Anunciaram e garantiram que um ciclone estava chegando, e o cronista acelerou o texto 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O ciclone — Foto: Ilustração Gemini Anunciaram e garantiram que na sexta-feira o mundo ia se acabar, um ciclone de não sei quantas intensidades de pavor ia derrubar as palmeiras imperiais do Jardim Botânico, levantar a ressaca que afogaria Copacabana, e por causa disso a prefeitura soltou alertas desesperados pelos celulares para que todos corressem para casa, o fim estava próximo, pegassem os filhos na escola pois nenhuma álgebra seria mais necessária, puxassem os terços de 59 contas e pedissem com fervor o perdão divino. Já surgia nos computadores da meteorologia municipal a ventania definitiva, aquela que releria o apocalipse, traria de volta a besta de sete cabeças, agora em modo mais radical. Em 1938 foi a mesma coisa. Os nazistas invadiram a Áustria, a previsão de choque de planetas estava na primeira página dos jornais, Orson Welles irradiava em Nova York a invasão de alienígenas, e todo esse quadro de destruição, a batalha do Armagedon finalmente em cartaz, fez com que o anúncio do fim do mundo – o sol ia nascer antes da madrugada – soasse natural. Todos já ouviam as trombetas dos últimos dias tocando por todos os lados, a um ponto tal de alucinação que Carmen Miranda aproveitou o que seriam esses últimos momentos de vida, o fim dos falsos pudores, e saiu beijando na boca de quem não devia, pegou na mão de quem não conhecia, tudo isso conforme relatou na letra do samba que gravou naquele mesmo tresloucado 1938, também anunciando e garantindo que agora era para valer, os gafanhotos chegaram, o mundo ia se acabar. O alerta extremo de vento forte na sexta-feira me abriu na memória as páginas de Incidente em Antares, mais exatamente aquelas em que os sete mortos criados por Érico Veríssimo, impedidos pela greve dos coveiros de descer à terra, permanecem insepultos no coreto da praça, espalhando pela cidade o mau cheiro da morte e, pior que ele, o cheiro daquilo que os vivos gostariam de esconder, as traições conjugais, as corrupções dos poderosos, a pouca vergonha da burguesia que fedia mais do que eles. De repente, o minuano sopra furioso e, varrendo o ar empestado, leva embora a fedentina dos cadáveres moralizadores e permite que a cidade respire de novo as suas hipocrisias, recomponha as aparências de falsa normalidade e todos – os homens de bem, as mulheres recatadas do lar, os políticos que não se emendam – finjam nada ter acontecido naqueles dias de dezembro de 1963. Depois de 1938 e de 1963, eis que na sexta-feira os sete anjos das sete trombetas voltam a tocar o terror, e quando isso acontece é preciso ter pressa, é preciso botar o texto para correr, economizar na abertura de parágrafos, maneirar nos pontos, todas essas boas regras que deixam o leitor respirar feliz. Num momento desses, a ventania anunciada para daqui a pouco, esses bons modos de pontuação só serviriam para atravancar o último desejo do cronista, que – assim como Carmen Miranda beijou na boca de quem não devia – queria aproveitar as linhas da última crônica para escrever do jeito que não podia, desrespeitando o manual de redação – e agora não sabe mais o que fazer porque o mundo mais uma vez não se acabou.
E o mundo, mais uma vez, não se acabou
Anunciaram e garantiram que um ciclone estava chegando, e o cronista acelerou o texto










