O relato de Mariana Rios sobre uma nova experiência de perda chamou atenção para a trombofilia, alteração que pode exigir acompanhamento médico antes e durante a gravidez. A atriz contou nas redes sociais que descobriu que estava grávida em 19 de julho e, pouco depois, passou por uma interrupção da gestação. Segundo ela, foi durante a investigação do episódio que recebeu o diagnóstico, associado a uma maior predisposição à formação de coágulos no sangue. A trombofilia pode ser hereditária ou adquirida e está relacionada a alterações no sistema de coagulação que elevam o risco de trombose. Os termos, porém, não são sinônimos. "Mas é importante ressaltar que são problemas diferentes. Uma pessoa com trombofilia pode nunca ter uma trombose na vida. E quem sofre com trombose não necessariamente tem trombofilia", explica a cirurgiã vascular Aline Lamaita, membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. Durante a gravidez, o quadro merece atenção porque a própria gestação provoca mudanças no sistema de coagulação e aumenta o risco de eventos tromboembólicos. Em mulheres com determinados tipos de trombofilia, esse risco pode exigir avaliação individualizada e acompanhamento mais próximo. Quais são os riscos para a gestação? Segundo o especialista em reprodução humana Rodrigo Rosa, diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo, alterações na coagulação podem comprometer a circulação na placenta. Quando o fluxo sanguíneo é prejudicado, o fornecimento de nutrientes e oxigênio ao feto também pode ser afetado. "Em casos em que apenas parte das veias é obstruída, o resultado pode ser uma diminuição do fornecimento de nutrientes para o bebê com consequente redução do crescimento fetal. Já em casos mais graves, pode ocorrer o descolamento da placenta e até mesmo a morte do feto, levando a partos prematuros e aumentando o risco de aborto", alerta o médico. A relação entre trombofilia e perda gestacional, porém, não é igual para todas as pacientes. A evidência científica varia conforme o tipo de alteração presente. Segundo o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), não há evidências de que anticoagulantes ou aspirina reduzam o risco de perda gestacional precoce em mulheres com trombofilias, com exceção de situações relacionadas à síndrome antifosfolípide. Como a trombofilia é identificada? Um dos desafios está justamente na investigação. Muitas pessoas com trombofilia não apresentam sintomas, já que a alteração nem sempre resulta na formação de um coágulo. Quando há trombose, sinais como inchaço repentino e persistente, dor, mudança na coloração da pele e aumento da temperatura em uma região do corpo exigem avaliação médica. "Inchaço repentino e duradouro, principalmente nos membros inferiores, dor constante, mudança de coloração e aumento de temperatura no local são sinais de alerta para a formação de um coágulo. Mas a trombofilia é, em muitos casos, assintomática, visto que nem sempre leva à formação de coágulos", afirma Aline. A investigação não é indicada indiscriminadamente para todas as mulheres. Histórico pessoal ou familiar de trombose e determinadas complicações obstétricas podem levar o médico a considerar a necessidade de exames específicos. A FEBRASGO recomenda que pacientes com histórico familiar de trombofilia sejam avaliadas para a alteração, preferencialmente antes de uma nova gestação, permitindo o planejamento do acompanhamento. O tema também pode aparecer durante uma investigação de infertilidade. De acordo com Rodrigo, algumas pacientes chegam à avaliação depois de tentativas de fertilização in vitro sem sucesso. "As alterações na circulação causadas pela trombofilia, com aumento do risco da formação de coágulos, podem atrapalhar que a implantação embrionária ocorra como deveria", diz o médico. Como é feito o tratamento? A conduta depende do tipo de trombofilia, do histórico da paciente e do risco individual de trombose ou de outras complicações. Em determinadas situações, o médico pode indicar anticoagulantes, como as heparinas, além de medidas voltadas à prevenção de eventos tromboembólicos. "Podemos prescrever o uso de anticoagulantes, como a heparina, e a adoção de um estilo de vida saudável, abandonando hábitos que figuram como fatores de risco para o problema. Recomenda-se, por exemplo, que a mulher pare de fumar e ingerir álcool, consuma bastante água, adote uma alimentação balanceada, realize exercícios físicos regularmente e evite passar muito tempo na mesma posição. Peso excessivo também figura entre os fatores agravantes, pois o excesso de gordura aumenta o estado inflamatório e dificulta o retorno venoso, tornando a circulação venosa mais lenta", detalha Aline. Mariana Rios é casada com Juca Diniz e mãe do pequeno Palo — Foto: Reprodução Instagram Na gravidez, o acompanhamento deve levar em conta tanto a saúde materna quanto o desenvolvimento fetal. Para Rodrigo, a avaliação conjunta entre obstetra e especialista vascular ajuda a definir a estratégia mais adequada para cada caso. "Por isso, um pré-natal rigoroso é fundamental para garantir a saúde da mãe e do bebê. Além disso, é recomendado o tratamento multidisciplinar do paciente, que deve seguir sendo acompanhado de perto tanto por um obstetra quanto por um médico vascular", acrescenta. A necessidade de anticoagulação ao longo de toda a gestação também não é uma regra para todas as mulheres com trombofilia. A indicação varia conforme o risco individual e o tipo de alteração identificada. "Em casos graves, podemos continuar com o uso de anticoagulantes durante toda a gestação para prevenir o espessamento do sangue e a formação de coágulos. Já em casos em que o risco é menor, apenas o acompanhamento redobrado com um pré-natal reforçado e a adoção de um estilo de vida saudável é suficiente", finaliza Aline.