Nesta era do descartável, fui surpreendida com nossa própria comemoração das bodas de ouro (50 anos de casados). Para mim, sempre soava como algo quase inatingível, prerrogativa de casais perfeitos ou de velhos acomodados. Nos últimos meses tenho me perguntado sobre o que contribuiu para chegarmos aqui, imperfeitos, desacomodados e felizes.

Lembrei das instruções recebidas nas reuniões de jovens da Igreja Batista de origem: para um bom casamento é preciso desenvolver a relação em várias áreas: iniciar cultivando intimidade mental e emocional, pela partilha dos interesses e sentimentos. Também reservar tempo para a intimidade espiritual, pela leitura conjunta de textos sagrados. E, no aspecto físico, sentir se há "liga" entre os corpos. Com a recomendação de que esta liga vá crescendo devagar, e não seja a prioridade durante o namoro...

Ensino ultrapassado e cafona? Escutando durante décadas meus pacientes falando sobre seus casamentos, constato que ainda são conselhos sábios a respeito de felicidade conjugal. A vida é feita de várias dimensões, e numa convivência longa importa que sejam cultivadas.

Talvez cause estranhamento que a espiritualidade seja tão relevante. Basta lembrar que, para a maioria das religiões, o casamento é sagrado, realizado simultaneamente na terra e no céu, por assim dizer. O cônjuge é recebido como dádiva divina, portanto, também da ordem do sagrado.