Quando a atriz brasileira Melissa Vettore começa a descrever, em italiano, os argumentos usados por uma advogada para desmontar vítimas de estupro em tribunal, a escrivaninha onde ela está sentada começa a girar no palco. Primeiro devagar. Depois mais rápido. Ao fim da cena, ela desce da cadeira tonta, como se tivesse acabado de sair de um táxi em movimento.
Em outro momento de "Prima Facie", monólogo escrito pela australiana Suzie Miller em 2022 e transformado num fenômeno internacional do teatro, Melissa se senta num objeto criado pela companhia do diretor suíço Daniele Finzi Pasca que parece uma mistura de gangorra e centrífuga.
Enquanto a personagem narra uma noite romântica com um colega de trabalho, o mecanismo começa lentamente a se mover. Conforme a situação vai ficando desconfortável e a relação sexual se transforma numa violência, o aparelho acelera até deixá-la praticamente girando no ar.
"A gente entrou na sala de ensaio e eu achava que o trabalho já estava feito, que eu tinha decorado aquele texto imenso e ia fazer como todas as outras atrizes faziam, parada, um primeiro ato e um segundo ato. Mas o Daniele ficou muito tranquilo porque ele sabia que não ia ser nada daquilo. A hora que a cenografia chegou, eu vi que ia falar aquilo rodando, girando, subindo. Foi desesperador. Quase acabou o casamento."






