Enquanto um ponto do Alto da Boa Vista registrou média de 23,5ºC nos verões dos últimos cinco anos, em outra localidade, no Jacarezinho, os termômetros beiraram 50ºC 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Sombra e verde na Estrada do Soberbo, no Alto da Boa Vista, onde são registradas as temperaturas mais baixas da cidade; e o bloco de concreto no bairro do Jacaré (abaixo) que irradia calor — Foto: Domingos Peixoto/Agência O Globo Um oásis no Rio, aconchegado pela Floresta da Tijuca, a Estrada do Soberbo, no Alto da Boa Vista, registrou, em cinco anos, média de 23,56ºC nos normalmente quentes meses de dezembro, janeiro e fevereiro. No mesmo período, e na mesma cidade, a 14 quilômetros de distância, aferição similar feita na Portelinha, no bairro do Jacarezinho, na Zona Norte, atingiu média de 49,74°C — ou mais que o dobro. Faça frio ou calor, seja qual for a estação, a experiência com o clima carioca — palco cada vez mais frequente de fenômenos naturais extremos, como o vendaval inédito da última quarta-feira — é marcada por diferenças bruscas a depender da localidade, com disparidade ainda mais acentuada no verão. Esse é o quadro desenhado por um estudo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que analisou a evolução da temperatura no município no intervalo entre 2001 e o ano passado. — Aqui, o asfalto esquenta muito, e a quentura sobe. Quando é verão, eu passo muito mal. Me dá até tontura. Como as casas são muito coladas, janeiro e fevereiro são os piores meses para mim — confirma a moradora do Jacarezinho Maria de Lourdes Nascimento, de 70 anos. A pesquisa “Espaços de calor na cidade do Rio no século XXI” aponta que a Zona Norte, a cada ano que passa, se consolida como a mais quente do município, enquanto a Zona Sul continua sendo a mais amena, em virtude da cobertura vegetal. O trabalho também faz um alerta: embora seja dotada de áreas verdes e ainda funcione mais como “ilha de frescor”, a Zona Sudoeste, que inclui Barra e adjacências, caminha para se tornar a “ilha de calor” que hoje caracteriza a Zona Norte, em função da acelerada expansão urbana e imobiliária. O aviso também vale para a Zona Oeste. Imagens de satélites O estudo concluído em junho, coordenado pelo professor Andrews José de Lucena, do Departamento de Geografia da UFRRJ, usou imagens de satélite para medir a temperatura da superfície (que impacta a temperatura do ar), o índice de vegetação e o índice de área construída em bairros, favelas, áreas de planejamento e regiões administrativas da capital. O relatório apresenta as médias anuais, quinquenais, sazonais e gerais do período analisado (2001-2025). — Os dados mostram que, com exceção da Grande Tijuca, a Zona Norte é uma bomba de calor, com temperaturas e índice de urbanização mais altos e índices de vegetação mais baixos. Entre os bairros que se destacam estão Vila da Penha, Penha Circular, Inhaúma, Pavuna, Del Castilho e Anchieta, que, todo ano, se revezam entre os mais quentes, com temperaturas médias acima de 40ºC — observa o professor. — Por outro lado, ainda que timidamente, surgem alguns núcleos de calor na Barra, no Recreio e em Jacarepaguá, o que deve causar uma certa preocupação, já que são áreas em franco processo de urbanização e precisam de ampla atenção do poder público para não virarem uma “Zona Norte” do ponto de vista climático. Mesmo perto do mar, a Avenida das Américas já desempenha importante papel na disseminação do calor urbano, assim como as avenidas Brasil e Dom Hélder Câmara, a Linha Amarela e os corredores de BRT: Transolímpica, Transoeste, Transbrasil e Transcarioca. Todos esses locais são apontados pela pesquisa — a incidência de calor, nestes casos, é atribuída à ampla área de asfalto e à ausência de natureza. Troca das escadas rolantes do Cristo Redentor começa nesta segunda-feira; veja o que muda para os visitantes — A vegetação consome a energia emitida pelo sol, e a tendência é que o entorno seja mais fresco, diferentemente do que acontece numa área sem vida, em que a energia do sol toca no asfalto, é absorvida e espalhada para o ambiente — resume o especialista. A professora de Educação Física Beatriz Rosa, de 27 anos, circula pela Avenida das Américas diariamente e reclama do desconforto térmico que costuma enfrentar na via. — A avenida é descampada. São poucas árvores, a