Antes da mudança no tempo, o Sudeste estava sob influência de uma massa de ar muito quente e seco. Ao mesmo tempo, uma frente fria se formava e avançava pelo Sul do Brasil, acompanhada por ar mais frio e úmido. Quando esse sistema chegou a áreas de São Paulo e do Rio de Janeiro, o ar frio encontrou a atmosfera aquecida que predominava na região. Essa diferença acentuada de temperatura e umidade favoreceu a formação de ventos muito fortes e organizados, fenômeno conhecido na meteorologia como frente de rajada. ➡️ Em resumo, três fatores ajudaram a intensificar a ventania: o calor e o tempo seco que predominavam no Sudeste;a chegada de ar mais frio e úmido com a frente fria;o forte contraste de temperatura e umidade entre essas massas de ar. Segundo César Soares, meteorologista da Climatempo, o ar frio e úmido conseguiu avançar junto com a frente fria principalmente pelo litoral paulista e fluminense. “O Sudeste estava muito quente e seco, enquanto havia uma frente fria se formando no Sul do Brasil. O ar mais úmido e frio avançou junto com esse sistema e entrou em choque com o ar mais quente e seco que estava na região”, explica. “Esse contraste entre duas massas de ar de propriedades muito diferentes favoreceu a formação de ventos muito intensos. Na meteorologia, chamamos isso de frente de rajada”, afirma Soares. Árvore caiu na Tijuca, na Zona Norte do Rio, durante os fortes ventos. — Foto: Reprodução O que é uma frente de rajada? A frente de rajada é uma faixa de ventos fortes que se desloca à frente de uma frente fria ou de uma área de tempestade. Ela se forma quando o ar mais frio e denso avança próximo ao solo e empurra rapidamente o ar quente que estava sobre a região. Esse movimento funciona como uma espécie de onda de ar que se espalha horizontalmente pela superfície. Por isso, as rajadas podem chegar de forma repentina e atingir várias cidades em sequência, mesmo em pontos onde a chuva ainda não começou ou ocorre com pouca intensidade. ➡️ É como se o ar frio avançasse rente ao solo e empurrasse o ar quente para cima e para a frente. ❗ A frente de rajada, porém, não é um tornado. No tornado, o vento gira em torno de um eixo e atinge uma faixa geralmente mais estreita. Na frente de rajada, os ventos se espalham de maneira mais horizontal e podem afetar uma área muito mais ampla. Também não é necessário que haja chuva forte exatamente no ponto atingido. Em alguns casos, a rajada chega antes da precipitação ou avança para regiões onde chove pouco. LEIA TAMBÉM: Frente de rajada se aproxima antes de uma tempestade no estado do Novo México, nos Estados Unidos. O fenômeno ocorre quando o ar frio da chuva avança por baixo do ar quente e úmido. — Foto: NOAA Por que os ventos passaram dos 120 km/h? No caso desta quarta-feira (29), a ventania avançou do interior em direção ao litoral de São Paulo e depois alcançou áreas do Rio de Janeiro. As velocidades ficaram muito acima das rajadas normalmente registradas durante a passagem de uma frente fria. O principal fator foi o contraste muito acentuado entre o ar quente e seco que estava sobre o Sudeste e o ar frio e úmido que chegou com o sistema. ➡️ Quanto maior a diferença entre as duas massas de ar, mais intensa pode ser a reação da atmosfera. O ar frio é mais denso e tende a avançar por baixo do ar quente. Nesse processo, o vento pode acelerar próximo à superfície. A organização desse fluxo à frente da frente fria formou a frente de rajada. A velocidade também foi favorecida pelo deslocamento rápido do sistema. Em poucas horas, a frente fria saiu do Sul, atravessou áreas do Paraná e de São Paulo e chegou ao litoral do Sudeste. ⚠️ Embora houvesse previsão de ventos fortes, a intensidade observada superou 120 km/h em alguns municípios paulistas. Segundo a Defesa Civil estadual, as rajadas chegaram a: 124,9 km/h em Itaí e Itaporanga;117 km/h em Taquarituba;113 km/h em Paranapanema;111 km/h em Itanhaém;104,8 km/h em Itaberá. Os maiores valores foram registrados principalmente na região de Itapetininga e em áreas do litoral paulista. Centro de Santos teve estruturas destruídas após a ventania. — Foto: Reprodução e Matheus Croce/TV Tribuna Ventos provocaram queda brusca de temperatura Além da força das rajadas, a passagem da frente de rajada também provocou uma redução rápida da temperatura. Em alguns pontos da Região Metropolitana de São Paulo, os termômetros passaram de cerca de 29°C para 20°C ou 21°C em aproximadamente uma hora. ➡️ A queda ocorreu porque o ar quente que estava próximo à superfície foi rapidamente substituído pelo ar mais frio trazido pela frente. Essa mudança repentina é uma das características que podem acompanhar a passagem de uma frente de rajada. O vento também pode mudar de direção em poucos minutos. Antes da chegada do sistema, costuma predominar o fluxo de ar mais quente. Depois da passagem, os ventos passam a transportar o ar mais frio. O Corpo de Bombeiros registrou ao menos 14 chamadas para queda de árvores em diversos pontos da capital paulista. — Foto: Abraão Cruz/TV Globo O tornado no RS foi causado pelo mesmo sistema? A frente fria que atingiu o Sudeste foi a mesma que provocou temporais e estragos no Sul do país. Apesar de estarem associados à passagem da mesma frente fria, o tornado no Rio Grande do Sul e a frente de rajada no Sudeste são fenômenos diferentes. ➡️ A principal diferença está na forma e na extensão dos ventos: o tornado é uma coluna de ar em rotação que toca o solo;a frente de rajada é uma linha de ventos que se espalha horizontalmente;o tornado costuma atingir uma faixa mais estreita;a frente de rajada pode alcançar diversas cidades. ❗ Não houve indicação de tornado nas áreas de São Paulo e do Rio de Janeiro atingidas pelas rajadas mais intensas. Os danos no Sudeste foram provocados principalmente pela velocidade dos ventos associados à frente de rajada e pela grande área atingida. Morador registra tornado em Giruá, no RS — Foto: Imagem cedida/ Renan Bayer Indicadores sobre o clima estão em alerta vermelho LEIA TAMBÉM: