Caracterização das malvadas da teledramaturgia são pensadas para demonstrar força, e estilo é moldado por seus objetivos narrativos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pilar, personagem de Isabel Teixeira em 'Quem ama cuida', é regada a excessos — Foto: Manoella Mello/TV Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O visual extravagante de Pilar em "Quem ama cuida" reflete sua ambição. A figurinista Flávia Costa buscou inspiração em personagens excêntricas de produções internacionais. Especialistas apontam que o figurino exagerado das vilãs serve para demarcar sua força. Essa estética contrasta propositalmente com a vulnerabilidade e os tons suaves das mocinhas. Historicamente, personagens marcantes como Odete Roitman e Carminha usavam a ostentação para dominar a tela. O estilo de cada malvada é moldado por seus objetivos narrativos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Desde o início da novela “Quem ama cuida”, da TV Globo, os espectadores notam que o visual de Pilar — a pérfida vilã vivida pela atriz Isabel Teixeira — está um tom acima em relação aos demais personagens. Um tanto berrantes, como se saltassem da tela da televisão, seus modelos de roupa e seu próprio modo de viver fazem parte de uma composição exagerada. Isso foi pensado para a personagem desde sua fase inicial, sem tantos recursos financeiros, nos primeiros capítulos do folhetim de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, para chegar até o momento atual, em que ela está por cima da carne-seca. Outras vilãs também se notabilizaram por suas características nada discretas, como Odete Roitman (Beatriz Segall e Debora Bloch), de “Vale tudo”, Carminha (Adriana Esteves), de “Avenida Brasil”, e Arminda (Grazi Massafera), de “Três Graças”. Beatriz Segall num momento sorridente, fora do personagem Odete — Foto: Irineu Barreto Filho Ela é uma fera Na primeira fase de “Quem ama cuida”, a caracterização da personagem Pilar incluía bastante animal print, com estampas de leopardo e onça-pintada. Nada mal para uma mulher ambiciosa que desejava abocanhar a riqueza do irmão Arthur Brandão — vivido por Antonio Fagundes — como uma fera à espreita. Com o passar do tempo e já em posse de toda a fortuna após o assassinato dele, ela deixou de lado o estilo selvagem e passou a adotar algo mais refinado. Mas continua exageradíssima. “Perua e extremamente cafona”, descreveu um internauta sobre o visual de Pilar. Bingo: era justamente esta a referência de Flávia Costa, figurinista da novela, para a vilã: — Desde o início, foi um pedido da Amora (Mautner, diretora artística da novela) a gente não ter medo, e isso foi muito desafiador. As pessoas precisam ter raiva dela, precisávamos fazer essa pessoa também pelo seu estilo de vida. Pilar nunca seria uma pessoa clean — conta. Pilar, personagem de Isabel Teixeira em 'Quem ama cuida', é regada a excessos — Foto: Beatriz Damy/TV Globo Percebe-se: rica, Pilar usa dos pés à cabeça joias grossas e brilhantes, come exageradamente nas cenas em que aparece e anda para cima e para baixo com sua cachorrinha Maria Antonieta dentro de uma bolsa. Para a construção da personagem, a figurinista pensou bastante em personagens como a também perua Tanya McQuoid (Jennifer Coolidge), de “The White Lotus” e na socialite Patrizia Reggiani (Lady Gaga), de “House of Gucci”, e na ostentação das ricaças do reality “Mulheres ricas”. Claro, essas referências eram estudadas e depois exageradas em cena, como se a excêntrica vilã fosse uma personagem de teatro, onde o figurino costuma ser mais gritante que o usual. Professora da Escola de Comunicação da USP com pesquisas sobre teledramaturgia, Maria Cristina Mungioli observa que o figurino de uma vilã é construído com base naquilo que move a sua ambição. — A vilã manipula, tem ações fortes, pode inclusive mandar matar alguém e, quando tem posses a seu dispor, precisa ostentar, isso faz parte do seu sucesso. Ela precisa mostrar que está acima dos outros — explica. — A chave de sua vestimenta está basicamente no motivo de sua ambição, no que leva a personagem até aquele arco narrativo. Se o objetivo era ter o dinheiro do irmão (caso de Pilar), ela quer se apresentar de forma poderosa agora que conquistou, não ficar escondida. Como nem só de roupa se faz uma vilã, Joana D’Arc de Nantes, pesquisadora de comunicação na UFF, destaca “caracterização, falas e humor sarcástico” das malvadas na conquista do público. — Não por acaso, muitas vilãs são adoradas — diz. — A vilã e a mocinha precisam ser diferentes, para colocar uma no lugar do bem e a outra no lugar do mal. E os excessos nas vilãs acabam aparecendo também nisso: são um contraponto para construir justamente esse maniqueísmo. COM A LÍNGUA AFIADA >>>>> Personagens venenosas deixaram marcas com frases emblemáticas. Confira algumas delas. ‘O Brasil é um país de jecas. Ninguém aqui sabe usar talher de peixe’. Odete Roitman (Beatriz Segall), de “Vale tudo” (1988), que detestava até respirar na terra natal.