Cantora Teresa Cristina faz um apelo pela paz na Vila da Penha, bairro onde mora e onde nasceu o colunista 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A cantora Teresa Cristina — Foto: Leo Aversa Querida Teresa Cristina, cantora dos meus sambas esquecidos e musa a quem a cidade deve o ressurgimento da Lapa: Assisti assombrado ao vídeo em que você narra o inferno na Vila da Penha. É o bairro onde você mora e onde eu nasci, vivi por 15 anos e tive paz para ler “Reinações de Narizinho”, me fantasiar de Falcão Negro nos carnavais e curtir a felicidade suburbana de um campinho em frente de casa, o paraíso de barro batido onde eu treinava a perna esquerda, alimentando o sonho de ser o Gérson, no tempo em que ele jogava no Flamengo. Aceite a solidariedade de quem teve sossego no mesmo lugar que você descreve hoje como em cotidiano estado de guerra. Receba em seu coração, cheio de Cartolas e Candeias, a saudação espantada de um moleque que estudou na Escola Grécia do Largo do Bicão, descia a Brás de Pina para cortar o cabelo no estilo Príncipe Danilo e passou a infância e adolescência sem ouvir um tiro. Essa polícia que você pede para dar as caras resumia-se ao guarda-noturno. Bastava. Assim como nunca ouvi um tiro, também não tenho histórias de facções criminosas. Bandido era só o Caveira, vilão de “Jerônimo, o Herói do Sertão”. Dormia-se de janela aberta. Acordava-se com a vaca-leiteira. Não sei se você leu, Teresa, uma crônica em que rememoro uma cena desse subúrbio de almanaque. Nela, o bicheiro Piruinha atravessava num conversível a rua onde eu morava, jogando notas de um cruzeiro para a garotada, eu incluso, que, em algazarra feliz, corria atrás da grana. Parecia Macondo. Era a Vila da Penha do televizinho, da pipa sem cerol, da maria-preta feita com jornal, da brincadeira de carniça, o mesmo lugar que hoje você descreve como um aglomerado cinzento de ruas onde, depois das 18h — horário em que minha família se reunia para rezar a Ave Maria com Júlio Louzada, na Tupi —, ouvem-se granadas, fuzis e metralhadoras. De doído, lembro-me apenas da morte da Zilda do Zé, a compositora do samba “Saca-rolha”, vizinha numa transversal da Estrada do Quitungo, e do que aconteceu com o Maneco. Era um jogadoraço do América e morava em Irajá, o bairro logo ao lado, mais exatamente na rua ironicamente chamada Prosperidade. Em 1956, premido por dificuldades financeiras, Maneco bebeu formicida com guaraná, pondo fim a uma existência cheia de gols. É verdade que, aos sábados, minha mãe degolava galinhas no quintal e recolhia numa bacia o sangue que jorrava do pescoço da coitada — mas acho que a cena era trágica só para a galinha porque dali saía um bife de sangue ótimo. De resto, nenhuma morte violenta me assombrou os sonhos. Que tudo se acalme, Teresa, e minhas memórias cheias de maria-mole, de caixinhas de fósforos repletas de vagalumes, inspirem alguma poesia de volta ao futuro do nosso bairro. Eu morava na Tejupá. Como em “Gente Humilde”, do Chico, Garoto e Vinícius, que você canta tão bem, na fachada da minha casa também estava escrito que era um lar (de Hilda e Joaquim), tinha cadeiras na calçada e, como era uma casa portuguesa, da vitrola saía a voz dramática de Amália Rodrigues cantando que a alegria da pobreza estava na grande riqueza de dar e ficar contente. Peço até desculpas, querida Teresa Cristina, voz que acalmou nossa pandemia, por ficar ostentando como era bom, mas tenho certeza – voltará a ser. Não deixe o samba morrer, não deixe a Vila da Penha acabar. Beijos suburbanos.