sensação térmica é bem incômoda. A gente nota a diferença em relação às ruas internas do bairro, que são mais arborizadas — diz. — A cada dia que passa, a gente vê mais prédios subindo, e isso vai só agravando a situação. Tem de haver algum controle sobre essas questões. Mais de 10ºC de diferença No ranking dos bairros com médias mais quentes dentro do período que vai de 2001 a 2025, Del Castilho (37,72ºC), Vila da Penha (35,96ºC), Higienópolis (35,63ºC), Jabour (35,61ºC) e Jacaré (35,59ºC) figuram nos cinco primeiros lugares. Entre os cinco mais frescos estão Alto da Boa Vista (21,4 ºC), Grumari (22,59 ºC), Vargem Grande (22,73ºC), São Conrado (23,26ºC) e Joá (23,34ºC). Nas médias apenas de inverno, uma curiosidade: a distância entre o bairro mais abafado da cidade (Del Castilho, 29,16ºC) e o mais ameno (Alto da Boa Vista, 18,64ºC) passa de 10ºC. Essas temperaturas são as médias dos bairros inteiros. — Eu caminho todos os dias aqui, respirando esse ar puro. Sinto até frio. No verão esquenta mais um pouquinho, mas tem sempre uma fresquinha. É gostoso — reconhece Zilmar Barcello, de 69 anos, moradora do Alto da Boa Vista. Também residente do bairro mais arejado do Rio, a dinamarquesa Maria Hiort Petersen, de 63 anos, é só elogios: — Morar aqui é a melhor coisa do mundo. É muito saudável. Diante daquele friozinho, você quase reza para que tenha alguma coisa para esquentar a casa. É ar limpo, é cachoeira, e a gente bebe água diretamente da bica. É um luxo. Eu não troco isso por nada. Para quem vive o extremo oposto, o do caldeirão carioca, os impactos são grandes sobre a saúde, como observa o professor Heitor Soares de Farias, também do Departamento de Geografia da UFRRJ e participante do estudo: — O corpo humano trabalha em uma zona de conforto térmico ambiental que varia de 20ºC a 25ºC na temperatura do ar. Na cidade do Rio, verificamos temperaturas muito superiores a esse intervalo. As pessoas de baixa renda sofrem ainda mais, devido às características das construções que habitam, com telhas de fibrocimento ou metálicas, ausência de laje, o que resulta em temperaturas ainda mais elevadas no interior das casas. O cenário dificulta uma plena recuperação física e mental durante o sono, levando à exaustão. A sobrecarga térmica pode engatilhar ainda problemas como infartos, arritmias, queda na pressão arterial e fraqueza muscular. Realizado a pedido do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaema/MPRJ), o estudo servirá de apoio a um inquérito civil, instaurado no primeiro semestre, que acompanha e fiscaliza o cumprimento de medidas compensatórias ambientais na capital. Também poderá orientar a atuação do órgão na cobrança de políticas públicas baseadas na natureza, como a ampliação de arborização e a preservação de unidades de conservação. — O que já identificamos é que muitas medidas compensatórias não estão sendo cumpridas. O município autoriza a supressão de vegetação por um lado, porém não consegue ter a mesma eficiência na recuperação desse passivo ambiental. E o estudo nos ajuda a demonstrar que esse déficit traz prejuízos — afirma José Alexandre Maximino, promotor de Justiça e coordenador do Gaema. — Estamos buscando junto ao município uma alteração normativa para prever, por exemplo, o seguinte: se o particular que obteve a licença para construção não cumprir a medida compensatória, o empreendimento ficará suspenso até que ele mude de conduta. Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), Sydnei Menezes avalia que a solução para melhorar o microclima nas regiões mais áridas passa pela implantação da “infraestrutura verde”. — Isso vai além de um plantio de árvore aqui e acolá. Na prática, quer dizer uma política planejada e permanente de implantação de praças e arborização urbana — explica o arquiteto e urbanista. — Outro aspecto importante é manter a permeabilidade do solo. As cidades têm sido vítimas de uma visão rodoviarista, são asfaltadas e preparadas para os automóveis. Em nota, a Secretaria municipal de Meio Ambiente e Clima (Smac) afirma que desenvolve políticas “para promover maior conforto térmico à população”. O texto cita o Mutirão Reflorestamento e o plantio de árvores em calçadas, praças e outras áreas públicas, além de um projeto que prevê a implantação de duas novas Unidades de Conservação em Jacarepaguá.