‘Nunca perca a classe, nem com a cabeça na guilhotina’. Branca Letícia de Barros Mota (Susana Vieira), de “Por amor” (1997), era uma socialite cheia de glamour.‘Linda, louraça, boazuda, gostosa para caramba’. Com a autoestima em dia, Nazaré Tedesco (Renata Sorrah), de “Senhora do destino” (2004), mantinha a pose sempre.‘Pobreza pega… Pega como sarna’. Bia Falcão (Fernanda Montenegro), de “Belíssima” (2005), tinha horror a gente cafona.‘Gente velha é um perigo, morre por qualquer coisinha’. Flora (Patricia Pillar), de “A favorita” (2008), foi de “boa moça” a assassina.‘Não quero muito da vida, não. Quero é tudo’. Carminha (Adriana Esteves), de “Avenida Brasil” (2012), fazia tudo por dinheiro. Excentricidade e poder Outras vilãs muito lembradas pelo público têm perfil semelhante. Odete Roitman (1988/2025), por exemplo, sempre quis manter o controle da situação e recorria a roupas que quase nunca deixavam a pele à mostra, sempre refinadas e de cortes retilíneos. Em “Senhora do destino” (2004), Nazaré Tedesco (Renata Sorrah) queria o amor da menina que sequestrou para criar como filha e tinha um estilo mais simples — mas também ousava nos modelos. Nazaré Tedesco (Renata Sorrah) em 'Senhora do destino' — Foto: Reprodução/TV Globo Já Flora (Patrícia Pilar), a megera de “A favorita” (2008), buscava sustentar a farsa da imagem de uma mulher inocente e sempre aparecia com roupas modestas. A Carminha de Adriana Esteves em “Avenida Brasil” (2012), por sua vez, disfarçava sua personalidade cruel para exercer o domínio sobre a família de Tufão (Murilo Benício), mas também gostava de excentricidades como o “T” gigante de seu pingente e outras joias. — Com vilãs ricas, geralmente existe essa ostentação. Elas querem ocupar a tela. No caso da Pilar, agora, é uma coisa de rico mesmo: todos os signos de statement precisam estar evidentes para que ela se sinta inserida naquele universo — aponta Flávia Costa. Fascínio de Cruella Uma construção como a dos elementos citados para a vilã continua mesmo em desenhos animados. Malévola, de “A Bela Adormecida” (1959), tinha um visual que provocava distanciamento por meio de adornos em sua roupa, que a faziam parecer acima dos demais. Já Úrsula, com aquele tomara que caia e seus tentáculos, em “A pequena sereia” (1989), transmitia um quê ameaçador, além de sua maquiagem exagerada. Ambas estavam sempre de preto. Sem considerar as ações das personagens, a influencer paraense Duda Borges, de 26 anos, que produz conteúdo sobre estilo, diz que esse visual sempre foi mais chamativo do que o das mocinhas — no caso, as princesas —, em geral retratadas com vestidos em tons pastel, “perfeitinhos e que representam vulnerabilidade”. — As vilãs comunicam uma força que elas têm e que as mocinhas, geralmente, não. Elas têm mais esse entendimento do que as mocinhas — diz Duda, que logo cedo se apaixonou pelo visual da Cruella de “101 dálmatas” (1961). — A gente não concorda com todas as atitudes delas, mas é preciso reconhecer que têm qualidades também interessantes de se admirar para uma mulher. Cruella, vilã de '101 Dálmatas' (1961) — Foto: Reprodução Tanto nos clássicos de princesas da Disney quanto em novelas mais antigas, uma razão de as vilãs serem consideradas mais chamativas seria a matriz melodramática que moldou essas narrativas. Nesse padrão, explica a pesquisadora Maria Cristina Mungioli, a mocinha ocupa tradicionalmente o papel de vítima: é a personagem que sofre humilhações até ser salva por um herói, enquanto a vilã assume o papel de algoz, com um visual que reforça essa presença. — No modelo antigo, a mocinha sempre sofria. Então, o papel da vilã foi construído para ter mais apelo popular: as pessoas ficam com raiva dela — afirma Mungioli, que acrescenta um recorte de gênero à questão. — Hoje, ter uma vilã feminina e uma mocinha que também assume o protagonismo da própria vida reflete uma mudança no comportamento feminino, na forma como a mulher se coloca no mundo.