0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Complexo operacional da Ambipar em Nova Odessa, São Paulo — Foto: Bloomberg A rescisão do contrato de auditoria da Deloitte com a Ambipar, às vésperas de a recuperação judicial ser anunciada, desencadeou investigação na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e acusação formal contra executivos da companhia de gestão ambiental, apurou a coluna. Estão sendo acusados no novo processo sancionador — isto é, com acusação formulada e que vai a julgamento — Ricardo Rosanova Garcia, que ocupou a diretoria de relações com investidores da Ambipar até janeiro, e Renato Ferreira dos Santos, que o substituiu. A investigação da CVM começou quando, em 20 de outubro passado, a Deloitte comunicou à Superintendência de Normas Contábeis (SNC) do órgão que seu contrato com a Ambipar havia sido rescindido. A Deloitte — que havia assumido o trabalho poucos meses antes, depois de a rival BPO auditar a Ambipar por quatro anos — só avisou a CVM porque a empresa de gestão ambiental descumpriu a regra legal de informar a troca de auditores. Fundo desconhecido O conteúdo do processo na CVM não é público, mas relatório da administração judicial da Ambipar detalha que a investigação inicial do caso foi tratada dentro do órgão como “Comunicação/denúncia”. Nela, a Deloitte apresenta “os motivos que levaram a sociedade de auditoria a renunciar ao trabalho de auditoria a ser desenvolvido na Ambipar no decorrer de 2025”. Chamou a atenção do mercado financeiro uma informação do balanço da Ambipar para o segundo trimestre do ano passado, já sob auditoria da Deloitte. Em uma nota explicativa, a Deloitte dá conta de que mais de R$ 2 bilhões dos R$ 4,6 bilhões do caixa da Ambipar estavam alocados em fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) até então desconhecido e com liquidez entre 30 e 60 dias. Ou seja, grande parte do caixa declarado pela companhia estava em lugar ignorado e, mesmo se os valores existissem, a companhia demoraria para pôr as mãos no dinheiro se fosse preciso. A informação aumentou as dúvidas dos investidores sobre a solidez financeira da Ambipar, que pediria recuperação judicial logo depois, com R$ 10,7 bilhões em dívidas. Revisão, não auditoria Naquele balanço, a Deloitte — que assumira o contrato poucos meses antes — não publicou ressalvas, mas ponderou que não expressava uma “opinião de auditoria”, mas, sim, uma “revisão de informações intermediárias”. “O alcance de uma revisão é significativamente menor do que o de uma auditoria conduzida de acordo com as normas de auditoria e, consequentemente, não nos permitiu obter segurança de que tomamos conhecimento de todos os assuntos significativos que poderiam ser identificados em uma auditoria”, escreveu a auditoria no balanço. Pouco depois, o contrato entre Deloitte e Ambipar foi rescindido por razões que não estão claras. Mas, a partir das informações comunicadas pela auditoria, a área técnica da CVM iniciou investigação e concluiu que os dois executivos acusados devem ser responsabilizados. Ainda não se conhecem, porém, os detalhes da acusação. O caso ainda não tem data para ser julgado.