Exposição em Nova York explora a evolução de 600 anos do tarô, passando de jogo a prática oculta e entretenimento popular, com cartas que vão desde a origem na Itália do século XV até baralhos criados por artistas como Salvador Dalí 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cartas de tarô em exposição no Morgan Library & Museum — Foto: Divulgação Por volta de 1442, o Duque de Milão presenteou sua filha com um conjunto luxuoso de cartas de baralho feitas à mão para o jogo de corte conhecido como tarô. As cartas, que exibiam figuras como a Morte, o Carruagem e o Imperador meticulosamente ilustradas sobre fundos de folha de ouro e prata, foram criadas por uma renomada oficina renascentista. Elas custaram cerca de 1.500 ducados, o equivalente a dez vezes o salário anual de um cortesão comum. Antes de se tornar uma ferramenta de adivinhação espiritual, o tarô era um jogo de cartas praticado pela nobreza italiana — principalmente pelas mulheres —, e cada carta constituía uma obra de arte que podia ser segurada nas mãos. Agora, a Morgan Library & Museum, em Nova York, vai exibir cartas remanescentes dessa tradição na exposição "Tarot! Renaissance Symbols, Modern Visions". A mostra explora a evolução de 600 anos do tarô, passando de jogo a prática oculta e entretenimento popular. A trajetória vai desde aqueles primeiros exemplares dourados até baralhos criados por artistas como Salvador Dalí, Leonora Carrington e o pintor britânico contemporâneo Chris Ofili. A exposição demonstra que as cartas de tarô são, talvez acima de tudo, uma forma de expressão artística e intelectual, criadas inicialmente por artesãos de destaque em oficinas do século XV e, posteriormente, redescobertas e reinventadas ao longo dos séculos. "Trata-se, acima de tudo, de obras de arte verdadeiramente requintadas", afirmou Joshua O’Driscoll, curador sênior e chefe do departamento de manuscritos medievais e renascentistas da Morgan, que organizou a exposição em parceria com Claire Gilman e Frank Trujillo. Gilman destaca ainda que a exposição explora o atual fascínio popular pelo tarô, um interesse que cresceu desde a pandemia de coronavírus, citando novos baralhos como o "Pulp Tarot", o "Black Power Tarot" e o "RuPaul’s Drag Race Tarot". Curador e chefe do departamento de desenhos modernos e contemporâneos do Morgan, ele acrescenta que o aumento do interesse hoje é apenas um dos ressurgimentos periódicos do tarô. Outros ocorreram durante o Renascimento do Ocultismo Britânico no final do século XIX, na era do surrealismo europeu e como parte da agitação cultural da década de 1960. “Cada um desses períodos compartilha certas condições comuns: a desconfiança em relação às nossas instituições sociais e a desconfiança em formas de pensar racionais e masculinistas”, disse Gilman. Em sua forma original, as cartas de tarô eram usadas em um jogo semelhante ao bridge, disse O’Driscoll, mas o conceito do jogo foi parcialmente inspirado nos "Triunfos" de Petrarca — um poema alegórico do século XIV que estabelecia hierarquias morais. “A Castidade derrota o Amor, a Morte derrota a Castidade, a Fama derrota a Morte, o Tempo derrota a Fama”, explica. “O último é a Eternidade, que derrota a todos.” Além de ensinar moralidade, “era um jogo do intelecto”, destaca. A palavra “trump” (trunfo), usada no jogo, observa, vem do termo italiano "trionfi", ou “triunfo”. Poucos baralhos completos dos primeiros tempos do tarô sobreviveram, mas algumas cartas renascentistas mais valiosas — Visconti de Modrone, Brambilla e Visconti-Sforza — constituem a base da exposição. O jogo provavelmente servia como uma ferramenta pedagógica humanista e divertida para a elite italiana, disse O’Driscoll, tornando-se também um jogo popular entre outros grupos sociais. No entanto, após cerca de 200 anos, a prática caiu em desuso. "Quando os ocultistas se depararam com elas, as cartas já haviam perdido sua ligação com o jogo", disse O’Driscoll. Na França do século XVIII, alguns ocultistas criaram uma história de origem para essas cartas, associando seus símbolos aos hieróglifos egípcios, visto que ambos eram considerados linguagens místicas e indecifráveis baseadas em imagens. Embora a história fosse uma invenção completa, essa mudança alterou o curso da história do tarô, conferindo uma aura esotérica. O baralho que popularizou as cartas de tarô para a adivinhação no mundo de língua inglesa foi o Rider-Waite-Smith, criado em 1909 pela artista Pamela Colman Smith, sob a direção de Arthur Waite. Waite, poeta e místico erudito, escreveu um guia intitulado "The Key to the Tarot". Waite foi uma figura de destaque no movimento ocultista conhecido como Golden Dawn, cujos adeptos incluíam o poeta William Butler Yeats e Bram Stoker, autor de "Drácula". O principal pensador por trás do movimento ocultista do tarô foi Aleister Crowley, mago e escritor inglês que criou seu próprio baralho: o Tarô de Thoth. Gilman afirma que foram provavelmente as ilustrações evocativas de Smith que garantiram o apelo contínuo do tarô nos tempos modernos. "Esse baralho exerce um forte fascínio sobre o imaginário das pessoas", disse Gilman. A maioria dos baralhos atuais contém 78 cartas, incluindo as conhecidas como Arcanos Maiores — cartas que representam figuras como o Mago, o Enforcado e o Diabo — e as cartas dos Arcanos Menores, que compreendem naipes numerados, como Copas, Espadas, Paus e Ouros. Algumas pessoas ainda utilizam o tarô como jogo de cartas, mas outras se sentem atraídas por esses baralhos como um léxico visual que convida a uma narrativa imaginativa. Em parte, segundo Gilman, porque seus símbolos abordam temas universais. “Talvez todas essas cartas se apliquem a todos nós, como a carta do Mundo ou a da Morte, e sejam suficientemente abertas para que você encontre formas de se conectar a elas e descubra nelas aquilo de que precisa”, disse ela.
Como o tarô se transformou de um jogo de cartas da corte italiana em um instrumento de adivinhação
Exposição em Nova York explora a evolução de 600 anos do tarô, passando de jogo a prática oculta e entretenimento popular, com cartas que vão desde a origem na Itália do século XV até baralhos criados por artistas como Salvador Dalí






