Marcado por críticas ao ex-governador Cláudio Castro (PL) e apelos à pauta da segurança pública, o primeiro debate entre postulantes ao governo do Rio, realizado neste domingo pela TV Band, foi permeado por acusações de ligação com o crime organizado e acenos a figuras que tendem a polarizar a eleição nacional. O debate reuniu quatro candidatos: Douglas Ruas (PL), Anthony Garotinho (Republicanos), William Siri (PSOL) e André Marinho (Novo). Líder nas pesquisas de intenções de voto, Eduardo Paes (PSD) decidiu não comparecer. Veja a seguir, em seis pontos, o que aconteceu no primeiro encontro entre os candidatos no Rio: 1) Acenos a Lula e Flávio Bolsonaro Sob a expectativa de mais uma eleição presidencial polarizada, Ruas e Marinho procuraram sinalizar adesão à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Palácio do Planalto, enquanto Siri declarou voto na reeleição do presidente Lula . Garotinho, que vem se colocando como crítico tanto de Flávio quanto de Lula, só se referiu à eleição presidencial para acusar Paes de “esconder” seu apoio ao petista. Ruas se colocou como candidato da família Bolsonaro, que é vista como um trunfo para ele se tornar mais conhecido e aumentar suas intenções de voto. A última pesquisa Genial/Quaest apontou que 70% dos entrevistados disseram não conhecer Ruas, índice bastante superior aos percentuais de desconhecimento de Paes, que é de 10%, e de Garotinho, de 15%, segundo os dados do levantamento. — Quero agradecer ao (ex-)presidente Bolsonaro, que confiou a mim a missão de concorrer a governador na chapa do próximo presidente da República, Flávio Bolsonaro — declarou Ruas. Como foi criado o videocast 'Fora da bolha' Marinho declarou apoio a seu colega de partido, Romeu Zema, na eleição presidencial, mas também acenou ao presidenciável do PL: — Zema terá meu voto no primeiro turno. No segundo turno, é a direita unida, seja Flávio Bolsonaro ou quem for — declarou Marinho. Já Siri pediu apoio à reeleição de Lula e também declarou voto nas candidaturas ao Senado de Monica Benício, sua colega de partido, e em Benedita da Silva, do PT, que está na chapa de Paes. 2) Ligações com o crime organizado Apesar de a nacionalização ter permeado o debate, a rejeição a figuras da política fluminense, como Castro e o ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj) Rodrigo Bacellar, deu a tônica da maior parte do encontro. Logo no bloco inicial, Siri escolheu perguntar a Ruas sobre vínculos entre políticos do Rio e o crime organizado, que vieram à tona em investigações da Polícia Federal (PF), e disse que o candidato do PL “representa Castro e Bacellar”, alvos de acusações nessa seara. — Você disse que seu sonho era ver Rodrigo Bacellar governador. Se não tivéssemos uma operação da PF colocando ele na cadeia, o Comando Vermelho estaria governando o estado — atacou o psolista, que também disse que buscará “integração” com a PF para fazer novas operações. Garotinho, que apareceu empatado com Ruas na vice-liderança das intenções de voto na última pesquisa Genial/Quaest, divulgada na semana passada, também procurou associar o candidato do PL ao crime organizado. Ele acusou Ruas de ser aliado de Bacellar, “do Comando Vermelho”, mas também direcionou ataques a Paes, que lidera as pesquisas. Logo no início do encontro, Garotinho citou uma antiga aliança de Paes com a deputada estadual Lucinha (PSD), “da milícia”. 3) Ataques a Castro e Bacellar Com a prisão de Bacellar e o ocaso político de Castro -- cuja gestão aparece, na última pesquisa Quaest, com 28% de aprovação e 54% de desaprovação --, ambos se tornaram alvos frequentes dos candidatos no debate da Band. Ruas procurou se desvencilhar tanto de Bacellar, seu antigo aliado na Alerj, quanto de Castro, de quem foi secretário estadual de Cidades. O candidato do PL disse ter “identidade própria” e que “nunca escolheu chefe”, discurso que tem repetido no início da campanha, e procurou se posicionar como defensor da atividade policial para solucionar crises na segurança. Em outro momento, Ruas criticou o desempenho do estado na área de educação sob a gestão de Castro, e apoiou a expansão de escolas cívico-militares como parte da solução. Garotinho, por sua vez, procurou vincular Ruas à gestão de Castro e comparou o discurso do candidato do PL ao adotado, na eleição de 2014, pelo então governador Luiz Fernando Pezão, que buscava se desvencilhar da queda na popularidade de Sérgio Cabral: — Vai fazer de novo o teatro do Pezão, que fingia não ser o candidato do Cabral? Tentar fazer o eleitor de idiota não dá — alfinetou Garotinho. Garotinho ainda se esquivou sobre o apoio do ex-governador Wilson Witzel, outro gestor mal avaliado, à sua candidatura. Segundo Garotinho, a opção de Witzel seria um reconhecimento ao fato de ele ser “o mais preparado”. 4) Paes ausente, mas na mira Aproveitando dobradinhas com André Marinho, para quem escolheu perguntar duas vezes, Ruas direcionou uma série de críticas a Paes, a quem acusou de “praticar agressões contra mulheres”. Ruas citou declarações do candidato do PSD consideradas machistas, quando era prefeito, ao entregar as chaves de uma casa popular a uma beneficiada — na ocasião, ele sugeriu que a mulher usaria a nova moradia para ter relações sexuais, e depois se desculpou pela fala. Ruas também citou uma acusação de violência doméstica feita em 2016 contra um dos principais aliados de Paes, Pedro Paulo (PSD), atual candidato ao Senado. O inquérito do caso foi arquivado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). — Além de praticar agressões contra mulheres, ele (Paes) também se cerca de agressores. Quero dizer ao Paes que, no meu governo, agressor de mulher vai para a cadeia — afirmou Ruas. Marinho, por sua vez, chegou a fazer uma imitação de Paes e o chamou de “fujão” para ironizar sua ausência no debate; o candidato do PSD alegou ter desistido de participar por “orientação jurídica”, já que o período de registro de candidaturas ainda não se encerrou. 5) Apelo à segurança pública Disputando pela primeira vez uma eleição, Marinho — que é filho do empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro (PL) no Senado — buscou apresentar um discurso linha-dura de segurança, e chegou a prometer “matar” chefes de facções caso eles resistam à prisão. Buscando votos na raia da direita na eleição fluminense, o candidato do Novo também fez alusão a reuniões com o vice-presidente americano JD Vance, e elogiou a decisão dos EUA de classificar facções criminosas brasileiras como terroristas. Garotinho, que governou o estado de 1999 a 2002 e foi sucedido pela mulher, Rosinha, também apelou à pauta da segurança pública e elogiou o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que se tornou uma espécie de modelo para candidatos de direita na América Latina. William Siri procurou defender operações da Polícia Federal que miraram a ligação entre políticos do Rio e o crime organizado. Ruas, por sua vez, afirmou que vai incentivar a atividade policial ostensiva e a retomada de territórios hoje controlados por facções criminosas. 6) Menções a governador interino O desembargador Ricardo Couto, que assumiu o posto de governador interino desde a renúncia de Castro, em março, também recebeu acenos dos candidatos. A última pesquisa Quaest apontou que 34% dos entrevistados aprovam a gestão de Couto, índice maior que a desaprovação, de 25%. Siri afirmou que medidas de Couto para valorização de servidores estaduais são “uma parte do que queremos fazer” em um eventual governo do PSOL. Ruas foi outro que buscou afagar o governador interino, afirmando que apoia medidas de “enxugamento” da máquina pública.