Advogado que voltou ao Rio para consertar o barco onde morava, produtor que esperava o nascimento do primeiro filho e ex-atacante que manteve o futebol como paixão tiveram suas histórias interrompidas pela ventania que atingiu o estado na quarta-feira 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Celsom Costa Júnior (à esquerda) trocou a advocacia pela vida no mar. Já os amigos Vandré Cordeiro (de branco) e Tassio Maia morreram juntos após o desabamento de um muro durante o vendaval em Santa Teresa — Foto: Reprodução O vendaval que atingiu o estado do Rio na última quarta-feira deixou um rastro de destruição, milhares de imóveis sem energia elétrica e três mortos. As vítimas tinham histórias distintas, mas compartilhavam projetos interrompidos de forma repentina: um advogado que abandonou a carreira para viver no mar, um produtor que contava os dias para conhecer o primeiro filho e um ex-jogador de futebol que seguia cercado por amigos e pelo esporte mesmo após pendurar as chuteiras. Os três morreram em circunstâncias diferentes provocadas pela força dos ventos. Em Paraty, na Costa Verde, o advogado aposentado Celsom Costa Júnior desapareceu após sair para verificar o barco onde morava. Seu corpo foi encontrado no dia seguinte. Já em Santa Teresa, na Zona Central do Rio, Vandré Cordeiro e Tassio Maia morreram depois de serem atingidos pelo desabamento de um muro enquanto tentavam fechar um portão aberto pela ventania. Celsom: sonho de trocar a advocacia pelo mar O sonho nasceu ainda na infância, quando Celsom Costa Júnior viu o pai conduzir uma embarcação pelo Rio Guaíba, em Porto Alegre. Décadas depois, transformou aquela lembrança em um novo projeto de vida. Há cerca de sete anos, aposentou-se da advocacia para morar a bordo do Avalon, um trawler que ele próprio desenhou e ajudou a construir. O pescador Celsom Costa Jr, em um de seus momentos de lazer no mar de Paraty, exibindo um peixe após a pescaria. Ele desapareceu durante a ventania que atingiu o litoral do Rio e foi encontrado morto na manhã de quinta-feira — Foto: Reprodução Natural da capital gaúcha, percorreu a costa brasileira passando por Santa Catarina, Paraná e São Paulo até fixar residência em Paraty, onde vivia havia cerca de dois anos. Segundo familiares, Celsom passou os últimos dias ao lado da mãe e dos dois filhos em Porto Alegre. No domingo, voltou ao Rio depois de ser avisado sobre um vazamento no Avalon. A intenção era fazer os reparos e seguir sua rotina vivendo no mar. Na quarta-feira, durante a ventania, desapareceu. O corpo foi encontrado na manhã seguinte pelos bombeiros, na Praia de Tarituba. Para a tia, Luana Jardim, a principal marca deixada por Celsom foi a facilidade em criar laços por onde passava. — Era uma pessoa ímpar, amado por todos. Aonde ia fazia amigos para a vida. Cada partida era um chororô, porque todos queriam estar ao lado dele. Vandré: espera pelo primeiro filho Em Santa Teresa, a ventania interrompeu um momento especialmente aguardado por Vandré Cordeiro. Aos 43 anos, ele vivia a expectativa pelo nascimento de Benício, seu primeiro filho, previsto para os próximos dias. Vandré Cordeiro foi um apaixonado por diferentes esportes — Foto: Reprodução Redes Sociais Descrito pelos familiares como um homem agregador, Vandré era apaixonado pelo Fluminense, tocava cavaquinho nas horas vagas e era conhecido por estar sempre disposto a ajudar. — O Vandré era unanimidade. Sempre extrovertido, muito família, muito amigo. Era um suporte para todos nós. Sabia a hora de ser racional e a hora de ser emocional. Sempre fazia qualquer ambiente ficar mais leve — contou a prima Juliana Cordeiro. Vandré trabalhava na Mansão Alvite, em Santa Teresa. Segundo testemunhas, ele e colegas tentavam fechar um portão de ferro que havia sido aberto pela força do vento quando o muro desabou sobre a calçada. Tassio: vida ligada ao futebol Ao lado de Vandré estava o amigo de infância Tassio Maia dos Santos. Os dois cresceram no mesmo condomínio e mantinham uma amizade construída desde crianças. Tassio fez carreira como jogador profissional. Revelado pelo São Cristóvão, atuou entre 2002 e 2019 e ganhou projeção ao defender o Botafogo em 2015. Tassio Maia dos Santos, ex-jogador do Botafogo, é uma das vítimas fatais de queda de um muro em Santa Teresa — Foto: Divulgação Mesmo após encerrar a carreira, continuou próximo ao esporte. Em suas redes sociais, compartilhava registros ao lado de nomes como Ronaldo, Romário, Vinicius Júnior e Roberto Firmino, além de reencontros com antigos companheiros. Depois de deixar os gramados, passou a trabalhar na Mansão Alvite, onde também estava na tarde da tragédia. Vandré e Tassio morreram lado a lado, tentando conter os efeitos da ventania. Familiares e amigos lembram da dupla como inseparável também fora do trabalho: companheiros de infância, seguiram juntos pela vida até os últimos instantes.