Na América Latina, o crime organizado descobriu que a política pode ser um investimento mais lucrativo do que uma rota de tráfico de drogas, uma mina ilegal ou uma rede de contrabando. Já não se trata apenas da política do "prata ou chumbo", usada para pressionar autoridades eleitas. Cada vez mais, as economias ilegais procuram intervir antes mesmo das eleições: financiam campanhas, impõem candidatos, controlam territórios ou capturam instituições por dentro. Esta investigação dos veículos do Grupo de Diários América (GDA) identifica um padrão regional. Embora a infiltração ocorra de formas diferentes em cada país, a lógica é a mesma: as economias ilegais deixaram de ser agentes externos ao sistema político e, em vários casos, passaram a participar ativamente da disputa eleitoral. O narcotráfico continua sendo o principal motor dessa infiltração, mas já não atua sozinho. Mineração ilegal, lavagem de dinheiro e corrupção em contratos públicos ampliaram o mapa de riscos. O México exemplifica uma mudança de estratégia. Antes, as organizações criminosas corrompiam autoridades já eleitas. Hoje, começam o processo financiando campanhas para garantir futuras lealdades. Segundo dados reunidos pelo jornal El Universal, duas décadas de reformas para proteger as eleições do crime organizado fracassaram. Acordos políticos, novos mecanismos de fiscalização e mudanças na legislação não impediram que grupos criminosos continuassem infiltrando candidaturas e campanhas. — As políticas públicas implementadas no México serviram apenas para conter o problema na esfera midiática, não para resolvê-lo de fato — disse ao El Universal o consultor de segurança David Saucedo. Na Colômbia, o jornal El Tiempo relata a crescente pressão do narcotráfico, da mineração ilegal e da corrupção sobre o sistema eleitoral. A Missão de Observação Eleitoral identificou 170 municípios com risco de fraude e violência para as eleições deste ano, sendo 81 classificados em nível extremo. O mapa coincide com regiões disputadas por grupos armados e economias ilegais. Em El Salvador, a principal fragilidade é institucional. O jornal La Prensa Gráfica destaca o alerta da organização Ação Cidadã sobre a falta de transparência e fiscalização do financiamento eleitoral. Segundo a entidade, essa deficiência permite a infiltração de recursos ilícitos na política. Financiamento ilícito Em muitos países, o financiamento ilícito raramente chega diretamente às campanhas. Em vez disso, circula por meio de empresas de fachada, contratantes do Estado, laranjas, doações fragmentadas, dinheiro em espécie não declarado ou contribuições em bens e serviços. No Brasil, segundo O GLOBO, facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) encontraram maneiras de influenciar a política explorando brechas legais e utilizando intermediários para movimentar recursos sem deixar rastros evidentes. Na República Dominicana, reportagens do Listín Diario apontam a convergência entre narcotráfico, lavagem de dinheiro e financiamento político. O caso Calamar revelou um esquema de arrecadação de recursos não declarados mediante pressão sobre contratantes do Estado para financiar campanhas eleitorais. Na Colômbia, o problema tem antecedentes históricos, desde o Processo 8000 (que investigou o financiamento da campanha presidencial de Ernesto Samper em 1994 pelo Cartel de Cali) até a recente sanção aplicada pelo Conselho Nacional Eleitoral à campanha de Gustavo Petro para a Presidência em 2022 por ultrapassar os limites legais de gastos e receber contribuições proibidas. No Peru, segundo o El Comercio, muitos candidatos afirmam financiar suas campanhas com recursos próprios ou simplesmente deixam de registrar as doações recebidas, dificultando a identificação da origem do dinheiro. A situação é ainda mais preocupante em um país onde a mineração ilegal movimentou mais de US$ 11,5 bilhões (R$ 59,22 bilhões) em apenas um ano. Territórios capturados Em alguns países, o ativo mais valioso das economias ilegais não é o dinheiro, mas o controle territorial. No Brasil, o principal instrumento é justamente o controle do território. A pesquisadora Carolina Grillo, da Universidade Federal Fluminense, resumiu ao GLOBO: — Eles proíbem determinados partidos de fazer campanha ou impõem candidatos. No México, a violência política tornou-se parte estrutural de diversos processos eleitorais, especialmente em regiões disputadas por organizações criminosas. A Colômbia apresenta um cenário ainda mais extremo. O assassinato do pré-candidato Miguel Uribe Turbay, em 2025, atribuído pela Procuradoria à dissidência Segunda Marquetalia, reforçou que a violência continua sendo utilizada para alterar a disputa política. Segundo o El Nacional, na Venezuela a relação entre economias ilícitas e política é estrutural. No Arco Mineiro do Orinoco e em estados fronteiriços como Apure, Zulia e Táchira, mineração ilegal, narcotráfico e contrabando operam em um modelo de captura do Estado, tornando cada vez mais difusa a fronteira entre poder político e economia ilegal. Quando o crime disputa eleições Em muitos lugares, as economias ilegais não apenas financiam campanhas, mas também colocam seus próprios operadores dentro do sistema político. Na Argentina, reportagens do La Nación mostram que a Operação Sapucay revelou uma rede de narcotráfico em Corrientes com participação do prefeito e do vice-prefeito de Itatí. Em Santa Fé, o senador Armando Traferri foi apontado pelo Ministério Público como articulador político de uma estrutura ligada ao jogo clandestino e ao financiamento ilegal. Na República Dominicana, o Listín Diario documentou quase 20 casos de políticos ligados ao narcotráfico desde 2017, incluindo deputados, prefeitos e vereadores. No Peru, o foco está na mineração ilegal. O El Comercio identificou 64 candidatos ao Senado e à Câmara registrados no Reinfo, cadastro criticado por servir de proteção a operadores da mineração ilegal. Exceções e risco permanente Uruguai, Costa Rica e Chile apresentam menos evidências de infiltração criminosa direta em campanhas eleitorais, mas também enfrentam sinais de alerta. No Uruguai, o El País não registra vínculos comprovados entre narcotráfico e campanhas. Ainda assim, a procuradora-geral Mónica Ferrero alertou para ameaças contra operadores do sistema de Justiça e possíveis tentativas de pressionar parlamentares e jornalistas. Na Costa Rica, segundo o La Nación, o Tribunal Supremo Eleitoral abriu investigações preliminares sobre financiadores de campanhas devido a dúvidas sobre a origem dos recursos. No Chile, de acordo com o El Mercurio, não há casos recentes de financiamento eleitoral ligado a economias ilícitas, e o país mantém mecanismos institucionais de controle considerados mais robustos. O desafio, porém, vai além de identificar quais economias ilegais tentam influenciar a política. Em praticamente todos os países analisados, seguir o rastro do dinheiro tornou-se cada vez mais difícil. No Brasil, há uso de laranjas e doações fragmentadas; na Colômbia, empresas de fachada, intermediários e doações em bens; no Peru, muitos candidatos declaram autofinanciamento ou simplesmente deixam de informar doações; e, no México, dinheiro em espécie e gastos não declarados continuam sendo usados para contornar sucessivas reformas. Em El Salvador, até mesmo um magistrado eleitoral reconhece que a capacidade de fiscalização é insuficiente. As economias ilegais não financiam campanhas por afinidade ideológica. Seu objetivo é obter impunidade, controlar territórios, acessar contratos públicos e bloquear investigações. Mais do que simples doações de origem criminosa, trata-se da criação de uma dívida política que começa a ser cobrada depois das eleições. * Do Grupo de Diários América (GDA), consórcio fundado em 1991 que reúne mais de uma dezena dos jornais independentes mais influentes da América Latina, do qual O GLOBO faz parte.