Depois de selecionar as vítimas por meio das redes sociais, os criminosos monitoravam as residências, analisavam as ruas onde elas moravam e definiam a estratégia para a execução dos assaltos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Assalto em casa no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio — Foto: Polícia Civil A Polícia Civil do Rio deflagrou nesta quinta-feira uma operação para prender integrantes de uma quadrilha especializada em invadir e assaltar casas de alto padrão na Zona Sul da capital. As investigações apontam que o grupo atuava de forma organizada, com planejamento detalhado e divisão de tarefas. Depois de selecionar as vítimas por meio das redes sociais, os criminosos monitoravam as residências, analisavam as ruas onde elas moravam e definiam a estratégia para a execução dos assaltos. Segundo a polícia, além de vasculharem os imóveis em busca de joias, relógios e outros objetos de valor, os suspeitos obrigavam os moradores a realizar transferências via Pix para contas de comparsas. Em um dos casos investigados, uma vítima foi coagida, sob violência, a transferir mais de R$ 100 mil para a quadrilha. Na operação de ontem, os agentes foram às ruas para cumprir quatro mandados de prisão nos bairros do Andaraí e de Água Santa, além do Morro do 18, todos na Zona Norte da capital. Um dos alvos, identificado como Victor Santana dos Reis, morreu durante a ação. Outras duas pessoas foram presas. Grupo era dividido por funções De acordo com a Polícia Civil, a quadrilha é investigada desde fevereiro. Desde então, outras duas operações já haviam sido realizadas para prender suspeitos de integrar o grupo. Ao todo, seis pessoas foram presas. As investigações apontam que a quadrilha era dividida em quatro funções principais: os "batedores", responsáveis pelo reconhecimento dos locais; os motoristas, encarregados do transporte; os "puladores", que invadiam os imóveis; e os "homens do Pix", que coagiam as vítimas a realizar transferências bancárias durante os assaltos. Chefe está preso Márcio de Oliveira Lourenço, conhecido como Bebel, é apontado pela Polícia Civil como o chefe da quadrilha. Segundo as investigações, ele comandava o esquema de dentro do presídio. Do Complexo de Gericinó, na Zona Oeste do Rio, selecionava potenciais vítimas utilizando, de forma ilegal, um aparelho celular. Por meio das redes sociais, identificava moradores de residências de alto padrão e repassava as informações aos demais integrantes do grupo. A polícia informou ainda que ele acompanhava a execução dos assaltos por videochamada. Depois de definida a vítima, a quadrilha iniciava uma segunda etapa para planejar o crime. Integrantes responsáveis pelo reconhecimento, conhecidos como "batedores", iam até o endereço para analisar a rua, verificar a existência de câmeras de segurança, avaliar a presença de policiamento e identificar os acessos ao imóvel. O grupo fazia um mapeamento detalhado do local antes de definir a execução da ação. Vestindo roupas pretas e com os rostos cobertos, os criminosos invadiam as residências e faziam uma verdadeira varredura em busca de objetos de valor. De acordo com a Polícia Civil, o principal alvo eram joias e relógios. Embora ainda não tenha sido possível calcular o prejuízo total causado pela quadrilha, os investigadores estimam que o grupo tenha obtido mais de R$ 200 mil apenas com o roubo de joias. Câmeras de segurança revelam como assaltantes da Zona Sul atuavam Parte da atuação da quadrilha foi registrada por câmeras de segurança. As imagens mostram assaltantes invadindo residências nos dias 18 e 19 de março deste ano. Em um dos vídeos, dois suspeitos aparecem com os rostos cobertos por camisas; um deles carrega uma mochila e o outro, uma bolsa. Outro vídeo mostra um homem saindo por uma janela. Ele para por alguns instantes, aparentemente conversa com pessoas que ainda estão dentro da residência e, em seguida, deixa o local. Logo depois, outros dois homens, também com os rostos cobertos, saltam pela mesma janela e acessam o quintal. Em nota, a Secretaria de Estado de Polícia Penal (Seppen) informou que colaborou com a Polícia Civil durante a investigação, e que o preso foi transferido para a Penitenciária Laercio da Costa Pellegrino (Bangu 1), onde está em isolamento. "Sobre a ida para presídio federal, a Polícia Civil e a Polícia Penal estão trabalhando em conjunto na tramitação do pedido junto à Vara de Execuções Penais. A instituição reforça que mantém fiscalização constante nas unidades prisionais e ressalta o seu compromisso com a transparência pública, operando sob o controle da legalidade para garantir a ordem do sistema prisional fluminense", diz a nota. Vítimas foram mantidas reféns por três horas Em uma das ações da quadrilha, no último dia 3 de agosto, as vítimas foram mantidas reféns por cerca de três horas enquanto eram obrigadas a realizar transferências bancárias que somaram R$ 30 mil. O crime ocorreu em São Conrado, na Zona Sul do Rio. A partir desse caso, a polícia chegou até Ariadny Martins Soares, apontada como a principal destinatária dos valores transferidos e responsável por repassá-los aos executores dos assaltos. As investigações apontaram que os responsáveis por receber os valores transferidos durante os roubos ficavam com uma parte do dinheiro como pagamento pelo serviço. Em outra ação, a Polícia Civil também prendeu Luiz Paulo Soares Flores, identificado como um dos "homens do Pix" da quadrilha. Enquanto ele era detido, os agentes descobriram que um dos veículos utilizados pelo grupo havia iniciado um deslocamento pela Rodovia Niterói-Manilha, em direção ao município de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. O carro foi interceptado, e Jhosef Natan Barbosa Alves acabou preso. Segundo a Polícia Civil, ele confessou ter comprado o veículo da quadrilha com a intenção de revendê-lo a um ferro-velho em Macaé. Prefeitura monitorou deslocamentos Durante a investigação do grupo, a Central de Inteligência, Vigilância e Tecnologia em Apoio à Segurança Pública (Civitas) levantou informações sobre os veículos utilizados pela quadrilha. Com base nas imagens das câmeras da prefeitura, o sistema identificou o carro usado nas ações criminosas e reconstituiu o histórico de deslocamentos do grupo. A partir dessas informações, foram produzidos relatórios técnicos com os principais trajetos, horários e regiões por onde os investigados circulavam. As análises também ajudaram a identificar as comunidades utilizadas como base pela quadrilha e o padrão de atuação dos criminosos. Segundo a Civitas, o veículo investigado foi registrado com maior frequência nos bairros da Lagoa, Gávea, Rio Comprido e Tijuca. Os deslocamentos ocorriam principalmente durante a madrugada, entre meia-noite e 5h, sendo a segunda-feira o dia com o maior número de registros.