Nossos clubes atraem, hoje, jogadores melhores do que há dez ou 20 anos, mas isso não se traduz no campo. Não é razoável ver tantos times jogarem menos do que podem 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Confronto entre Fluminense e Vasco, sábado, no Maracanã, foi um dos jogos ruins da Copa do Brasil no sábado — Foto: Marcelo Gonçalves/Fluminense É possível enxergar os três jogos sem gols do último sábado, pela Copa do Brasil, como uma coincidência. E nem sempre empates em 0 a 0 são sinônimos de partidas ruins. Mas quando se coloca a rodada do fim de semana em contexto, o que temos são espetáculos que não fugiram à regra da retomada do futebol após a Copa do Mundo: joga-se sistematicamente mal no país neste momento, e o Palmeiras é das raras exceções. Há uma série de possíveis razões para o mau futebol endêmico, problemas todos eles vistos no insuportável Vasco x Fluminense de sábado. A receita brasileira inclui questões estruturais como o excesso de jogos, viagens, mudanças de temperatura, gramados, o mau comportamento de jogadores e comissões técnicas. Os jogos aqui têm uma carga de tensão acima do limite do aceitável, as discussões por um simples arremesso lateral se sucedem e comemoramos as raras ocasiões em que partidas ultrapassam os 55 minutos de bola rolando, quase sempre exigindo mais de 100 minutos de tempo total, com acréscimos enormes e raramente respeitados. Mas estes são problemas sempre presentes no nosso painel de mazelas. No entanto, o que temos visto também parece ser efeito da volta do futebol após uma parada recorde de 52 dias, que coincide com fases decisivas de Copa do Brasil e o turno final do Campeonato Brasileiro. Os times saem de quase dois meses sem atividade para uma imediata imersão numa maratona de jogos duríssimos a cada três dias. Da forma como está organizado o futebol internacional hoje, é certo que as paradas superiores a um mês serão quase anuais, seja por Mundial de Clubes, Copa América ou Copa do Mundo. E, no Brasil, a retomada em meio a competições que se aproximam de fases decisivas tem outro agravante. O início do segundo semestre coincide com a janela de transferências do verão europeu, época em que os clubes daqui mais perdem atletas. Mas a recente ampliação do poder econômico brasileiro também abriu mais oportunidades para que jogadores importantes venham da Europa para cá. O que nos leva a jogar fases importantes da Copa do Brasil, Libertadores ou Brasileirão em meio a grandes transformações nos elencos. A janela brasileira atual só vai fechar às vésperas da 27ª rodada do Brasileiro. É instabilidade demais para times em fases importantes de suas disputas. O Brasil tomou medidas corajosas recentemente para reduzir Estaduais e ampliar o calendário dos times menores, mas ainda há deveres de casa a fazer. E a inversão do calendário deveria entrar na agenda de debates. Se estivéssemos agora iniciando o ano esportivo, teríamos partidas de Estaduais — ao menos enquanto não terminamos de vez com eles —, permitindo um gradual “aquecimento” dos times até o início do Brasileiro e a volta da Libertadores. A ponderação sobre os problemas de jogar no verão brasileiro, ainda mais diante das mudanças climáticas, já não parece ser levada em consideração. Afinal, terminamos a última temporada nacional no dia 21 de dezembro e começamos 2026 no dia 11 de janeiro. Ou seja, já jogamos no verão. Há, isso sim, um potente argumento contra a inversão do calendário: o fato de as competições sul-americanas serem disputadas de fevereiro a novembro. Faríamos nossos jogadores voltarem de férias e enfrentar os mata-matas da Libertadores, por exemplo, em início de temporada nacional. Seria um desserviço a nossos clubes. Mas o debate precisa estar na mesa, e talvez sirva para todo o continente. Por ora, o maior exercício é melhorar o nosso ambiente local, do comportamento dos profissionais ao calendário. Nossos clubes atraem, hoje, jogadores melhores do que há dez ou 20 anos. Mas isso não se traduz no campo. Não é razoável ver tantos times jogarem menos do que podem.