Em abril, Bolsa de Futuros de Xangai passou a aceitar estrangeiros em seus contratos de níquel Painel na Bolsa de Metais de Londres (LME, na sigla em inglês), cujos preços servem como referência global para materiais como alumínio, cobre, zinco, níquel, chumbo e estanho. — Foto: Tom Skipp/Bloomberg O governo chinês tem dado sequência a movimento que pode aumentar a influência de bolsas de mercadorias do país como referência global de preços. Em abril, a Bolsa de Futuros de Xangai (SHFE, na sigla em inglês), principal bolsa de metais da Ásia, passou a aceitar estrangeiros em seus contratos de níquel e, neste mês, a Bolsa de Futuros de Guangzhou (GFEX, na sigla em inglês), focada em minerais ligados à transição energética, repetiu o gesto com o carbonato de lítio, usado na baterias de veículos elétricos. As mudanças integram um plano anunciado no início deste ano, quando a reguladora do mercado de capitais chinesa, a CSRC, listou produtos espalhados por diferentes bolsas para receber capital estrangeiro. No médio e longo prazos, a abertura pressiona a hegemonia até então conhecida de bolsas ocidentais, que atualmente ditam quanto o mundo paga pelos metais. “Pequim está incentivando suas próprias bolsas domésticas, a SHFE e a GFEX, a negociar commodities e a abrir suas portas para mais investimento estrangeiro”, disse ao Valor Adrian Gardner, analista de mercados de níquel da consultoria britânica Wood Mackenzie. Atualmente, afirmou, investir diretamente no mercado chinês é um labirinto para estrangeiros. “Se estamos falando de uma instituição financeira estrangeira que quer atuar em commodities nas bolsas chinesas, ela não pode fazer isso [diretamente] agora. Existem maneiras, mas é mais caro e o caminho é indireto”, disse Gardner. Segundo ele, o processo exige o uso de corretores específicos e parceiros locais licenciados. Contudo, acrescentou, Pequim tem sinalizado que está disposta a “afrouxar as amarras burocráticas” para atrair mineradoras e fundos globais interessados em negociar contratos de metais como níquel, cobre, entre outros. Na avaliação do analista, o objetivo é “apresentar as bolsas chinesas como fortes competidoras” da Bolsa de Metais de Londres (LME, na sigla em inglês) e da americana Comex, e, eventualmente, capturar volume de negócios que se concentra nessas instituições. Mas a tarefa não é simples. Estudo recente publicado na revista científica Plos One mostra que a LME mantém com folga o papel de principal referência global de preços. De acordo com a pesquisa, que analisou conectividade de preços entre 2017 e 2024, a bolsa de Xangai ainda atua predominantemente como “receptora líquida” de impactos externos. No caso do cobre, por exemplo, a LME é responsável por ditar 42,82% da variação dos preços percebidos na SHFE. E mesmo com esforços de internacionalização da China, disse o estudo, a liderança de preços de Xangai sofreu quedas em relação ao seu teto histórico, influenciado por barreiras institucionais e atritos regulatórios que o país tenta desatar Entretanto, disse o analista, o governo chinês abandonou a postura histórica de proteger o mercado interno da influência externa. “Pequim recuou. Está claro que pretendem permitir que essas bolsas sigam em frente com seus próprios planos de desenvolvimento”, afirma. A possibilidade de negociar diretamente na China gera entusiasmo no setor, especialmente pela chance de realizar operações de arbitragem, prática de lucrar com a diferença de preços entre diferentes bolsas. “Para aquelas empresas que já estão parcialmente envolvidas no uso das bolsas chinesas, acho que elas estão muito animadas com o que está por vir”, diz. Embora o volume de metal que mudará de mãos ainda seja incerto, a maior integração entre os mercados futuros chineses e global deve trazer nova onda de volatilidade aos preços a partir de 2027, segundo o analista. “O impacto será muito mais forte do que podemos entender atualmente”, diz ele, observando que o mercado ainda subestima o tamanho dessa transformação no mercado de metais.