Cidades do sul do estado estão entre as mais violentas do país, em meio ao avanço de facções, disputas territoriais e alta letalidade policial 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Operação Conexão Perigosa, da Polícia Federal, em Arraial d’Ajuda, distrito de Porto Seguro — Foto: divulgação da Polícia Federal Entre os principais destinos turísticos do país, o município de Porto Seguro (BA) passou a figurar também entre os dez mais violentos no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na semana passada. No quarto lugar do ranking, a cidade registrou 130 mortes violentas intencionais (MVI), atingindo a marca de 71,2 casos por 100 mil habitantes. Outros quatro municípios baianos estão na lista, incluindo a vizinha Eunápolis, que aparece em segundo lugar, com uma taxa de 85,1 assassinatos. Para especialistas, uma combinação de fatores, que incluem a elevada letalidade policial e a atuação de facções criminosas, explica os homicídios registrados na região. Paralelamente, a região virou, segundo analistas, um ponto central para o tráfico de drogas. Os dados do anuário, que correspondem a 2025, indicam uma piora nesses municípios quando comparados à edição anterior. Em 2024, Porto Seguro aparecia em 14° lugar no ranking, com taxa de 59,7 de MVI, enquanto Eunápolis sequer aparecia entre os 20 mais violentos. Vizinhas, as duas cidades são cortadas pela BR-367, que faz parte do trajeto até o Porto de Ilhéus. — Áreas litorâneas têm dois atrativos. O primeiro é o varejo (para venda de drogas) em locais turísticos, que é economicamente interessante. E tem a logística: o entroncamento de rodovias relevantes é estratégico para o escoamento de qualquer produto. Há também o acesso às estruturas de exportação, como portos e aeroportos — diz David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), entidade que elabora o anuário. Para o professor de Direito da UFBA e pesquisador na área de Segurança Pública, Misael França, outro elemento importante é a maior proximidade da divisa com Minas e Espírito Santo: — Essa região se torna favorável para o escoamento de substâncias ilícitas, comercialização de armas de fogo e capilarização de facções do Sudeste por ser fronteira do estado. Porto Seguro e vizinhos compõem um epicentro do tráfico interestadual. Uma das figuras que conectam o crime entre os dois municípios do sul da Bahia é Ednaldo Pereira Souza, o Dada, liderança da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE). Em atividade pelo menso desde 2011, o PCE estendeu a venda de crack, maconha e cocaína para além da cidade que o batiza e passou a atuar nos distritos de Caraíva e Trancoso, na vizinha Porto Seguro. Outros municípios com presença da facção na região são Itabuna, Catu e Santa Cruz Cabrália. Como outras organizações criminosas, o PCE estabeleceu vínculos com o Comando Vermelho. Conexões políticas A aliança garantiu a Dada um esconderijo no Rio de Janeiro após ele ter escapado da penitenciária de Eunápolis em dezembro de 2024 junto a 15 detentos. A fuga expôs possíveis conexões políticas da facção. Afastada dias depois sob suspeita de ajudar na fuga, a ex-diretora da unidade, Joneuma Silva Neres, firmou em abril deste ano um acordo de delação premiada com o Ministério Público da Bahia e disse ter agido a pedido do ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB), preso preventivamente desde então. A defesa dele não respondeu ao GLOBO, mas já disse em outra ocasião que “as acusações são infundadas”. Gordura, Buiú e Dada: lideranças de facções investigadas por disputas territoriais no sul da Bahia — Foto: Reproduções Também em abril, o criminoso baiano se tornou alvo da Polícia Civil do Rio em uma operação no Vidigal que ganhou repercussão após deixar 200 turistas “ilhados” no Morro Dois Irmãos devido à troca de tiros. Dada, que havia alugado uma casa na favela para comemorar o aniversário de 3 anos da filha, conseguiu fugir para a Rocinha antes que os policiais chegassem. Foragido, ele segue a comandar o PCE dos morros cariocas. Em processos que correm na Justiça da Bahia, a facção aparece atrelada a desaparecimentos e homicídios ocorridos ao longo dos últimos anos no sul do estado, por vezes em casos envolvendo disputas com outros grupos, como o Bonde do Maluco (BDM) e o Mercado do Povo Atitude (MPA). Em 2023, um bilhete junto aos corpos do casal Carlos André dos Santos e Ana Julia Freire dos Santos, executados em uma estrada vicinal de Caraíva, sugeriu a presença da facção no distrito turístico. “PCE é bala”, dizia. Também vinculado ao CV, os Anjos da Morte são apontados em processos como responsáveis por elevar os homicídios na Costa do Descobrimento. Liderada por Uillian da Silva Guimarães, o Gordura, a facção atua também em Minas e usa armamento de grosso