Em 2026, quem tratar a maioria como minoria não vai perder uma bandeira. Vai perder a eleição 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho do Magazine Luiza — Foto: Divulgação/ No dia 3 de agosto, na fila do credenciamento do Expo Center Norte, uma cabeleireira esperou na frente de uma presidente de empresa para entrar no evento. As duas com o mesmo crachá, no mesmo corredor, indo para o mesmo lugar. O Summit Mulheres nas Profissões, do Grupo Mulheres do Brasil, levou umas dez mil mulheres a São Paulo, e a imagem que fica não é a do palco. É a da fila. Luiza Helena Trajano, que preside o grupo, resumiu a proposta sem rodeio. O país já mapeou o problema, o que falta agora é execução. A meta que ela colocou na mesa é metade das cadeiras de decisão ocupadas por mulheres até 2030, no mercado e na política. Ela repete que não é evento, é movimento, com planejamento, metas e prestação de contas. É vocabulário de gestão aplicado a um assunto que costuma ser tratado com discurso. Quem lê isso como agenda de um grupo específico está cometendo um erro de contagem. A maioria do eleitorado brasileiro é formada por mulheres. Não é maioria simbólica, é maioria de urna. Uma pesquisa do Nexus, recontextualizada pelos analistas do Locomotiva, mostra que 77% das brasileiras já enfrentaram barreiras para crescer na carreira pelo simples fato de serem mulheres. Isso não é percepção difusa de uma minoria incomodada. É quase toda a fila. Do evento e das urnas. A barreira da cabeleireira não é a barreira da executiva. Uma esbarra no crédito que chega caro e tarde para quem toca o próprio negócio na ponta. A outra esbarra na pergunta sobre filhos que ainda aparece em entrevista e no critério de promoção que ninguém escreveu em lugar nenhum. Muros diferentes, mesma direção. E quando ela chega ao topo, a conta continua aberta. Mulher em cargo de liderança ganha menos do que homem em cargo de liderança. Mesmo posto, mesma responsabilidade, contracheque menor. O Instituto Locomotiva vem mostrando há anos esse paradoxo. A brasileira estuda mais que o brasileiro e ganha menos que ele. O dado mais duro, porém, é outro. Quando se pergunta às mulheres que chegaram à liderança o que ficou pelo caminho, três em cada quatro dizem que abriram mão de cuidar da própria saúde. Metade abriu mão da saúde mental. Uma em cada quatro abriu mão da maternidade ou do desejo de ter filhos. Agora faça a pergunta ao contrário. Quantos homens são convidados a escolher entre o cargo e o filho? Quantos entregam a saúde como entrada da promoção? A subida delas foi construída sobre tarefas que os homens simplesmente se recusam a assumir. O trabalho de casa, os filhos e o cuidado dos mais velhos seguem quase inteiros no colo delas. Se esse trabalho fosse remunerado, o Locomotiva calcula que somaria cerca de um trilhão de reais por ano ao PIB. É o trilhão invisível que sustenta o país e não aparece em folha de pagamento nenhuma. Não é teto de vidro. É pedágio. E ele é cobrado de um lado só da cabine. Minha hipótese é que essa frustração vai pesar mais em 2026 do que qualquer bandeira ideológica. Os dois nomes que chegarem à reta final vão disputar essa maioria. A pergunta não é se vão falar com ela. É se vão saber o que dizer. Falar com ela não é adotar uma bandeira. É responder a perguntas de mercado de trabalho. Por que a mesma cadeira paga menos quando quem senta é ela? Quem fica com a criança no horário em que a mãe trabalha? Quem sustenta o cuidado dos mais velhos, que hoje sai do tempo dela? São perguntas de rotina, não de manifesto, e é nesse terreno que a maioria decide o voto. O que aconteceu naquele pavilhão tem menos a ver com evento corporativo e mais com organização. Quando a insatisfação vira pauta com meta e prazo, deixa de ser reclamação e vira demanda. Demanda organizada cobra resposta, e cobra de todo mundo, de qualquer campo político. Em 2026, quem tratar a maioria como minoria não vai perder uma bandeira. Vai perder a eleição.
Uma cabeleireira e uma presidente de empresa na mesma fila
Em 2026, quem tratar a maioria como minoria não vai perder uma bandeira. Vai perder a eleição








