A relação entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP), candidato ao Senado em sua chapa, esfriou desde que ele deixou a Secretaria de Segurança Pública, em dezembro, e os meses de distanciamento entre os dois viraram fontes de queixas entre aliados durante a pré-campanha. Agora, com a proximidade do início da campanha eleitoral, os dois têm ensaiado uma reaproximação, segundo fontes ouvidas pelo GLOBO, e já vêm intensificando as agendas conjuntas. Aliados dos dois políticos relatam que a percepção é de que Tarcísio encampou mais a pré-campanha de seu outro candidato a senador, o deputado estadual André do Prado (PL), e vinha atuado menos para ajudar seu ex-secretário de Segurança Pública. Segundo essas fontes, o deputado teria “politizado demais” a secretaria, e a pasta teria sido usada para que ele alavancasse sua imagem com fins eleitorais de uma forma que desagradou o governador. Mas, de olho em melhorar seu desempenho na política, Derrite tem tentado "colar" mais no governador nas últimas semanas. No geral, Tarcísio e Derrite pouco apareceram juntos nos primeiros meses deste ano: os encontros entre os dois se restringiram a eventos públicos nos quais o senador e candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também está presente. A estratégia do deputado do PP foi de atrelar mais sua imagem a Flávio do que a Tarcísio. Esse movimento, entretanto, desagradou até integrantes do PP, que apontaram que seu baixo desempenho nas pesquisas de intenção de voto estaria atrelado a essa falta de conexão com o governador. Por outro lado, pessoas próximas ao governador apontam que "as portas sempre estiveram abertas" e que teria sido uma escolha do próprio Derrite “colar” mais em Flávio. Desde a semana passada, Derrite passou a mudar o movimento. Os dois se reuniram no Palácio dos Bandeirantes na semana passada, junto a Flávio Bolsonaro. Depois, estiveram juntos no evento do PP que oficializou sua candidatura. Dias depois, o parlamentar do PP participou de um evento do agro em Ourinhos, no interior, ao lado de Tarcísio, e passou a intensificar vídeos com o governador nas redes sociais, algo que praticamente não vinha sendo feito desde então. E nesta segunda (27), o deputado acompanhou o governador na Coopercitrus Expo, em Bebedouro. Postura 'bélica' Casos de violência policial de repercussão nacional e uma postura “bélica”, principalmente em casos de suspeitas de abusos de agentes da segurança pública, foram alguns dos motivos de desgastes entre os dois. Além disso, pessoas ligadas às polícias detectam "falta de articulação" de Derrite para garantir aumento salarial às corporações, especialmente para a Polícia Civil. O ex-secretário foi policial militar da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), considerado o batalhão de elite da PM Paulista. Depois de Derrite sair da pasta, em dezembro, o afastamento dos dois ficou mais evidente. A chapa de Tarcísio tem ele e Prado como pré-candidatos ao Senado, e todos apoiam Flávio Bolsonaro à Presidência. Os quatro inclusive já posaram para fotos em eventos e, oficialmente, caminham juntos. Na prática, porém, o que se tem visto é uma dobradinha mais forte entre Tarcísio e Prado de um lado e Flávio e Derrite do outro. Há uma semana, por exemplo, Derrite e Flávio foram juntos ao Porto de Santos, em São Paulo, onde gravaram vídeos para as redes sociais com promessas de combater o crime organizado, e Tarcísio não estava junto. Agendas recentes do governador voltadas à segurança pública, como a entrega de novas viaturas para as polícias em junho, e a formatura de novos oficiais da Polícia Militar na semana passada, não contaram com a presença do ex-secretário. Nem mesmo a inauguração de uma praça na região onde antes ficava a Cracolândia, cuja extinção é uma das principais bandeiras de Derrite, contou com sua presença. Prado, no entanto, esteve em todos esses eventos. O presidente da Assembleia Legislativa (Alesp) tem acompanhado o governador em quase todas as agendas no último ano, e intensificou a parceria desde o início de 2026, incluindo agora agendas à noite. O governador trabalhou ativamente pela candidatura de Prado junto à família Bolsonaro. Isso porque o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro seria o candidato ao Senado por São Paulo pelo PL, mas se mudou para os Estados Unidos no ano passado e enfrenta processos na Justiça brasileira — a sigla teve de indicar um novo nome. Prado, segundo aliados, atuou como um importante “articulador político” no estado, que Tarcísio não teve durante todo o mandato. E por isso ele abraçou tanto o projeto eleitoral do aliado, dizem fontes ouvidas pela reportagem. O distanciamento entre Derrite e Tarcísio ficou evidente nas redes. No último mês, o ex-secretário de Segurança fez