Lula criticava segredos durante gestão Bolsonaro, mas seu governo lança mão do mesmo expediente 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O ex-dono do Banco Master Daniel Vorcaro — Foto: Ana Paula Paiva/Valor Não faz sentido o sigilo de cem anos decretado sobre a lista de visitas recebidas na prisão por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, enquanto esteve detido na Superintendência de Polícia Federal (PF) em Brasília. O pedido, feito pela coluna Ancelmo Gois, do GLOBO, via Lei de Acesso à Informação, foi negado pela PF. Depois de recurso da coluna Malu Gaspar, também do GLOBO, a mesma solicitação foi recusada pelo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva. O que pode haver de tão bombástico numa simples lista para justificar sigilo de um século? Os registros compreendem nome, CPF, data, horário e grau de parentesco dos visitantes. “Caracterizam-se como informações pessoais sensíveis à esfera privada tanto do visitante quanto do detento”, diz a PF em comunicado. “O tratamento de informações pessoais deve observar, de forma estrita, a proteção à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas, bem como às liberdades e garantias individuais.” Lima e Silva alegou a necessidade de preservar informações “relacionadas à intimidade e à vida privada”. Mas o pedido para que fosse encaminhada a lista com tarjas protegendo dados sensíveis também foi negado pela PF. É louvável o zelo da PF e do ministério com a intimidade dos presos. Mas qualquer dado relacionado a Vorcaro hoje é de interesse público. O próprio Supremo Tribunal Federal (STF) divulgou informações sobre suas prisões, relações com o poder, mensagens pessoais e até o financiamento ao filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. Tudo pode ser relevante. O cidadão tem o direito de saber quem visitou o banqueiro na cadeia. Até porque não há nenhum crime em ter visitado Vorcaro. A despeito de promessas de campanha, o atual governo continua a impor sigilos centenários. O mesmo Luiz Inácio Lula da Silva que tanto criticou Bolsonaro pelos abusos lança mão do expediente. “Vou pegar o sigilo e botar o povo brasileiro para saber por que você esconde tanta coisa. Afinal de contas, se é bom, não precisa esconder”, disse Lula em 2022. Uma vez no poder, o roteiro saiu diferente. O atual governo tem negado informações em patamares não muito diferentes do anterior. Não é prática apenas do Executivo. O Senado negou pedido da coluna Malu Gaspar para informar os registros de entrada de Vorcaro na Casa. Alegou seguir a Lei Geral de Proteção de Dados e um decreto sobre acesso a “informações pessoais relativas à intimidade, vida privada, honra, e imagens detidas pelos órgãos e entidades”. No ano passado, o Senado já decretara sigilo de cem anos sobre entradas e saídas do lobista acusado de chefiar o esquema que lesou milhões de aposentados. Vorcaro é acusado de ter liderado uma das maiores fraudes bancárias da História do país. Milhares de investidores tiveram de ser socorridos. Fundos de Previdência de servidores terão de recorrer aos cofres públicos. As investigações mostram que ele pagava uma milícia particular para intimidar e ameaçar quem o contrariasse, em especial jornalistas. E quem o visitou não é de interesse público?
É descabido sigilo de cem anos sobre visitas a Vorcaro na cadeia
Lula criticava segredos durante gestão Bolsonaro, mas seu governo lança mão do mesmo expediente
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