Rubro-negro e alvivere trocam acusações sobre favorecimento em decisões do VAR 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Leila Pereira, presidente do Palmeiras, e Bap, seu homólogo no Flamengo — Foto: Montagem sobre fotos do Jornal O Globo Os últimos movimentos de clubes brasileiros nas redes sociais indicam uma mudança de paradigma na conturbada relação com a arbitragem nacional. Saem as notas de repúdio genéricas e entram reclamações com uma nova linguagem, mais elaborada, visual e estratégica. Em vez de apenas protestar contra um erro de campo, eles têm construído “dossiês” públicos, com vídeos, comparações de lances, estatísticas, citações diretas aos adversários e críticas direcionadas às decisões de árbitros, do VAR e até do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). A mudança de postura ficou evidente nos últimos dias, em uma sequência de manifestações protagonizadas por Palmeiras, Flamengo e Atlético-MG. Em comum, os casos mostram que os clubes já não se limitam a pedir providências à CBF. O objetivo parece ser a disputa da “narrativa” — a palavra da moda —, que ajuda a criar um ambiente de pressão antes das partidas e reforça a linha argumentativa de que foram prejudicados enquanto seus adversários teriam sido beneficiados. Na última semana, o Palmeiras adotou um discurso duro após uma decisão do STJD, que denunciou o jogador Maurício por uma cotovelada no zagueiro Cacá na goleada alviverde sobre o Vitória pelo Brasileirão (o meia recebeu apenas cartão amarelo). O clube voltou a utilizar suas redes sociais para enumerar casos semelhantes que não tiveram o mesmo olhar do tribunal esportivo na rodada. A estratégia foi ampliada depois da nota divulgada pelo Flamengo, logo em seguida, em que o clube carioca disse haver uma “percepção de favorecimento” ao Palmeiras e sustentou o argumento com uma série de lances de diferentes partidas, comparando critérios adotados pela arbitragem e pelo VAR. O rubro-negro usou estatísticas para mostrar que o alviverde era o recordista de decisões a seu favor desde a implementação da tecnologia, em 2020. A resposta do Palmeiras veio rapidamente nas redes. O clube publicou um comunicado rebatendo as alegações rubro-negras, transformando a discussão sobre arbitragem em um confronto institucional entre os dois concorrentes ao título brasileiro. Ontem, a presidente Leila Pereira classificou a nota do Flamengo como um documento “sem pé nem cabeça”. Ela alegou que o rival tenta criar uma narrativa de favorecimento sem respaldo nos fatos: — Cara de pau absurda, esqueceram o que aconteceu na final da Libertadores. Vocês nunca me viram questionando decisões da arbitragem em campo, isso não pode servir de muleta, mas todo mundo viu. Eles querem o quê? Que a arbitragem volte sem a tecnologia, como no passado? Enquanto Fla e Palmeiras travavam a disputa de versões, o Atlético-MG entrou no debate após o confronto contra o Juventude pela Copa do Brasil. Em comunicado, o clube manifestou “indignação” com a arbitragem e solicitou que a partida seguinte fosse conduzida por uma equipe “isenta”, reforçando o ambiente de pressão sobre a Comissão de Arbitragem da CBF. Segundo os mineiros, houve um “pênalti claro sofrido pelo atleta Natanael, que foi ignorado no campo de jogo e sequer verificado no VAR”. — As manifestações têm múltiplos destinatários: comissão de arbitragem, CBF, STJD e, principalmente, a própria torcida. Em um ambiente dominado pelas redes sociais, demonstrar que o clube está reagindo faz parte da gestão da imagem da diretoria. Embora uma publicação não altere o resultado de uma partida, ela pode aumentar o escrutínio sobre decisões futuras e influenciar o ambiente, fazendo da comunicação mais um elemento estratégico do jogo — analisa Ivan Martinho, professor de marketing esportivo pela ESPM. A CBF foi procurada, mas não pretende se manifestar.