantém mapas históricos com registros dos principais terremotos ocorridos no país ao longo dos últimos quatro séculos. O risco não é igual em todo o território colombiano. Segundo a sismóloga e engenheira civil Gina Villalobos, cidades da região do Pacífico, como Cali, Quibdó e Popayán, estão entre as áreas de maior risco sísmico. A proximidade com o Cinturão de Fogo do Pacífico é um dos fatores que contribuem para a vulnerabilidade. Busca por sobreviventes em prédio que desabou em Cali, na Colômbia, com terremoto — Foto: JOAQUIN SARMIENTO/AFP Também estão entre as regiões consideradas de alto risco cidades do chamado Eixo Cafeeiro, como Armênia, Pereira e Manizales. A área já foi atingida por um terremoto de magnitude 6,2 em 25 de janeiro de 1999, que provocou grande destruição e deixou quase mil mortos. Bucaramanga, no departamento de Santander; Ibagué, em Tolima; e Neiva, em Huila, também são apontadas entre as cidades com alto risco sísmico. Bogotá e Medellín, por outro lado, são classificadas como áreas de risco médio. Isso não significa, porém, que estejam livres de terremotos ou de danos. A capital colombiana, por exemplo, possui pelo menos três grandes falhas geológicas em seu entorno. O último grande terremoto registrado em Bogotá ocorreu em 31 de agosto de 1917. O tremor danificou construções importantes da cidade, incluindo partes da Catedral Primaz, da igreja de Monserrate e da igreja de San Francisco. O perigo não está apenas no terremoto A intensidade de um terremoto não é suficiente para determinar o tamanho da tragédia. Um dos principais fatores para explicar o número de mortos e a extensão dos danos é a qualidade das construções. É por isso que dois países podem sofrer terremotos de magnitudes diferentes e registrar consequências completamente distintas. Pessoas trabalham em escombros de prédio em Cali, na Colômbia, após terremoto de magnitude 7.4 — Foto: JOAQUIN SARMIENTO / AFP Villalobos afirma que a engenharia e os projetos colombianos são, em geral, bons, mas que problemas podem surgir durante a execução das obras. Segundo ela, construções que não seguem os projetos originais ou que ignoram normas sísmicas para economizar tempo e dinheiro podem aumentar significativamente o risco para a população. O geólogo Flover Rodríguez, diretor da Associação de Geólogos e Geofísicos da Energia da Colômbia, também alertou para problemas relacionados ao planejamento urbano. — 88% dos planos de ordenamento territorial dos municípios da Colômbia, que são responsáveis por estabelecer as normas sísmicas, estão desatualizados — denuncia Rodríguez, por telefone, ao El País. John Londoño, por sua vez, afirmou que, apesar dos avanços nas normas de resistência sísmica nas grandes cidades, ainda existem construções que não atendem aos requisitos mínimos de segurança. Entre elas estão moradias destinadas às populações de baixa renda. Isso significa que a vulnerabilidade de uma cidade não depende apenas de sua proximidade com uma falha geológica. O tipo de solo, a profundidade e a magnitude do terremoto, a qualidade das edificações, o cumprimento das normas de construção e a preparação da população também influenciam o impacto de um desastre.