calibre e explosivos para praticar “intimidação difusa ou coletiva”. Em julho de 2025, a Operação Vértice Zero apreendeu fuzis, rifles, pistolas e munições do grupo em Caraíva. Nove suspeitos foram alvo da ação. Segundo a Justiça baiana, Ludmilla Silva Souza, a Ludy, tinha entre as funções o “monitoramento da população local, turística e policial”. A facção também é investigada por invasão a terras indígenas. A operação expôs outro fator que impulsiona os homicídios na região: a alta letalidade da polícia baiana. A ação terminou com sete presos e cinco mortos, elevando Porto Seguro ao primeiro lugar do anuário de cidades com maior taxa de mortes por intervenção policial (MDIP). Meses antes da Vértice Zero, em maio, policiais mataram a tiros o guia turístico Victor Cerqueira Santos Santana, de 28 anos, confundido com o segurança do traficante Davisson Sampaio dos Santos, o Alongado, também morto na ação. Em julho deste ano, o Ministério Público da Bahia denunciou seis policiais pelo duplo homicídio e dois deles por suposta alteração da cena do crime. Das 130 mortes registradas em Porto Seguro em 2025, 59 foram causadas por policiais. — Hoje, a polícia da Bahia é uma das que mais mata, seja em números relativos ou absolutos — comenta o professor da UFBA Luiz Lourenço, integrante do Laboratório de Estudos em Segurança Pública, Cidadania e Sociedade. Investigações mostram que rixas nacionais entre facções também se reproduzem localmente. A prisão de Gordura, a morte de Alongado e a operação Vértice Zero abriram espaço para a rival MPA, ligada ao PCC, avançar contra os Anjos da Morte, associados ao CV. Inquérito instaurado após o assassinato de um homem no bairro Agrovila, em junho, revelou que o líder do MPA, André Márcio de Jesus, o Buiu, ordenou a expansão da facção sobre áreas da ADM em comunidades rurais de Porto Seguro. Segundo a investigação, a disputa criou cenário de “violência exacerbada”. Em agosto, a Operação Mandrake prendeu quatro suspeitos e bloqueou até R$ 14 milhões dos envolvidos; dois foram mortos em confronto com policiais. Em dezembro, integrantes do grupo foram denunciados também por envolvimento em outro tipo de crime. Segundo o Ministério Público da Bahia, sete criminosos invadiram terrenos usando armas de grosso calibre e ameaças para expulsar os donos. As propriedades eram, então, demarcadas em lotes e vendidas ilegalmente. Entre os terrenos invadidos estão áreas que pertencem à Apae e à Associação Carima, de apoio a agricultores. Questão fundiária A questão fundiária, que envolve fazendeiros, grileiros e indígenas, também contribui para a violência no sul da Bahia, avaliam especialistas. Territórios em áreas rurais são reivindicados por tribos que vivem em tensão com proprietários, com trocas de acusações de violência e de disputas judiciais. No ano passado, dois indígenas foram mortos em Barra Velha, com sinais de emboscada. Outros episódios de violência foram registrados em cidades como Prado e Itamaraju, também no sul do estado. Armas e munições recolhidas na Operação Vértice Zero, em Caraíva — Foto: Divulgação da Polícia Federal O narcotráfico também se faz presente nessas áreas. Há relatos de invasões e ameaças de facções como os Anjos da Morte. Para Luiz Lourenço, um fator que pode explicar o interesse desses grupos nessas áreas é a logística do tráfico. — São territórios cinzentos pela difícil fiscalização e disputados há muito tempo. É uma questão complexa, que envolve fazendeiros e grileiros. Investigações apontam que mortes associadas ao tráfico continuam a ocorrer em Porto Seguro. É o caso do motorista de aplicativo Edinaldo Saraiva da Silva, morto no início do mês na zona rural. Ele teria sido executado por testemunhar o assassinato de um desafeto de facção local. A execução do casal Ulissias Cardial e Vinícius Souza de Carvalho também pode estar ligada ao tráfico. A dupla teria rompido acordo de exclusividade com uma facção para venda de drogas sintéticas, o que motivou o duplo assassinato. As vítimas foram encontradas em uma estrada de terra em 18 de julho. Procurada, a Secretaria de Segurança Pública da Bahia afirma que as mortes violentas caíram no estado entre 2023 e 2025. Nos seis primeiros meses do ano, os assassinatos caíram 20%, com aumento de prisões e apreensões de armas de fogo. “Na região de Porto Seguro e Eunápolis, a SSP destaca as criações do Comando de Policiamento da Região Extremo Sul da PM, da Diretoria Regional da Polícia Civil, além de uma Base de Inteligência que integra Forças Estaduais e Federais”, diz a nota.
Como Porto Seguro, um paraíso turístico no litoral da Bahia, entrou na rota do tráfico
Cidades do sul do estado estão entre as mais violentas do país, em meio ao avanço de facções, disputas territoriais e alta letalidade policial