postagens diárias, mas citou Tarcísio poucas vezes, ao contrário de Prado, que faz marcações praticamente diárias ao governador e nos materiais publicitários tem se colocado como "o braço-direito de Tarcísio no Senado". No último dia 20, a chapa completa esteve na convenção estadual do União Brasil-PP, na Assembleia Legislativa, evento que oficializou a candidatura de Derrite. Lá, Tarcísio elogiou o ex-secretário durante seu discurso, destacando sua atuação na época da Segurança Pública. – Outro dia, eu estava falando com empresários e eles agradeceram a redução do roubo de carros. A diferença que o seu trabalho fez. A sua coragem fez. Aliás, falavam que era impossível acabar com a Cracolândia. E a Cracolândia acabou. Também muito obrigado por esses resultados. Muito obrigado por seu trabalho, trabalho em conjunto. E (você) foi gigante nesse processo – disse Tarcísio, olhando para Derrite. Dois dias depois, porém, em uma postagem nas redes sobre a Cracolândia, o governador citou todo o processo de término da Favela do Moinho, incluindo a questão da segurança, mas não citou seu ex-secretário. – Durante décadas, disseram que essa história não teria final feliz. Mas agora, mais de 800 famílias estão recomeçando suas vidas com segurança e dignidade, e o lugar que antes simbolizava abandono dará espaço ao Parque do Moinho, um novo espaço de convivência, cultura e lazer. Nós não permitiremos que as famílias em São Paulo continuem vivendo entre barracos, incêndios, enchentes e sob o domínio do crime organizado. Chega de abandono e de omissão. Nossa população merece dignidade – disse Tarcísio. . Para um aliado de peso do partido de Derrite, o incômodo é justamente a constante “pregação para convertidos”, como ocorreu no evento da Alesp, que no entanto não se repete para “o todo”. E que o apoio de Tarcísio ao ex-secretário “nunca sai disso”. O entorno do ex-secretário, no entanto, tenta apaziguar os ânimos e diz que não há rusgas e que não houve mais encontros entre os dois por questões de agenda. Além disso, a assessoria do deputado afirma que Tarcísio gravou vídeos para a campanha de Derrite esta semana e que tudo está alinhado. Já um aliado de Tarcísio também desmentiu os rumores e afirmou que o discurso de segunda-feira na Alesp fala por si. Para ele, não faz sentido o governador abrir mão de um aliado no Senado, em um eventual segundo mandato em São Paulo, para correr o risco de ver as ex-ministras Marina Silva (Rede) ou Simone Tebet (PSB) se elegendo para uma ou as duas vagas. Mudança de rota na segurança Após a saída de Derrite, Tarcísio nomeou o delegado Osvaldo Nico Gonçalves para a Secretaria de Segurança Pública, em uma mudança de rota na gestão da área em São Paulo. Ele tem postura mais discreta e agregadora, avaliam pessoas ligadas ao setor, além de ter mais trânsito com o Judiciário, o Ministério Público e a imprensa. Esse perfil deve seguir, e o governador aposta em reforçar ações já existentes, como o Muralha Paulista (câmeras de segurança com inteligência artificial nas ruas), a Patrulha SP Mulher Mais Segura, focado na proteção de mulheres, e ações para recuperação de celulares roubados. Visando apoio da tropa, Tarcísio também deve seguir com promessas de valorização salarial para as polícias, já que enfrentou desgastes nessa área durante todo o mandato. Outro problema era a relação de Derrite com a cúpula das polícias. Desde o início de sua gestão, conforme mostrou o GLOBO em 2024, Derrite enfrentava resistência nas altas patentes, principalmente após trocar metade dos coronéis da corporação de uma só vez naquele ano. Um indício recente do desgaste entre governador e deputado foi a indicação do coronel Henguel Ricardo Pereira para a secretaria-executiva da Secretaria de Segurança Pública em fevereiro. Henguel é desafeto de Derrite há anos e, antes, coordenava a Defesa Civil. Após sua nomeação, outras áreas estratégicas da segurança tiveram mudanças, incluindo a transferência de nove coronéis ligados a Derrite. Em fevereiro, foi nomeado o coronel Alex dos Reis Asaka como novo corregedor da Polícia Militar, setor responsável por analisar desvios de condutas de agentes da corporação. Fontes próximas ao governador afirmam que, num eventual segundo mandato, ele deve seguir a linha na área de segurança pública no governo: deixar o órgão nas mãos de Nico ou de alguém com o mesmo perfil. O próprio Henguel ou Marcello Streifinger, titular da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), também cotado para substituir Derrite no fim do ano passado, seriam alguns dos possíveis titulares. A avaliação é que Tarcísio já teria “pago a fatura” com o bolsonarismo ao indicar Derrite e deixá-lo por três anos à frente da pasta, e que o ideal para o futuro é deixar essa área mais técnica e menos “ideológica”.